A juremeira sacerdotisa Maria Rita de Cássia Oliveira lança, dia 4 de janeiro, a partir das 15h30, na Pinacoteca do Estado, em Natal, o livro “Soledade: Cachimbo, Rede e Rosário. Mudanças Sociais, Memórias e Tradições”. A obra sai pela editora Caravela Selo Cultural.
A pesquisa de Maria Rita apresenta o Lajedo de Soledade, no município de Apodi, muito além do famoso sítio arqueológico com imponentes registros de seus habitantes pré-históricos. Com uma visão ampliada, o livro traz um resgate do tempo presente e passado, incluindo histórias dos atuais habitantes e também dos seus antepassados:
“O período pesquisado vai do final do século XX ao momento atual. Seus atores e personagens provavelmente já faleceram, assim como a comunidade já conheceu novas transformações nesses tempos digitais de novas tecnologias de informações. São aspectos e vivências espirituais que possivelmente não caberiam em um trabalho acadêmico, mas, como diz meu mestre, ‘é melhor pedir perdão que esperar permissão’. Nenhum descendente de povos tradicionais, seja africano, seja indígena, deve pedir permissão para relatar as suas experiências ancestrais com o seu povo. Já fomos obrigadas a pedir demais permissão para existir, agora podemos nos permitir sentir, viver e narrar”, destaca a juremeira.
Maria Rita de Cássia Oliveira é mestra em Ciências Sociais pela UFRN e possui especialização em História, Cultura Indígena e Afro-brasileira pela Faculdade FAMART. O campo de pesquisa dela alcança estudos sobre povos tradicionais afro-ameríndios, africanidades, religiosidades, tradição, alimentação, memória, diásporas afro-ameríndias. Também é educadora popular, feminista e ativista dos direitos humanos de povos e comunidades tradicionais.
Debate
Durante o lançamento, Maria Rita conduzirá o debate “A importância do Catimbó-Jurema para a cultura do Rio Grande do Norte”. Também participarão da mesa Pai Freitas Juremeiro, o professor da UFRN Luiz de Assunção, o professor José Roberto e a cientista da religião, Mãe Flaviana Rocha.
Lógica colonialista
Para a pesquisadora, a sociedade continua reproduzindo diariamente a lógica colonialista, buscando origens das tradições e culturas sob uma ótica linear:
“Não somos respeitados nas academias nem somos vistos sequer dignos e dignas de realizar pesquisa sobre nossas tradições sob nossa ótica, nossos saberes, nossas análises. E ainda somos um objeto de estudo em construção, continuamos estudando métodos e teorias de pensadores europeus, alguns nunca viram um povo tradicional”, diz a escritora, que complementa:
“Este trabalho tem muito de mim e das minhas inúmeras incertezas e sonhos. Que possamos nos ver todos e todas como frutos dos povos oprimidos desta terra, para que os opressores nunca mais tenham vez. Assim, Catimbó-Jurema, calundus, capoeiras, mata virgem, encantaria de caboclo, tambor de mina, tirecô, encantados de todas as naturezas, territórios deste país, são todos nossa gente, nossa resistência, nossos saberes ancestrais e que acompanhem, iluminem e fortaleçam para que surja uma história a partir da ótica e das epistemologias dos oprimidos e oprimidas. Saravá!”, concluiu.
Fonte: saibamais.jor.br




