O ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela, realizado na madrugada deste sábado (03), escancarou uma disputa histórica por soberania na América Latina e recolocou o continente no centro das estratégias geopolíticas norte-americanas. Para o professor de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Haroldo Loguércio Carvalho, a ofensiva marca “um extremo distante de qualquer legalidade ou legitimidade” e revela um padrão de intervenção direta quando interesses econômicos e estratégicos são contrariados.
“A agressão dos Estados Unidos à Venezuela, que já vinha ocorrendo com ataques a embarcações supostamente vinculadas ao narcotráfico, atingiu um extremo distante de qualquer legalidade ou legitimidade. A Venezuela não agrediu aos EUA para justificar esta violação, nem houve deliberação favorável do Conselho de Segurança das Nações Unidas”, afirma o historiador.
Segundo ele, a ausência desses dois elementos — agressão prévia e autorização do Conselho de Segurança da ONU — “expõe a ilegalidade da conduta do atual governo Trump”, que, na sua avaliação, “aposta cada vez mais claramente no intervencionismo direto quando seus interesses econômicos e geopolíticos são contrariados”.
Trump, petróleo e a retomada explícita do intervencionismo
Em pronunciamento após a ofensiva, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o país irá “administrar” a Venezuela de forma interina, anunciou a entrada de petroleiras norte-americanas no território venezuelano e declarou que pretende ampliar “o domínio americano no Hemisfério Ocidental”. Trump também invocou a Doutrina Monroe, formulada em 1823, segundo a qual a América Latina estaria sob a influência direta de Washington.
“O domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado”, declarou o presidente norte-americano, ao anunciar que empresas dos EUA passarão a controlar a indústria petrolífera venezuelana. “Vamos fazer o petróleo fluir”, disse.
Para Haroldo Loguércio, esse discurso não apenas confirma o caráter econômico da ofensiva, como evidencia o colapso das normas internacionais construídas no pós-Segunda Guerra Mundial.
“O direito internacional vem sendo jogado fora pelos próprios governos de Estados com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Desde a invasão do Iraque, em 2003, essa prática vem ocorrendo com justificativas que não encontram base na realidade”, analisa.
O professor lembra que, no caso do Iraque, as alegadas armas de destruição em massa “nunca apareceram” e que episódios recentes seguem a mesma lógica.
“A invasão da Ucrânia pela Rússia e o genocídio em Gaza vão na mesma direção e, agora, neste início de 2026, as evidências de que o governo de Nicolás Maduro estivesse atuando como fachada do narcotráfico já não são mais necessárias, porque o fato está consumado na captura, sem precedentes, do presidente de um país em seu próprio território por forças armadas de outro.”
Crise global e regressão civilizatória
Na leitura do historiador, a ofensiva dos EUA contra a Venezuela está inserida em um cenário mais amplo de crise do capitalismo ocidental e de disputa por recursos estratégicos, especialmente o petróleo.
“O uso da força pelo centro do poder é uma condição sempre pronta a ser reutilizada. A ordem internacional do pós-guerra, proposta sobretudo pela iniciativa dos Estados Unidos, desaparece frente a Estados nacionais poderosos que percebem o mundo multipolar como ameaça real ao seu ‘modo de vida’.”
Ele chama atenção para o contraste entre a escalada militar e os desafios globais urgentes.
“A regressão civilizatória é assustadora, considerando que vivemos uma emergência climática global e que os esforços para coordenar ações de mitigação são relegados a letras mortas de acordos não cumpridos.”
Nesse contexto, segundo Haroldo, a disputa entre Estados Unidos e China por petróleo e outros insumos estratégicos tende a aprofundar conflitos.
“A necessidade de petróleo e outros materiais estratégicos por parte dos contendores da disputa global, EUA e China, vai corroendo qualquer expectativa otimista quanto ao futuro.”
América Latina sob aviso
Para o professor da UFRN, o ataque à Venezuela envia um recado direto a toda a América Latina.
“Os Estados Unidos anunciam com esta atitude bélica que seus objetivos estratégicos estão em assegurar as Américas como seu polo prioritário de poder diante da evidente crise de hegemonia que experimentam nas últimas décadas.”
Ele avalia que o impacto vai além da Venezuela e se conecta com dinâmicas internas dos países da região.
“A capilaridade da mobilização ideológica contra governos de perfis progressistas é ampla e encontra respaldo em parcelas crescentes das populações da região.”
Segundo Haroldo, fatores como aumento da pobreza, desigualdade social, presença do crime organizado, milícias e narcotráfico alimentam a sensação de insegurança e fragilizam a democracia.
“Nesse ambiente corrosivo, a democracia padece. Soluções autoritárias e arbitrárias vão sendo tomadas como normais e necessárias.”
O historiador observa que esse cenário não se limita a países historicamente mais desiguais.
“Se olharmos para as últimas eleições em países como Uruguai e Chile, vemos que a questão da segurança também ganha protagonismo, abrindo espaço para governos ultraliberais de perfil conservador e autoritário. Nós, no Brasil, já tivemos uma experiência traumática entre 2019 e 2022.”
O que isso tem a ver com o Brasil e o RN
Na avaliação de Haroldo Loguércio, o Brasil não está à margem desse processo.
“Em termos de poder regional, não restam dúvidas de que teremos que acrescentar a variável da ação unilateral dos Estados Unidos em todos os processos políticos daqui para frente.”
Ele lembra que projetos de integração regional, como Mercosul e Unasul, foram esvaziados ao longo das últimas décadas, abrindo espaço para um retorno a relações fragmentadas e subordinadas.
“Emergem projetos exclusivistas e fragmentários que jogam a América Latina de volta ao século XIX, quando cada Estado buscava se mostrar o mais submisso possível ao poder global da ocasião.”
Para o historiador, esse cenário ajuda a compreender também a divisão política observada no Rio Grande do Norte, onde parlamentares reagiram de forma oposta ao ataque, refletindo disputas mais amplas sobre soberania, alinhamento internacional e democracia.
“Os valores que alimentaram por décadas a luta por cidadania, democracia e soberania vão sendo preteridos por segurança, proteção e identidade ideológica. Vivemos tempos muito difíceis e precisamos definir, neste ano eleitoral, em que sentido vamos apostar nosso futuro.”
Fonte: saibamais.jor.br




