Proibida de ler pelo pai, paraibana é aprovada em universidade federal e ensina na escola onde voltou a estudar

Foto: Josineide Barbosa da Silva/Arquivo pessoal

As letras desenhadas com gravetos em qualquer pedaço de terra prometiam descortinar um futuro esperado e sonhado, mas ao mesmo tempo incerto para Josineide Barbosa da Silva. Proibida de ler e escrever pelo pai no começo da adolescência, a paraibana, de 55 anos, voltou a estudar aos 35.

Hoje, depois de uma longa trajetória marcada por dificuldades, desafios e vitórias, ela é psicopedagoga e não só aposta, mas ensina como a educação pode transformar vidas.

Os passos da estrada trilhada por Josineide começaram a ser dados um a um ainda em Bayeux, cidade que fica a pouco menos de 20 quilômetros da capital João Pessoa. A fome, a dificuldade financeira e a falta de emprego fizeram com que a família dela se despedisse da terra natal e mirasse o Rio de Janeiro como um refúgio, um terreno fértil de oportunidades.

Os pais analfabetos, um pedreiro e uma dona de casa, não enxergavam a educação como uma prioridade. Afinal, colocar comida na mesa demandava um esforço maior do que deveria. E essa garantia pareceria ser o mais importante.

Ao mesmo tempo, a ansiedade para aprender a ler e escrever fez com que Josineide usasse os recursos que, embora talvez inimagináveis, estavam disponíveis e não custavam nada além de uma pouco da boa vontade dela.

“Eu já rabiscava o chão. Não podia ver um graveto. Desenhava as letras no chão. Fui crescendo assim com essa inquietação”, lembrou de quando fazia o chão de caderno, com o saudosismo saltando pela voz.No seio familiar, Josineide era a primogênita, a mais velha entre sete irmãos. Só que isso apenas na teoria. Na prática, tomava conta da casa e era a babá dos mais novos.

“Eu servia dentro de casa como uma mão de obra, porque eu ajudava minha mãe a cuidar dos meus irmãos e da casa. Minha mãe tinha esquizofrenia. De vez em quando ela surtava”, recordou enquanto respirou fundo e teve de volta à mente algo que não quer reviver.

Por isso, depois de muita insistência, Josineide entrou na escola somente aos oito anos. Mesmo na infância, quando tudo deveria ser divertido, foi como aliviar um peso carregado diariamente sobre os ombros.

“Quando eu entrei na escola pela primeira vez foi incrível. Quando eu coloquei meu pé naquela sala, foi algo maravilhoso. Foi como se eu me despertasse pra vida e passasse a olhar pra mim, já que a minha vida inteira eu só cuidava dos outros. Eu cuidava da minha mãe, ajudei a criar meus irmãos”, reforçou enquanto lembrou de quando descobriu um mundo cheio de cor.

Em casa, tudo mudava. Ficava cinza, sem espaço para a imaginação. Nem um conjunto de caderno e lápis podia ficar ao alcance da visão. A rotina doméstica exigia tarefas que ocupavam tanto tempo, que não podiam ser conciliadas com os estudos.

Por outro lado, rapidamente Josineide foi alfabetizada. Passou a ler e escrever de forma natural e fluida. Viajando pelas páginas dos livros, encontrou conforto, que só sentia quando era abraçada pelas folhas amareladas dos raros romances que mais raramente ainda conseguia ler.

“Não tinha biblioteca acessível. Eu fuçava nos lixos”, lembrou que era assim que encontrava esperança em forma de verso e prosa.

Em uma passagem pela feira, tropeçou na sorte de encontrar um senhor – jamais esquecido – que a ajudou com vários exemplares emprestados.

Os preferidos, desde o início, sempre contaram histórias de amor, que precisavam ser escondidos da família, especialmente do pai.


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