Final de ano é sempre assim, estradas lotadas e vagas para ir ou voltar ao destino sempre disputadíssimas. Consegui uma vaga por um aplicativo de caronas pagas, depois de um dia de atraso do meu retorno. Combinado preço, horário e local de saída, despedi-me da amiga que havia me recebido para festejar as festas de final de ano na capital do Potiguar e segui para o local marcado.
Celular na mão, vi quando a mensagem, estou entrando no estacionamento da loja (não disse que havíamos acertado que embarcaria em uma grande loja de departamento), Prisma Cinza. Vi quando o carro parou um pouco mais à frente de onde me encontrava e um jovem militar acenou para o carro que logo parou. O motorista saiu e abriu o porta-malas. Foi nesse momento que me aproximei e chamei o motorista pelo nome. Era ele, cumprimentamo-nos.
Entrei no carro, no banco de trás, já que o militar se sentou no banco do carona, enquanto o motorista pedia que esperássemos um pouco mais, pois havia duas pessoas para chegar. O terceiro passageiro chegou, e logo reconheci que havia sido meu aluno em uma determinada época. Cumprimentamo-nos com uma certa alegria, dessas espontâneas quando nos deparamos com alguém que um dia atravessou nossas vidas. Cresceu. O rosto ainda era o mesmo, mas agora vinha com a pressa dos adultos e o vício de olhar para baixo, para a tela do celular. Sorrimos como quem se lembra de uma palavra antiga.
O quarto integrante desta história também chegou em seguida, como era um rapaz corpulento, o militar teve que trocar de lugar para melhor acomodação de todos, a pedido do motorista que percebeu o aperto em que ficamos quando este último passageiro tentou fechar a porta traseira do carro com um certo esforço.
O motorista era o dono do destino. Paraibano forrozeiro, empresário, hétero até no jeito de segurar o volante. O carro era dele, a rota era dele, a playlist também. Seu destino, assim como o do militar e o do nerd corpulento, era Pombal, na Paraíba. Eu e meu ex-aluno irímos descer durante o trajeto em cidades vizinhas. Na tentativa de ser simpático, e parecia que era mesmo, além de conversador, puxou logo conversa.
Começou falando sobre empréstimos bancários, juros que comem o lucro, bancos que nunca perdem. Houve duas respostas mornas, talvez três. Depois, o assunto morreu na curva seguinte. Tentou falar sobre outro assunto: perda de qualidade de vida, o que também resultou em poucas e mirradas respostas. Sem saber sobre que tema lançar sobre a heterogeneidade dos passageiros, preferiu dar um play na sua playlist.
Na frente, o nerd sedentário (dava para saber pelo cuidado excessivo com o vídeo game no porta-malas) colocou os fones e se ausentou do mundo. O militar da aeronáutica fez o mesmo ritual: fones com um som altíssimo, óculos escuros, e antes mesmo de pegarmos a rodovia, já estava de cabeça pendendo, num sono profundo, desses que escorrem pelo canto da boca. Restávamos eu, o ex-aluno agora biólogo, o motorista com sua playlist e o silêncio.
Abri O fazedor, de Borges, não para ler de verdade, mas para demarcar minha fronteira, já que todos tinham erguido as suas. Ler, às vezes, é só um jeito educado de não participar. Ainda assim, o menino me cutucou uma ou duas vezes durante o trajeto sobre as festas de réveillon ou com comentários baixos sobre o impacto ambiental das mineradoras, sobre os parques eólicos que recortavam a paisagem entre Natal e as cidades do Seridó onde iríamos desembarcar. Falava rápido, sem me olhar, como se conversasse com o próprio pensamento. Eu respondia pouco. Concordar era fácil; discutir exigiria quebrar o silêncio, e ninguém parecia disposto a isso.
O motorista preenchia os vazios com forrós das antigas e a sofrência de Pablo. A sanfona subia, a voz chorava, e o carro seguia. A música e as notificações dos celulares eram as únicas coisas que se moviam entre nós. O resto era contenção. Cada um guardava sua história como quem protege um objeto frágil no colo. Estávamos todos entre parênteses.
Notei que, enquanto eu estava ali, os fones, o forró, o celular e o livro eram nossos escudos. Não me ofendi, mas fiquei fazendo a leitura disso e pensando: “isso dá uma crônica”. Pensei também que o silêncio também é uma forma de educação e que às vezes, ele protege mais do que qualquer palavra.
Meu ex-aluno, desceu primeiro que eu, o que fez com que o militar despertasse e que ganhássemos mais espaço do banco traseiro. Porém, isso não alterou o silêncio que imperava entre, agora, nós quatro. Quando desci, no ponto combinado da cidade onde ficaria, o carro respirou diferente. O motorista foi até o porta-malas para me dar minhas bagagens, despedimo-nos cordialmente, agradeci a excelente condução, desejei-lhe boa viagem e um ano bem próspero, afinal, hoje são dois de janeiro do novo ano. Os fones não saíram dos ouvidos dos outros dois passageiros que continuaram indiferentes à minha saída. A porta fechou-se e o carro seguiu, ouvindo apenas a música que tocava incansavelmente na playlist do simpático motorista paraibano.
Fiquei ali, com Borges debaixo do braço, pensando que cinco pessoas podem dividir o mesmo transporte, indo para o mesmo destino ou para cidades próximas e, ainda assim, viajar sozinhas. O silêncio, esse sim, foi o único que fez o trajeto completo, quebrado apenas pelos grandes sucessos do forró e a choradeira de dor de cotovelo de Pablo: “Sempre vai ser eu a Mega Sena da virada que você perdeu/ Sempre vai ser eu aquela história de amor sem um ponto final/ Sempre vai ser eu que tem a chave do seu coração original/ Sempre vai ser eu, sempre vai ser eu…”
Fonte: saibamais.jor.br




