*por Marcus Demétrios (@marcusdemetrios) – Especialista em Gestão Pública e presidente do PSB (Partido Socialista Brasileiro) de Parnamirim.
Enquanto a base bolsonarista classifica o líder venezuelano como ditador, as investigações sobre os atos antidemocráticos no Brasil revelam um roteiro autoritário similar.
No cenário político atual, poucas palavras são usadas com tanta frequência e fervor pela base de apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro quanto “ditadura”. O alvo preferencial é Nicolás Maduro, líder da Venezuela. Para este grupo — frequentemente apelidado nas redes sociais de “patriotários” — Maduro é a encarnação do mal político por dois motivos centrais: a fraude sistemática de eleições e a perseguição implacável de adversários com o suporte das Forças Armadas.
No entanto, essa indignação seletiva esbarra em um obstáculo intransponível: a realidade dos fatos recentes no Brasil.
Ao apontar o dedo para o vizinho ao norte, o bolsonarismo parece ignorar o reflexo no espelho. Se a definição de tirania envolve a manipulação da vontade popular e o uso do Estado para fins de poder, é imperativo revisitar o histórico recente de 2022 e 2023.
A acusação de que Maduro frauda eleições encontra um paralelo doméstico na campanha sistemática de Jair Bolsonaro contra as urnas eletrônicas. Sem apresentar provas, o ex-presidente criou uma teoria da conspiração sobre fraudes inexistentes, minando a confiança nas instituições democráticas exatamente como fazem os autocratas que preparam o terreno para contestar derrotas.
Mais grave ainda foi a tentativa de impedir o exercício do voto. No dia do segundo turno, o Brasil assistiu ao uso da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em blitze que, estatisticamente, visavam dificultar o trânsito de eleitores em redutos da oposição. Se Maduro usa os militares, o bolsonarismo instrumentalizou a polícia de Estado.
O texto da história recente ganha contornos ainda mais sombrios com as investigações da Polícia Federal. O que se desenha não é apenas retórica política, mas um plano arquitetado de ruptura institucional. As apurações apontam para a existência de minutas golpistas, planos para a destituição de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e, conforme revelações recentes, até mesmo cogitações sobre a eliminação física de adversários políticos (o plano “Punhal Verde e Amarelo”).
O clímax dessa narrativa ocorreu em 8 de janeiro de 2023, quando a praça dos Três Poderes foi tomada em uma tentativa clara de golpe de Estado, incitada por anos de retórica inflamada.
Diante desse quadro, a lógica aristotélica nos obriga a fazer uma pergunta desconfortável aos críticos de Maduro que apoiam incondicionalmente o ex-presidente brasileiro.
Se fraudar a confiança no sistema eleitoral, usar forças policiais para impedir votos, planejar a morte de rivais e tentar tomar o poder à força são as características que definem um ditador na Venezuela, qual termo resta para definir Jair Bolsonaro no Brasil?
A hipocrisia, neste caso, não é apenas um defeito moral; é uma cegueira política deliberada.
Fonte: saibamais.jor.br




