O mês de janeiro, marcado nacionalmente pela campanha Janeiro Branco, convida a sociedade a refletir sobre a importância da saúde mental e do cuidado psicológico. Em Natal, porém, o período também evidencia uma série de dificuldades enfrentadas pela Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que afetam diretamente usuários, familiares e trabalhadores do Sistema Único de Saúde (SUS).
Um dos principais pontos de atenção é a situação do Centro de Atenção Psicossocial III Leste (CAPS III Leste), serviço responsável pelo atendimento integral em saúde mental da população adulta da zona Leste da cidade. A unidade funcionava em um imóvel alugado que foi interditado pela Vigilância Sanitária em julho de 2024.
Com o fechamento, o serviço foi fragmentado: o ambulatório passou a funcionar no prédio do Ambulatório de Prevenção e Tatratmento de Tabagismo, Alcoolismo e outras Drogas (APTAD), no bairro de Neopólis, uma sala de reuniões foi improvisada no auditório da Unidade Básica de Saúde de Pirangi e os leitos foram redistribuídos entre dois CAPS AD (Álcool e Drogas).
Essa divisão afetou os pacientes, mas também a equipe multiprofissional, que passou a atuar de forma dispersa, com parte dos profissionais no APTAD e outros em regime de plantão nos CAPS AD. Segundo relatos de usuários, a fragmentação comprometeu profundamente o funcionamento do serviço, causando a interrupção de atendimentos psiquiátricos regulares, a suspensão de grupos terapêuticos, a ausência de espaços de convivência e até a falta de lanches, elementos fundamentais para a lógica de cuidado dos CAPS, baseada na convivência e no vínculo.
A situação é ainda mais preocupante diante do atraso na construção da sede própria do CAPS III Leste, cuja entrega estava prevista para janeiro de 2024, mas que sofreu sucessivas interrupções e segue inacabada.
O fechamento do CAPS III Leste também impactou diretamente o CAPS AD III Leste, que passou a receber usuários para internação em seus leitos. O desafio, nesse caso, tem sido integrar em um mesmo espaço pessoas com transtornos mentais graves e usuários em tratamento por uso abusivo de álcool e outras drogas, perfis distintos que demandam abordagens específicas de cuidado.
Já o CAPS III AD Norte, localizado no bairro Potengi, segue em funcionamento 24 horas, mas enfrenta sérios problemas estruturais. Em vistoria realizada hoje (7) por Paulo Martins, da direção do Sindicato dos Trabalhadores em Saúde do Rio Grande do Norte (SindSaúde/RN), foram constatadas falhas como ausência de portas, portões e muros, portas enferrujadas, janelas quebradas e falta de vigilância.
A unidade depende de trabalhadores terceirizados que se revezam entre funções de porteiro, maqueiro e recepcionista, o que resulta em insegurança para profissionais e pacientes. Diante do cenário, o sindicato anunciou que levará a situação da rede de saúde mental de Natal ao Ministério Público.
No campo da atenção infantojuvenil, o CAPS Infantojuvenil (CAPSi) “Esperança”, localizado na Cidade da Esperança, enfrenta o desafio de ser o único serviço do município voltado ao atendimento psicossocial de crianças e adolescentes, em um contexto de crescimento preocupante dos indicadores de sofrimento mental nessa faixa etária. O serviço atende casos de ansiedade, depressão e risco de suicídio, enquanto divide parte da demanda com o Centro Especializado em Reabilitação (CER), responsável por quadros como TEA e TDAH. Entre as principais queixas estão as condições físicas do prédio e a escassez de recursos materiais, especialmente materiais pedagógicos, essenciais para o trabalho com o público infantil.
Para o vereador Daniel Valença (PT), os problemas não são pontuais, mas reflexo de uma política mais ampla de desmonte da saúde mental no município. “Desde o início do nosso mandato estamos denunciando o desmonte da saúde mental pelas gestões de Álvaro Dias e, agora, a de Paulinho Freire. A situação se agravou ainda mais com o fechamento do CAPS III Leste, que impactou toda a Rede de Atenção Psicossocial da cidade”, afirmou.
Segundo ele, as demais unidades não estavam preparadas para absorver a nova demanda e já se encontravam em condições precárias. “É uma política desumana de desmonte de toda uma rede, pavimentando o caminho para uma política de saúde mental manicomial, inclusive em benefício de instituições privadas”, completou.
No mês em que se reforça a importância do cuidado com a saúde mental, a realidade vivida pela rede pública de Natal evidencia a urgência de investimentos, planejamento e compromisso com um modelo de atenção psicossocial que garanta dignidade, continuidade do cuidado e proteção aos direitos das pessoas em sofrimento psíquico.
Resposta
A Secretaria de Saúde do Município de Natal foi procurada pela equipe de reportagem, mas até o fechamento desta matéria não obtivemos resposta. A notícia, portanto, poderá ser atualizada com novas informações.
Saiba +
Pacientes fazem protesto e denunciam falta de psiquiatra no Caps de Natal
“Nossa loucura quer passar”: Protesto em Natal pede resgate da rede psicossocial
Fonte: saibamais.jor.br




