O registro de um adolescente realizando a saudação nazista durante uma cerimônia de formatura de medicina transcende o ato infracional isolado. O fato de o jovem ser convidado — primo de duas formandas — e de o gesto ter ocorrido em fotografias com a família e as novas profissionais, impõe uma reflexão profunda sobre os valores que estão sendo levados para dentro dos consultórios e hospitais.
Diferente de uma infiltração fortuita, o que as imagens sugerem é uma preocupante naturalidade. Quando adultas, prestes a assumir o compromisso sagrado de zelar pela vida sem distinção, aparecem em registros onde o símbolo do extermínio é evocado, a sociedade tem o direito e o dever de questionar: que medicina é essa? A ética médica é um pilar inegociável, e a apologia a uma ideologia que usou a ciência para o genocídio é o antípoda absoluto do juramento de Hipócrates.
A Necessidade de Intervenção Federal
Diante da gravidade da apologia ao nazismo — crime que fere tratados internacionais e a própria dignidade da pessoa humana —, é imperativo que a *Polícia Federal* e o *Ministério Público Federal* assumam o protagonismo na investigação. É necessário apurar se esse “protótipo de Hitler” atua isoladamente ou se integra células extremistas, e, sobretudo, qual o grau de conivência e adesão ideológica dos adultos presentes. Se houve planejamento para essa cena, a responsabilidade deve ser compartilhada.
A medicina e o nazismo são polos opostos: quem saúda o genocídio não tem competência moral para curar. Portanto, a investigação deve ser rigorosa e exemplar, alcançando todos os que, por ação ou omissão, permitiram que o símbolo do horror fosse celebrado em um ambiente de consagração acadêmica.
O Contraste de Atuações do CFM
Nesse cenário, o silêncio do Conselho Federal de Medicina (CFM) torna-se ensurdecedor. Recentemente, a autarquia demonstrou uma agilidade notável ao propor sindicância para apurar o atendimento médico prestado ao ex-presidente Jair Bolsonaro após uma queda em unidade prisional. Foi uma mobilização de recursos e atenção sobre um caso de assistência já protocolada pelo Estado, com nítidos contornos políticos.
Contudo, diante de um episódio que fere a espinha dorsal da ética médica, o CFM ainda não demonstrou o mesmo ímpeto investigativo. Por que o zelo demonstrado em casos de conveniência política não se repete quando o que está em jogo é a dignidade da profissão perante a humanidade? A seletividade das intervenções do conselho levanta dúvidas sobre suas prioridades: a guarda da ética ou a militância partidária?
Um Apelo à Dignidade Profissional
Não se pode aceitar a normalização da barbárie sob o pretexto de “contexto familiar”. Que o CFM e o respectivo CRM saiam da inércia e abram os procedimentos necessários para apurar a conduta ética das formandas envolvidas. Se ficar comprovada a anuência com tal apologia, a própria aptidão para o exercício da medicina deve ser questionada.
O Brasil exige que suas instituições ajam com coerência. Que a Polícia Federal investigue o crime e que o CFM honre o cargo que ocupa, reafirmando que, na medicina brasileira, não há espaço para o ódio, para a intolerância ou para o silêncio cúmplice diante do horror nazista.
Fonte: saibamais.jor.br




