Por Tião Vicente
Escrevo no lugar mais improvável. Estou no palco do Teatro Alberto Maranhão, bairro da Ribeira, patrimônio de Natal e do RN. Estou no palco, ja bem no fundo, vendo qual de um barranco o lugar da plateia lá embaixo. Não sou ator, cantor, músico, performer e afins. Mas estou neste palco que já contemplei tanto lá de baixo, da plateia.
Subo neste palco, minha alma cheira a dor e saudade. Estou aqui com a família que Rejane me deu pra velar o corpo da minha cunhada Titina Medeiros. Ela está aqui, não apenas seu corpo físico sem vida no impensável caixão. Ela está em todos os lugares, espaços, dimensões. Vivinha, barulhenta, a milhões por hora, caótica com método, intuição ligada na tomada como ela gostava de ser. Estou rodeado por Titina e posso muito bem bater papo com ela enquanto, como em todo velório, conversas paralelas mantêm as pessoas em torno da figura querida que passa deste para outro plano.
Digo pra Titina: aproveita, mulher, essa transição à sua maneira. Nós ficamos aqui mas voce agora é só essencia, extrato puro de humanidade sem esse peso material que carregamos. Agora só o que importa conta. E você, embora assim como seu pai amasse intensamente as manifestações da vida na Terra, de certa maneira o que via de graça nesta forma de vida era o que nela, no fundo, é o mais transcendente.
Você amava festas populares, sabores regionais, o valor incalculável das pessoas mais velhas, a bênção do ancestral como a energia dos adolescentes – e tudo isso contém uma porção de alumbramento espiritual que tem tudo a ver com sua nova condição. Então, Titina, viva essa nova condição com o mesmo fervor apaixonado com que você viveu as experiências deste nosso universo material aqui embaixo.
Encontre novas conexões, ligue pessoas tanto quanto fez aqui, movimente as esferas astrais com seu incansável canto de louvor à evolução e à beleza, especialmente aquele tipo que você enxerga antes e conta aos amigos como tantas vezes vi fazer.
Novas conexões, Titina. Como essa que tento estabelecer aqui neste palco onde a vi estrear profissionalmente no belo “Príncipe do Barro Branco”, sob os cuidados especiais de João Marcelino, você e Nara, dois brotos em flor no teatro potiguar dos anos 90.
Conexão com Maria do Céu Guerra e aquela noite, neste mesmo palco onde escrevo – minha maneira de velar sua presença/ ausência – quando sem me dar conta lhe trouxe com Rejane pra voce ver ‘”O Pranto de Maria Parda”. Eu nao sabia, passei anos sem saber, só me dei conta quando li uma entrevista sua, voce ja conhecida de todo o país, que aquela Maria Parda, aquela noite no Teatro Alberto Maranhão, que parecia só mais uma entre tantas, era na verdade o estalo inicial que lhe acendeu o fogo da atuação no palco.
Que ali você traçou seu plano pessoal, só você, as estratégias por definir mas o objetivo certo e certeiro: ser atriz, mais que isso, estabelecer-se atriz, viver plenamente deste ofício – e com ele iluminar plateias, angariar sorrisos, despertar consciências como fez em “Pobres de Marré” com Quitéria – aquele mundo anterior às novelas onde sua teimosia era o fermento de uma certeza. Foi lindo demais este arco que voce construiu, Titina.
Arco que se agiganta sobre mim neste palco onde tento entender como duas noites podem estar de tal e imprevista forma ligadas: a de hoje, quando o corpo que você tão bem soube usar para edificar cenas de tão pungente beleza está sendo velado e aquela outra, lá no início dos anos 90, quando se deslumbrou – sem que eu notasse – com Maria do Céu Guerra em cena naquele monólogo tão delicado quanto marcante.
Que liga é esta entre essas duas noites separadas por três décadas, Titina? Teremos que achar esta resposta juntos, nós seus admiradores aqui embaixo, carregando o peso extra da nossa materialidade, e você aí na sua nova condição de essencia de gente dada ao cultivo da beleza. Sem pressa mas ok, com algo da sua ansiedade benfazeja que nos valeu tantos ganhos, tanta doação que voce nos fez.
Entre aquela noite e esta há uma história, um álbum de realizações, um facho de luz e um desenho de sensibilidade que fez de nós pessoas melhores. Não perfeitas, mas sempre perseguindo o melhoramento.
Há esboços neste momento só rabiscados entre aquela e esta noite, como as trilhas pontilhadas de luz que os refletores deste palco escrevem sobre nós nas horas do seu velório. Vai levar tempo pra este esboço virar arte final.
Como tudo que acontece sobre um palco, ha início, desenvolvimento, viradas narrativas e só então alguma revelação. O palco tem seu tempo. Vamos respeitar.
Daqui a pouco a vida sem sua presença física vai prosseguir. Vou descer deste palco, que voltará a ser usado por artistas como você, Nara, Quitéria e tantos outros. A sua inspiração governa todos eles. O seu arco é um abrigo. Somos gratos, agora e sempre.
Fonte: saibamais.jor.br




