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entre ônus e bônus, faltou informação, diz pesquisador

Foram anos de discussões até se chegar ao consenso de que a engorda seria a melhor solução para a praia de Ponta Negra, que sofria com o avanço da maré sobre o calçadão. Passado um ano da obra, a praia que abriga o mais famoso cartão-postal da cidade, o Morro do Careca, continua sendo alvo de preocupação. Agora, os questionamentos são sobre os efeitos da obra e a maneira como ela foi executada. Esta matéria completa a série de três reportagens realizadas pela Agência SAIBA MAIS sobre a praia de Ponta Negra um ano depois da obra de alargamento da faixa de areia, mais conhecida como engorda.

Antes que os turistas descobrissem a combinação do sol forte, a areia quente e mar refrescante da praia de Ponta Negra, a comunidade de pescadores nativos já usufruíam de sua paisagem, antes da ocupação desordenada da praia de hoje. Com o avanço do comércio na região, a faixa de areia foi ficando a ficar cada vez mais estrita e insuficiente diante do avanço do mar, um problema que tende a se agravar com as mudanças climáticas.

É importante perceber que a engorda é uma solução importante para praias arenosas em processo acelerado de erosão. Foi a primeira experiência e por isso é importante para o Rio Grande do Norte, dentro da perspectiva de soluções baseadas na natureza. A engorda ainda é uma opção, depois não temos muitas alternativas com proposta de recomposição do ecossistema costeiro. Concordo com o que pensamos em 2012, entre as melhores soluções está tentar recompor o ambiente perdido. Infelizmente, todas essas opções envolvem ônus e bônus”, pondera Venerando Eustáquio, professor de Engenharia Civil e Ambiental da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e coordenador do Laboratório de Geotecnologias Aplicadas Modelagem Costeira e Oceânica (GNOMO).

O pesquisador explica que a engorda permitiu que mais pessoas passassem a frequentar a praia. Mas, ressalta que houve mudança no perfil da praia, que não é mais a mesma, informação que havia sido alertada pelos cientistas que acompanham o assunto, mas que não foi divulgada de maneira educativa pela Prefeitura do Natal.

Foi bom que as pessoas voltaram a frequentar a praia, mas houve mudança de perfil praial. Hoje ela não é mais uma praia para banho, o surfista já não tem mais local de uso, não tem mais a prainha no Morro do Careca, ficou mais difícil para as comunidades costeiras. É uma realidade, é o preço por recompor a praia. Porém, a gestão não foi boa, a informação não foi bem divulgada. Falamos sobre a necessidade de informação, uma das regras básicas. Teríamos outra Ponta Negra, pessoas tendo problemas, pescador não foi atendido, assim como os barraqueiros. Houve mudança da praia e ninguém preparou a sociedade. A ciência relatou, avisou. Isso se concretiza, a ciência estava certa e houve erro de gestão”, assevera Venerando.

O pesquisador relata que uma das condicionantes para que a engorda funcionasse bem era o sistema de escoamento que, ao invés de ser executado antes, foi realizado somente depois da engorda.

Foi o grande vilão. A insistência da gestão, que se mostrou equivocada. Logo depois tivemos chuvas em março, a fragilização do aterro hidráulico, os alagamentos passando na base do Morro do Careca. Hoje observamos a maré alta avançando por ali, algo que não esperaríamos que acontecesse tão cedo. Assim como foi um equívoco implantar o modelo rígido, o que acelerou a taxa de erosão”, alerta.

Apesar de a engorda ter sido tida como concluída pelos gestores, o professor da UFRN explica que a obra não tem fim, já que é preciso fazer uma permanente manutenção.

O problema não acabou, não é porque fizemos a engorda que a maré vai deixar de avançar, o processo não vai deixar de acontecer. Aliás, já vemos a maré avançar sobre alguns setores. O que fazemos é ganhar tempo para recompor a praia para a sociedade, o processo erosivo continua”, observa.

O professor da UFRN também explica que a areia do aterro que terminou no Hotel Serhs, já é vista mais adiante, nas proximidades dos pinheiros da Via Costeira.

O processo erosivo não para, só ganhamos areia. Isso mostra que faltou pensar em uma estrutura que detivesse areia por mais tempo. Foi um processo errado desde o estudo de viabilidade técnica, sempre indicamos que a deriva em Ponta Negra é muito alta. Está expresso em todos os artigos que publicamos. O vento transfere a areia para a Via Costeira, na direção norte. A perda segue numa aceleração muito alta e aumenta à medida que a energia do oceano está crescendo. A opinião pública teria sido mais bem informada. O período de chuvas começa agora e esse foi um modelo questionável, vamos ver se vai conseguir reter volume de água que vem pela frente”, questiona o pesquisador da UFRN.

A obra

Segundo o planejamento apresentado Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb), a promessa era alargar a faixa de areia da praia em até 100 metros, na maré baixa, e 50 metros, na maré alta, apesar dos alagamentos vistos em toda a faixa de areia em alguns trechos.

A engorda da praia de Ponta Negra, que custou cerca de R$ 100 milhões, foi realizada sem acompanhamento de órgãos de fiscalização. Por meio de força judicial, a Prefeitura do Natal conseguiu o Licenciamento de Instalação e Operação (LIO), necessário para início dos trabalhos. Porém, o licenciamento era válido para uma área diferente da que foi explorada na extração da areia da jazida.

Para não ter que pedir nova licença, o então prefeito de Natal, Álvaro Dias (Republicanos), emitiu um decreto de estado de emergência por erosão pelo avanço da maré em setembro de 2024. Com isso, a obra foi realizada sem licenciamento ambiental.

Já em outubro do mesmo ano, a Prefeitura do Natal conseguiu na justiça um mandado de segurança proibindo o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (Idema) de fiscalizar a obra da engorda.

A obra foi concluída em 25 de janeiro de 2025, mas sem a parte da drenagem finalizada, o que só ocorreu no início de março com o funcionamento dos 16 dissipadores, estruturas utilizadas para reduzir a velocidade da água durante o escoamento.

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Fonte: saibamais.jor.br

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