Assisti ao filme “O Agente Secreto” no cinema, no dia da estréia, 6 de novembro, e no dia seguinte escrevi em minhas redes sociais que o filme era, mais do que sobre política e ditadura, sobre a memória. E a falta dela.
Ao vencer o Globo de Ouro de melhor ator de drama, Wagner Moura, em brilhante discurso em que celebrou a cultura brasileira disse a mesma coisa: “é um filme sobre a memória, a falta de memória e o trauma geracional”.
É importante que os filmes brasileiros atuais (caso de “Ainda estou aqui”) tratem desse assunto. Historicamente somos um país, um povo que cultua mal e porcamente a memória. Coletivamente não damos importância para o passado. Não sabemos direito o que foram as guerras de independência, Mascates, Emboabas etc. Aqui no Nordeste desconhecemos o que foi a Revolução Farroupilha e no Sul/Sudeste se vê o cangaço como um recorte folclórico e de pouca relevância. O ensino de História do Brasil em escolas públicas e particulares é sofrível.
Uma pena. Um país que não se lembra de seus erros está fadado a cometê-los novamente, como diz a frase. Não é à toa que o militarismo no Brasil está sempre à nossa sombra, como se esperando uma oportunidade para chegar ao poder de maneira a não precisar de eleição. Como já aconteceu algumas vezes, embora coletivamente não tenhamos memória exata disso.
Por falar em ditadura militar, recordo que uma das cenas mais poderosas do citado “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, é quando Eunice Paiva (Fernanda Torres), já nos anos 1980, ao conseguir reconhecimento de que o marido Rubens foi sequestrado e morto pela ditadura, é perguntada por um repórter: “Não existem coisas mais importantes para o país do que lembrar atos da ditadura?”, no que Eunice responde com firmeza: Não!”.
E o trunfo de “O Agente Secreto” no Globo de Ouro, com a premiação também de melhor filme em língua não inglesa, com direito a atriz potiguar Alice Carvalho subindo no palco com parte da equipe, se deu no mesmo domingo, dia 11 de janeiro de 2026, que perdemos a também atriz potiguar, Titina Medeiros, aos 48 anos, após brava luta contra um câncer de pâncreas.
Para além do choque e da tristeza, refleti depois que boa parte do trabalho teatral de Titina evocava a memória. Como no espetáculo “Meu Seridó”, idealizado por ela, em que a história e as tradições da região onde ela nasceu e foi criada, foram resgatadas e recriadas em cena. Os dois últimos espetáculos onde esteve como atriz, “Sinapse Darwin” e “Clenyldes e Clenôrys”, cada um à sua maneira, também enfocaram as nuances da memória como algo de extrema importância.
Cinema e teatro, assim como expressões artísticas como literatura, dança e artes visuais, são ferramentas importantes para lidarmos com o problema crônico da falta de memória. Como vimos dia desses em Mossoró, quando um jovem de 13 anos foi a uma festa de formatura das irmãs-primas vestido de oficial nazista. Não satisfeito, se deixou fotografar fazendo a saudação nazista com o braço em riste. depois gravou um vídeo pedindo desculpas, como era de se esperar. Mas a culpa verdadeira é dos pais, que provavelmente estimularam o rapaz, ou no mínimo, aceitaram a coisa toda e ainda compraram a roupa, claro, que um pré-adolescente não tem rendimento que lhe permita comprar um uniforme nazista, até porque não é item que se venda em qualquer esquina.
Por que citar essa bizarrice em um texto sobre cinema e teatro? Porque um dos fatores do crescimento do sentimento de simpatia de jovens pelo nazismo, e da extrema-direita como um todo, mora justamente na falta de memória. Há alguns anos tenta se “reescrever” a história da Segunda Guerra, das ações nazistas e do holocausto. Livros e documentários de YouTube chegam a sustentar que jamais existiu o assassinato em massa de judeus, assim como a participação do exército sovitético para o fim da guerra teria sido mínima. Quando provas robustas mostram o contrário. Mas a falta de memória tem o poder de fazer com que os fatos sejam colocados em segundo plano, em prol de opiniões, muitas vezes desconectadas da realidade.
Se a família mossoroense recorresse à memória do que foi o nazismo e soubesse que, na Alemanha nos anos 30, ela própria estaria em um campo de concentração por não ser da raça ariana pura, o pobre menino rico não iria desfilar um traje nazista numa festa. Daria um outro texto, isso dos nazistas latinos, que acham que seriam aceitos pelos “brancos supremacistas”.
Por mais filmes sobre o período da ditadura militar. Por mais espetáculos teatrais sobre a história do Rio Grande do Norte do Brasil. Não esquecer para não repetir
Fonte: saibamais.jor.br




