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Titina: uma luminescência potiguar

Deve haver uma explicação astrológica, amigo velho, para que, no mesmo dia em que tivemos a notícia do falecimento de Titina Medeiros, uma outra atriz potiguar tenha subido em um palco de Los Angeles, para receber, junto com o pernambucano Kleber Mendonça Filho e o baiano Wagner Moura, o prémio de melhor filme em língua estrangeira por “O Agente Secreto”. 

Alice Carvalho, que ganhou o mundo com uma atuação impressionante na minissérie “Cangaço Novo”, declarou em suas redes sociais o seu débito para com Titina, que não só a influenciou artisticamente como também a amparou e apoiou nos momentos mais difíceis, pedindo que ela mantivesse a calma quando a barra de se viver da arte teatral parecia pesar a ponto de fazê-la desistir.

Quem teve o prazer de conhecer Titina sabe que ela era assim.

Por isso, amigo velho, eu tenho uma certeza: se alguém, daqui a cem anos, se debruçar na aventura arqueológica de descrever o período exuberante que as artes cênicas e audiovisuais aqui em nosso estado está tendo, nesse primeiro quarto de século XXI, vai encontrar, na figura de Titina, uma peça chave e uma figura incontornável.

Titina fundou, com Quitéria Kelly o grupo Carmin de Teatro, atuou junto com o Clowns de Shakespeare na peça “Sua Incenlença Ricardo III” (uma das melhores montagens adaptadas da obra do Bardo de Stratford-upon-Avon realizadas no Brasil) e trouxe para os palcos, de maneira única, um Seridó potiguar que habita em nossos sonhos e memórias. Mas não apenas isso… ao romper a barreira psicológica que separava os artistas potiguares da indústria audiovisual do “sul maravilha”, participando da novela “Cheias de Charme” em 2012 (época em que o gênero das telenovelas ainda era um definidor da cultura de massas no Brasil); Titina abriu caminho para que inúmeros atores e atrizes que se formaram aqui no RN, pudessem aparecer nas telinhas e telonas do país, em séries, filmes, seriados e telenovelas. Se fosse só esse o seu papel, já teria sido mais do que suficiente para que ela entrasse de vez na história das artes cênicas aqui da Taba de Poty.

Mas havia algo de mais sutil na presença de Titina, que fez com que, nesse Domingo, dia 11 de Janeiro, quando a notícia de sua morte explodiu nas redes sociais, os potiguares fossem tomados por um sentimento tão profundo de perda.

Titina, mesmo para quem não a conhecia pessoalmente, parecia fazer parte da família. Sua arte, cultivada com a disciplina, o trabalho constante e o rigor técnico que a profissão do ator exige, fazia com que o povo potiguar se enxergasse e se reconhecesse numa familiaridade afetiva que despia nossos mais engenhosos disfarces culturais.

Ela conseguiu, com sua projeção televisiva, impregnar a teledramaturgia brasileira de uma “potiguaridade” que não estávamos acostumados a ver. E não era apenas o sotaque, que se manteve sempre autêntico, sem exageros de afetações estereotipadas, daquelas que o código das telenovelas exigia dos atores que interpretavam “personagens nordestinos”.

Era o gesto, o movimento, a posição das mãos, o olhar, o jeito de sorrir, a forma de parecer séria ou triste, o seu senso de tempo para o humor, a espontaneidade da sua alegria. Com o corpo, esse mais íntimo laboratório alquímico do ator, Titina tocava em cada um de nós, dando aos seus personagens, até quando o texto do dramaturgo insistia em derrapar no estereótipo e na caricatura, uma dignidade resistente que só uma seridoense sabe ter.

O fato dela ter ganho o Brasil sem se desligar do nosso estado, mantendo sempre a conexão profunda com nossa sensibilidade potiguar, ajudou a desmistificar a ideia batida de que o Rio Grande do Norte “não tem identidade” ou que somos uma espécie de vazio cultural, um “estado imaginário”, imprensado na esquina do continente, por um Pernambuco, uma Paraíba e um Ceará. 

Herdeira de uma tradição de teatro popular que remonta a Jesiel Figueiredo e Sandoval Wanderley, Titina construiu pontes entre as gerações e mostrou que é possível conectar nossa antena para o além fronteiras, sem perder nossa raiz.

Quando a conheci, ainda estudante de jornalismo, lá pela metade dos anos 90, salve a lembrança não me engane, por intermédio de Rossana (uma peruana que estudava artes cênicas na UFRN), senti que ela tinha algo de diferente, mas não conseguia formular bem o que era.

Hoje, ainda impactado com a notícia da sua morte, enquanto lia “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, recebi de Clarice Lispector, essa feiticeira absoluta da língua portuguesa, a palavra que me faltou por tantos anos para descrever a Titina que eu vi naqueles tempos e que já quase me escapam da memória.

“Luminescência”.

Essa é a palavra que me faltava. Titina já trazia, naquela época, a luz de dentro, lá do seu interior, que iluminou as telas e os palcos do país. Essa luz, tão genuinamente potiguar, foi o espelho mágico que fez com que nós, acostumados à cultivar essa compulsiva opacidade de nós mesmos, nos enxergássemos.

Agora que ela entrou, assim sem nos avisar, na “profunda noite secreta do mundo” é hora de nós, potiguares, retribuirmos sua luz, mantendo viva a memória da sua arte.

Fonte: saibamais.jor.br

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