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Despedida ao cometa 3I/ATLAS

Por Ciclamo Leite Barreto*

Querido 3I/ATLAS, deixo-te a minha saudade – a melhor parte de mim;
grato pelo tempo cósmico compartilhado e pelo conhecimento propiciado por tuas origens interestelares.
(**)

Caro viajante das estrelas,

Você chegou de al di la, de além do nosso Sistema Solar, como um sussurro do cosmos antigo, descoberto pelo projeto ATLAS a partir do Chile em 1º de julho de 2025. Com sua órbita hiperbólica (assinatura interestelar)  e brilho inesperado, nos presenteou estudos sobre cometas primordiais, mais velhos que o Sol em bilhões de anos. Passou pelo periélio, o ponto da sua órbita mais próximo do Sol, em 29 de outubro, a 1,36 ua (unidades astronômicas, sendo 1 ua = 149.597.870,7 km, exatamente); passou entre a Terra e Marte sendo observado de ambos e, agora, após sua máxima aproximação da Terra em dezembro, parte para sempre. Nunca será esquecido.

Este diagrama mostra a trajetória do cometa interestelar 3I/ATLAS ao passar através do Sistema Solar. Ele alcançou sua mais estreita aproximação ao Sol em 29 de outubro de 2025. Fonte: NASA/JPL-Caltech

Trata-se do terceiro objeto interestelar confirmado – antecedido por Oumuamua (1I/2017 U1) e 2I/Borisov, em 2019 -, com órbita hiperbólica aberta que o leva para fora do Sistema Solar após passagem pelo periélio. Composto de gelos e poeira de outro sistema estelar, exibe coma, caudas e jatos normais de sublimação (transição da fase sólida direto à gasosa), com núcleo estimado entre 200 m e 3 km de raio; sua maior aproximação da Terra foi de 270 milhões de km, portanto sem qualquer risco. Uma riqueza de informações sobre este cometa pode ser acessada em 3I/ATLAS: Observatório Nacional

Ainda em 2025 eventos relevantes sobre o 3I/ATLAS foram divulgados. Eis alguns deles: em 01/11, segundo a NASA, o cometa começou a exibir atividade intensa, com formação de jatos e uma coma bem definida; imagens do Telescópio Espacial Hubble, da NASA, auxiliaram os astrônomos a estimar o tamanho do cometa, divulgado em 21/07; em 06/08 o Telescópio Espacial James Webb, da NASA, capturou imagens do cometa interestelar 3I/ATLAS, utilizando seu instrumento Espectrógrafo de Infra-Vermelho Próximo; e, em 19/11, a mesma NASA realizou uma conferência de imprensa para compartilhar imagens do cometa, demonstrando sua atividade. Em 19/12, o portal EarthSky revelou que o 3I/ATLAS fez sua máxima aproximação da Terra a cerca de 1,8 ua (270 milhões de quilômetros).

Muitos boatos foram espalhados mundo afora sobre a natureza e características do 3I/ATLAS. Dados preliminares não revisados e especulações de ufólogos sobre “anomalias” são fontes de sensacionalismo. Dentre tais “anomalias” tiveram destaque a trajetória do cometa cruzando a órbita terrestre, os jatos emitidos em direção ao Sol e o tamanho inicial superestimado. Mas as diferenças são mesmo esperadas em um objeto de bilhões de anos de viagem interestelar. Não há evidências de sonda alienígena; tampouco a NASA não “silencia”, pois, a astronomia global é colaborativa.

Devemos sim, agradecer à aleatoriedade do universo, que desempenha papéis relevantes nessa história. A salvaguarda do destino da humanidade é um deles. A trajetória de objetos celestes, como cometas, é influenciada por uma série de fatores, como a gravidade de planetas e estrelas próximas (em escala astronômica). A trajetória do 3I/ATLAS é apenas uma entre muitas possibilidades. Afinal, se sua trajetória não imergisse no Sistema Solar (ou se este não existisse), a hipérbole que a caracteriza não existiria e não haveria tão radical mudança de rumo. Reconhecer tal aleatoriedade pode servir como um lembrete de quão frágil e ao mesmo tempo incrível é a vida na Terra.

Mostrar gratidão pela sorte de evitar uma colisão pode incentivar um senso de humildade em relação ao nosso lugar no universo. Essa perspectiva pode nos ajudar a valorizar mais as nossas vidas e as oportunidades que temos de coexistir pacificamente no planeta.

Sentir gratidão pela proteção que a aleatoriedade nos proporciona pode criar um sentimento de conexão com o universo. Isso pode levar a uma maior curiosidade sobre a ciência, astronomia e a própria natureza do universo. Algumas correntes filosóficas, como o estoicismo, sugerem que devemos aceitar as incertezas da vida e ser gratos pelos benefícios que temos. Eventos como o da passagem do 3I/ATLAS podem inspirar ações coletivas para preservar o nosso planeta, levando a um maior foco em pesquisa espacial e defesa planetária.

Agradecer à aleatoriedade não apenas favorece um entendimento mais profundo do nosso lugar no universo, mas também pode fomentar um ambiente de conscientização sobre o mundo em que vivemos. Além do mais, promove uma atitude positiva em relação aos mistérios e às complexidades da vida.

Como preconiza a trajetória hiperbólica, após a aproximação ao Sol, o cometa não estará preso ao nosso Sistema Solar, mas seguirá em direção ao espaço interestelar (continuando imerso e móvel na Via Lactea por longo período astronômico, possivelmente por milhões de anos). Isto ocorre porque ele não está gravitacionalmente ligado ao Sol. Ou seja, ele não entrará em órbita nem retornará; simplesmente seguirá um caminho de hipérbole e deixará o Sistema Solar definitivamente. A trajetória real leva o cometa para fora do Sistema Solar em direção ao espaço interestelar, sem um “destino definido” dentro da Via Láctea, como um planeta ou um sistema estelar específico, porque sua velocidade e direção resultam não só da interação com o Sol, mas também de uma trajetória aleatória que ele já estava seguindo antes de cruzar o nosso Sistema Solar.

Assim, ao perder-se no escuro profundo do cosmos, entre as estrelas, o 3I/ATLAS nos deixa não como um corpo que parte, mas como um lembrete silencioso de que o Universo é feito de passagens — de matéria errante, de histórias sem pátria e de encontros breves que, justamente por não se repetirem, ampliam nossa ciência, nossa imaginação e nossa humildade diante do infinito. É imensa nossa gratidão: até nunca mais, alien! A humanidade será eternamente grata pelo conhecimento que você propiciou.

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(*) Ciclamo Leite Barreto é professor titular do Depto de Física da UFRN, aposentado desde 9 de junho de 2025. (**) Trata-se de extrato deste Poema a seguir:

Poema de Despedida ao 3I/ATLAS

Viajante das estrelas, ó 3I/ATLAS,

De além do Sol chegaste, sussurro antigo,

Em órbita fugaz, hiperbólica e leve,​

Partilhando conosco teu tempo de poeira e luz.

Deixo-te a minha saudade – a melhor parte de mim,

Inferno doce dos que ficam, dor dos que voam para trás.

O ontem que a dor deixou, o que voou em alegria,

Só porque foi, e partiu, deixando estrelas no olhar.

Gratidão pelo legado, laboratório do cosmos,

Origens primordiais, ejeções de segredos ancestrais,​

Tempo compartilhado em telescópios e corações,

Ensinando que o universo é vasto, interconectado e eterno.

Adeus, errante da Via Láctea, até o reencontro na memória,

Leva nosso brilho de volta às tuas estrelas distantes.

Na saudade, guardamos teu voo – sorriso no coração da Terra.

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Este poema consiste de uma mesclagem (ad hoc alloying) feita pelo autor do artigo a partir de trechos de poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen, Mário Quintana, Cecília Meireles e Vinicius de Moraes)

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Fonte: saibamais.jor.br

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