Eu estava sentada na mesa de sempre, aquela mais perto de uma azeitoneira cansada, onde a sombra tenta, sem muito sucesso, aliviar o calorzão de Caicó ao meio-dia. A cerveja suava mais do que eu, e o prato de tripa assada ainda não tinha dado as caras. Esperava por ele, o amigo que sempre chega atrasado, mas chega rindo, e com quem iria dividir aquele instante de vida, aquela cerveja e o bendito prato de tripa.
Eu já estava no segundo gole quando o vi. Não precisei ver o rosto. Reconheci antes mesmo que ele se aproximasse, pelo molejo peculiar ao andar, meio balançando, como se estivesse eternamente acompanhado por um reggae invisível. O braço tatuado confirmava: era meu sobrinho. E, como se não bastasse, vinham com ele duas pequenas figuras, uma de cada lado, como dois planetinhas girando ao redor do próprio sol.
Sorri sozinha. Essas surpresas são as melhores. Ele não me viu de imediato. Estava atento às crianças, como quem carrega o mundo nos braços e ainda precisa garantir que ele não tropece na calçada quente. A menina, de óculos cor-de-rosa, foi a primeira a me notar. Seus olhos brilharam por trás das lentes, e não houve cerimônia: soltou a mão do pai e correu na minha direção.
– Txia Biaaaa! – sim, ela chia (rsrsrsrs)
Ela se lançou nos meus braços com aquela felicidade sem filtros que só criança sabe sentir. Um abraço inteiro, largo, quente, que atravessa qualquer cansaço.
– Minha princesa linda! – eu disse, apertando-a como se fosse possível guardar aquele momento no bolso.
O menino veio logo atrás, mais contido, mas com um sorriso tímido que dizia tudo. Meu sobrinho finalmente percebeu a cena e abriu aquele sorriso largo que herdou da mãe, minha irmã, e que sempre me desmonta.
– Oi, tia! Que surpresa boa!
– Boa pra mim, meu filho. Já estava achando esse almoço meio solitário – respondi, rindo.
Eles se aproximaram da mesa, e fizemos o ritual que não se perde: todos tomaram “abênça”. Ele, os pequenos, cada um com seu jeitinho. O menino encostou a cabeça de leve na minha mão; a menina, mais expansiva, manteve sua mão entre as minhas.
– Deus lhe abençoe, meu filho. E a vocês também, meus amores.
– Vai almoçar onde? – perguntei.
– Lá em casa mesmo. (Eles estavam indo pegar uma marmita.) Hoje não deu pra cozinhar, e a mamãe dessas crianças só volta pra casa no final da tarde. Ela agora é diretora da escola.
– Coragem! – fora a expressão da tia quando soube dessa nova empreitada. A tia também era professora. – Diga a ela que eu disse: Coragem!!! HAHAHAHAHA!!!
– Fazem muito bem em vir pegar uma comidinha pronta. Mas sentem aqui um pouquinho. Estou aqui há pouco tempo, ainda nem chegou a tripa, mas a cerveja tá gelada – falei, já puxando uma cadeira.
Ele riu.
– Eu até sentava, tia, mas com esses dois aqui… (mas a vontade de sentar e tomar uma cerveja gelada, ah, essa ficou na lambida de lábios e na saliva que meu sobrinho engoliu me vendo com aquele copo de cerveja gelada na mão: Só queria beber… Acho que quase ouvi isso! HAHAHAHAHA!!!)
Ficamos em pé ali, por alguns minutos. Conversamos sobre a vida, como sempre: trabalho, saúde, vida, cansaços. Nada extraordinário. Mas tudo essencial.
– Tia, às vezes penso como é difícil, mas quando vejo esses dois, dá uma força que nem sei de onde vem – ele disse, levantando o menino em seus braços.
– Força é isso, meu filho. Não é ausência de cansaço. É presença de amor.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, como se guardasse a frase num lugar especial da memória. A menina puxou meu braço e perguntou, baixinho:
– Tia, a senhora vai lá em casa quando?
– Vou qualquer dia desses, minha linda. E vamos comer uma pizza.
– De chocolate com MM’S? – perguntou ela, já negociando.
– De chocolate, com tudo que você quiser.
Ela sorriu satisfeita, como quem acaba de garantir um grande prêmio.
O prato de tripa finalmente chegou, fumegante, cheiroso, quase me pedindo desculpas pelo atraso. Mas eu já estava alimentada de outra coisa. De encontros. De afetos. De família.
– A gente precisa ir, tia – disse meu sobrinho.
– Vá com Deus, meu filho. E cuidado nesse sol.
Ele me abraçou, daquele jeito que mistura força e carinho. As crianças também se despediram. A menina me deu um beijo estalado no rosto. O menino apenas encostou a bochecha na minha, gesto pequeno, mas cheio de ternura.
Fiquei ali, observando-os se afastarem. O molejo do sobrinho, as duas crianças ao lado, o sol escaldante, a vida seguindo. Pensei em como esses encontros despretensiosos são, na verdade, os mais importantes. Não estão marcados na agenda, não exigem produção, não pedem cenário. Acontecem. Simples assim.
E quando acontecem, reforçam aquilo que realmente importa: os laços invisíveis que nos sustentam, mesmo quando tudo parece pesado. São esses encontros que nos lembram quem somos, de onde viemos e para onde podemos ir, desde que não soltemos as mãos uns dos outros.
Voltei para a mesa, sentei-me novamente diante da minha cerveja já meio quente e do prato ainda fumegante. Dei um gole, respirei fundo e pensei: que sorte a minha. Que sorte ter uma família que, mesmo em meio ao caos, ainda corre em direção a um abraço. Que sorte ter sobrinhos que carregam no corpo, no andar e nos olhos, uma história que também é minha.
E ali, naquele bar simples, sob aquele sol impiedoso, entendi mais uma vez que amor não precisa de grandes gestos. Às vezes, ele apenas passa na sua frente, balançando ao som de um reggae invisível, com duas crianças ao lado e uma marmita na mão.
E meu amigo… finalmente chegou. Com a pressa de quem está atrasado, mas com um sorriso daqueles que abraçam a gente de longe. Antes dele sentar, já estava enchendo seu copo com uma cerveja geladinha que tinha acabado de ser deixada na mesa.
Nos cumprimentamos com um abraço, um xêru e um brinde… outros pequenos grandes gestos que o amor nos presenteia tão despretensiosamente e que fazem a gente esquecer qualquer atraso.
Fonte: saibamais.jor.br




