Artista que gosta de pintar as memórias de infância num universo rural, Assis Costa teve ajuda da internet para que seu trabalho saísse de Currais Novos, onde mora, e ganhasse o mundo. Nascido e criado no interior do Rio Grande do Norte, ele diz que o interesse pelas artes plásticas veio desde cedo e que teve sorte ao encontrar ao longo do caminho amigos e intelectuais que estimularam sua curiosidade.
“Tinha um cara construindo casa em São Miguel do Gostoso que comprou algumas obras para decoração dos ambientes. Ele entrou em contato, vinha de São Paulo, disse que tinha visto meu trabalho na internet e queria botar obras de um artista local. Eu nunca fui a São Miguel, mas para ele eu era um artista local. Esse homem separou 11 obras. Perguntou quanto dava, pediu um desconto pela quantidade e combinou de me encontrar no aeroporto e acertar tudo lá. Pensei até se não seria um trote. Fui para o aeroporto com o carro cheio de obras e quanto cheguei lá o cara sai de uma vã cheia de gente. A casa dele e os meus quadros foram capa da revista Casa Vogue. Muita gente ligou pra mim dizendo que viu minha obra na revista“, conta Assis numa conversa via meeting com a Agência Saiba Mais.
Depois de um tempo, um embaixador brasileiro na Suíça que estava na Alemanha viu numa banca de revista a obra de Assis Costa no mesmo ensaio fotográfico:
“Para mim foi uma surpresa, não imaginei que a matéria fosse fazer tanto sucesso que fosse parar numa revista alemã”.

Autodidata, como quase todo artista do interior
Apesar da repercussão internacional, Assis Costa nunca saiu do Brasil:
“Comecei a vida artística quase como todo mundo desde a infância, desde os 3 anos já tinha essa vontade de fazer as coisas. Comecei querendo fazer carrinho de lata de óleo, coisa que nem existe mais, virou peça de museu, roladeiras, pipa“, lembra.
Mas começar as primeiras experiências com desenho não foi fácil, ainda mais diante da realidade dos anos 1970:
“Material de desenho, de estudo, era tudo muito raro, difícil, ter alguém que passasse o conhecimento… então quase todo artista do interior é autodidata, vai aprendendo a fazer as coisas de forma natural e comigo não foi diferente. Eu tive sorte porque morava numa rua que tinha um rapaz chamado José Generson, hoje ele mora no Rio Grande do Sul e se chama Zeca Zenner. Na infância nos conhecemos e vivíamos desenhando. Ele com nove anos já desenhava muito. Um dos irmãos dele mais velhos era envolvido com cultura, era diretor de teatro e conhecia muita gente desse meio artístico“, disse.
Com o primeiro mestre, noções de pintura e um encontro com Karl Marx
Em 1988, Assis Costa se aprofundou no curso do artista plástico João Antônio, reconhecido como seu primeiro mestre na área. Na primeira, um inusitado encontro com o pensador alemão Karl Marx para aguçar o espírito crítico do trabalho artístico:
“João Antônio foi nosso verdadeiro mestre. Passei mais de um ano estudando desenho e pintura. Ele trouxe uma formação no sentido de conhecimento da arte, a coisa conceitual, pensada, não somente de conhecimento técnico. Você só podia entrar se fosse de escola pública, era uma regra que ele tinha. Na primeira aula, ele falou sobre Karl Max e o capitalismo. Quando todos esperavam ver desenho ou algo do tipo, chegou o professor e deu essa aula. Ficou todo mundo pensando… o que tem a ver? Ele já queria que fôssemos estudando o trabalho de forma crítica, um pensamento sobre que papel desenvolveríamos como artistas dentro da sociedade. Foi todo esse embasamento na adolescência, eu tinha por volta dos 13 anos, que foi fundamentando meu conhecimento, conta.
Como ganhar a vida?
Ganhar a vida com arte é um desafio até para os mais talentosos. Assis Costa percebeu desde cedo que não poderia se dedicar só à pintura de telas.
“Só pintando quadro não dava certo. Começamos a fazer decoração para carnaval, eventos em escola, feira de cultura, feira de ciências, as festas juninas. Começamos a fazer esses trabalhos, principalmente meu amigo que hoje vive no Rio Grande do Sul, é disso que ele vive. O Natal Luz é o que é hoje pelo que ele fez, depois eu fui para lá em 2002“, conta o artista.

Assis Costa também assina há alguns anos o Natal Luzes do Sertão, em Currais Novos:
“O Natal Luzes do Sertão foi um dos mais belos e trabalhosos de todos. Passei muito tempo envolvido em grandes eventos como pintor, escultor e isso toma um certo tempo da vida do artista plástico como pintor , para fazer uma exposição requer muito tempo de produção, criação“, explica.
Influências no sertão de pintores clássicos e modernos

O sertão colorido e geométrico é um de seus cenários prediletos. A questão indígena também aparece na obra do artista, embora de forma mais fantasiosa em razão das informações estarem concentradas apenas nos livros. Já o Seridó e seus casarões, suas casinhas, as causas de pau a pique têm uma simbologia muito grande na obra artística de Assis Costa, fonte de inspiração em um mundo polarizado entre a riqueza dos latifundiários e as que eram dominadas.
Admirador de pintores clássicos, brasileiros e potiguares, como Dorian Gay e Newton Navarro, o seridoense tem influência de pintores clássicos e modernos:
“Tenho uma paixão muito grande pela natureza e pelos dois grandes pintores que conheci como aprendiz que foi Monet e Van Gogh. Tenho essa coisa da paisagem, de querer pintar a luz do sertão, até hoje ainda faço, pego uma tela e pinto algo expressionista. Depois, o que fundamentou a forma de me expressar foi Picasso, o cubismo dá uma liberdade muito grande de você poder brincar com o traço, de não ter medo de errar. Sempre tive uma admiração imensa pelos artistas brasileiros e potiguares, Dorian tive a honra de conhecer, era um cara que também tinha esse pensamento, essa linguagem“, conta.
“A fome e a miséria de Portinari eram mais perto da minha realidade”, destaca Assis Costa
A pobreza e a fome do sertão moldaram também a obra de Assis Costa. Numa comparação entre Picasso e Portinari, duas das principais referências do potiguar, ele admite que o brasileiro é muito mais próximo de sua realidade.
“Eu sempre tento colocar dignidade nas pessoas que pinto, nunca pinto os retirantes, como Portinari. A obra dele era para causar impacto, parece que foi arrancada a pele, um negócio sofrido, muito impactante e foi uma das obras que mais me impactou na adolescência, era mais expressivo até do que os trabalhos de Picasso porque era muito mais perto da minha realidade, da fome, pobreza, miséria“, avalia.


A influência de artistas potiguares
Entre os artistas plásticos do Rio Grande do Norte, Costa cita Assis Marinho e Newton Navarro como grandes referências e fontes de inspiração:
“Um artista que hoje conheço pessoalmente é Assis Marinho, sempre que posso digo a ele que quando vi trabalho dele na minha infância, nos anos 1980, me impactou muito. Ele fazia trabalhos maravilhosos. Foi uma das coisas que me estimulou a desenhar também, porque achava aquilo muito bonito. Via os desenhos de Navarro [Newton Navarro] e achava fantástico. Dorian era pela cor, ele é um mestre das cores, é impressionante, é de um cromatismo… tanto é que no começo da produção dele, ele queria ser abstrato porque gostava de trabalhar mais as cores do que as formas“.
Santo de casa faz milagre?
Assis Costa cruzou pelas primeira vez a divisa do Rio Grande do Norte em 2002, quando foi convidado para trabalhar em Gramado e Canela, duas cidades histórias do interior do Rio Grande do Sul. A Chocofest contou com a ambientação do artista potiguar. Foram 33 dias de trabalho almoçando e jantando no barracão do evento. Durante o período, pintou um mural de 3,70 metras a cada um dia e meio.
Na passagem pelo sul do país, Assis Costa trabalhou em Gramado, Canela, Nova Petrópolis, Bento Gonçalves, Pelotas, Porto Alegre e teve até trabalho em comerciais da Volkswagen. Assis já tinha feito uma exposição em Currais Novos com vinho, a Dom Quixote de La Mancha de vinho. Uma pessoa no Rio Grande do Sul viu o trabalho e convidou o artista para expor por lá.
Duas historiadoras italianas registraram a exposição de pinturas com vinho num livro sobre as famílias italianas que migraram para o Brasil que resultou de uma pesquisa de pós-doutorado. Uma das pinturas virou capa do livro.
“Nunca tinha saído do Rio Grande do Norte e a primeira vez que saí para trabalhar foi no Rio Grande do Sul. Então, acabei passando muitos anos trabalhando lá, acredito que isso trouxe algum tipo de reconhecimento. Mas ele também veio pelo próprio trabalho que realizo até hoje. O compromisso que tenho como artista. Todo mundo que me contrata sabe que a dedicação é de 100%, cumprir prazos, apesar de alguns serem irrealizáveis“, diz.
Meu lugar

Os pais de Assis Costa nasceram na zona rural, e os avós moravam no sítio, um refúgio para o artista na infância. Ao redor da casa do avô, a plantação de algodão inspirou o artista anos mais tarde:
“Uma das poucas cenas que lembro do meu avô é eu correndo para encontrar com ele e ele no meio do algodoal colhendo algodão com um bisaco, um chapeuzão de palha. Tinha um quarto onde eles guardavam o algodão e minhas tias, minha mãe tiravam os caroços para juntar numa lata. Eu era criança e cavava túneis no algodão, são coisas que lembram minha infância“, explica ao falar das preferências temáticas para seus quadros.
A agricultura também foi parar em várias telas do pintor. Assis Costa nem sonhava, mas a velha infância seria mais que um período cronológico para ele.
“As vivências do mundo rural guardo comigo, por isso pinto muito isso, apesar de ter morado a vida toda na cidade. Na infância minha mãe lavou roupa para ganhar algum dinheiro a mais, meu pai era minerador. Eu e meu irmão andávamos com aquela trouxinha de roupa na cabeça. Fazia um pacotinho e mandava a gente entregar. O pessoal diz que eu gosto muito de pintar lavadeira de roupa, mas essa foi minha realidade. Quando era época de chuva, as mulheres da rua adoravam lavar a roupa nas pedras que tinha no riacho, isso eu via muito na infância, mesmo na cidade. Essas vivências de lavadeira de roupa, agricultor, a história dos mineradores, procissão de Sant’Ana, a coisa da fé, São Francisco, cresci a vida com retrato dele, era tão antigo que foi se desmanchando, Dom Quixote é o arquétipo do ser humano. Essas coisas que pinto, não é porque são vendáveis. Me sinto honrado e feliz de poder viver do que eu gosto, que é arte”, finaliza.
Portfólio com algumas obras de Assis Costa:
Fonte: saibamais.jor.br




