O levantamento do Observatório do Grupo Gay da Bahia (GGB) revela que, mesmo fora do eixo dos estados com maior número absoluto de registros, o Rio Grande do Norte segue inserido no mapa da violência contra a população LGBTQIAPN+. Dados exclusivos do relatório, enviados pelo GGB à Agência Saiba Mais, indicam que o estado teve cinco casos de mortes violentas de pessoas LGBTQIAPN+ ao longo de 2025, reforçando o cenário de subnotificação e invisibilidade que marca a região Nordeste.
No Brasil, uma pessoa LGBTQIAPN+ foi morta a cada 34 horas em 2025. Ao todo, o GGB contabilizou 257 mortes, incluindo homicídios, latrocínios, suicídios e outras causas. O número representa uma redução de cerca de 12% em relação a 2024, quando foram registrados 291 casos. Ainda assim, a entidade alerta que os dados não refletem a real dimensão da violência, já que o levantamento depende, majoritariamente, de notícias veiculadas pela imprensa e de informações enviadas à organização.
A região Nordeste concentrou o maior número de registros no país, com 66 casos, à frente do Sudeste e do Centro-Oeste. Apesar disso, apenas alguns estados aparecem com maior destaque nos rankings nacionais, como São Paulo, Bahia e Minas Gerais. É nesse contexto que o Rio Grande do Norte acaba diluído nas estatísticas regionais, mesmo tendo registros confirmados.
De acordo com o GGB, os dados específicos do RN, presentes na planilha do Observatório, mostram que as vítimas no estado seguem o padrão nacional, predominância de gays e pessoas trans, alto índice de homicídios e grande ausência de informações detalhadas sobre as circunstâncias dos crimes, como local, autoria e motivação. Em muitos casos, não há sequer identificação completa da vítima, o que dificulta a caracterização da violência como crime de ódio e compromete a formulação de políticas públicas. O GGB destaca que, quanto mais distante dos grandes centros urbanos, maior tende a ser o apagamento desses crimes, tanto nos registros oficiais quanto na cobertura jornalística.
Para Ari Medeiros, mulher trans potiguar e militante da pauta LGBTQIAPN+, a subnotificação é um entrave central no enfrentamento da violência. “Quando os casos não são registrados corretamente ou sequer ganham visibilidade, o Estado deixa de reconhecer que essas mortes têm motivação de ódio. No Rio Grande do Norte, muitas violências contra pessoas LGBTQIA+ ficam fora das estatísticas, o que reforça a sensação de impunidade, especialmente nos assassinatos de pessoas trans e periféricas, cujas vidas parecem não importar para grande parte da sociedade.”
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Perfil das vítimas no país
No recorte nacional, a maioria das vítimas identificadas em 2025 era formada por gays, que somaram 156 registros. Mulheres trans apareceram em 46 casos, seguidas por travestis (18), bissexuais (9), lésbicas (4) e homens trans (3). Também foram contabilizadas mortes de pessoas heterossexuais em contextos relacionados à defesa de pessoas LGBT+ ou por confusão de identidade. Em 16 casos, a identidade da vítima não foi informada.
Os homicídios responderam por cerca de 80% das ocorrências, enquanto suicídios representaram 8% e latrocínios, 7%. Em quase 60% dos registros, não há informação sobre o meio utilizado, evidenciando falhas recorrentes nas investigações e na divulgação dos casos.
O cenário observado no Rio Grande do Norte é emblemático da chamada “geografia do silêncio”, em que estados do Nordeste aparecem com números menores não por estarem livres da violência, mas por enfrentarem subnotificação crônica, precariedade na coleta de dados e menor repercussão midiática.
A entidade reforça que a falta de estatísticas oficiais sobre crimes motivados por LGBTfobia impede uma resposta mais efetiva do poder público. Entre as recomendações estão a implementação obrigatória do formulário nacional para registro de crimes LGBTfóbicos, a capacitação de agentes públicos e o fortalecimento de políticas de proteção, especialmente para pessoas trans e jovens LGBT+.
Mesmo com a redução numérica registrada em 2025, o Brasil segue liderando o ranking mundial de mortes violentas de pessoas LGBTQIAPN+ inseridos em um contexto marcado pela invisibilidade, pela impunidade e pela ausência de políticas estruturantes de enfrentamento à violência. Confira o relatório na íntegra:
Fonte: saibamais.jor.br




