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quando o cinema atravessa gerações

Há filmes que a gente assiste. E há filmes que nos atravessam. O Agente Secreto pertence a esse segundo grupo. Não apenas pela força das interpretações e da construção estética, mas pelo que a obra como um todo convoca: um encontro entre passado e presente, entre o que foi vivido e o que foi herdado, entre o trauma e a necessidade de elaboração coletiva.

Quando Wagner afirmou que o filme fala de “memória ou da falta dela” e de “trauma transgeracional”, tocou num ponto que é o centro da experiência de quem integra o coletivo de Filhos e Netos por Memória, Verdade, Justiça e Reparação. Mas é importante dizer: essa reflexão não está apenas na fala do ator. Ela está inscrita na própria estrutura do filme, na atmosfera, nos silêncios, nos deslocamentos, nas ausências que rondam os personagens. O cinema, ali, faz aquilo que muitas vezes a história oficial se recusou a fazer: dar forma sensível ao que foi calado.

A ditadura brasileira produziu mortos, desaparecidos, torturados. Mas produziu também algo menos visível e igualmente devastador: uma herança de medo, de lacunas, de histórias interrompidas que atravessam famílias inteiras. Filhos e netos cresceram ouvindo fragmentos, percebendo silêncios, sentindo tensões que não sabiam nomear. Muitos não viveram diretamente o cárcere, a tortura, a clandestinidade, mas herdaram seus efeitos. É isso que chamamos de trauma transgeracional: quando a violência não elaborada se transmite como marca, como sombra, como inquietação permanente.

O Agente Secreto dialoga profundamente com essa experiência. E o faz de maneira especialmente potente ao não se concentrar apenas na figura clássica do militante heroico. O protagonista é um homem comum, atravessado por um contexto que o excede. Essa escolha narrativa é política. Ela nos lembra que a ditadura não foi um episódio restrito a quem estava na linha de frente da militância, mas uma engrenagem de medo e controle que moldou a vida cotidiana, produziu adaptações forçadas, silenciamentos, normalidades artificiais. O trauma, portanto, não pertence só a quem resistiu diretamente, mas também a quem foi obrigado a sobreviver sob um regime que transformou a exceção em regra.

É aí que o cinema se revela uma ferramenta poderosa de elaboração coletiva. A arte tem essa capacidade rara: transformar dados históricos em experiência sensível, fazer com que o espectador não apenas compreenda, mas sinta. Ao iluminar zonas de sombra, ao dar corpo a personagens que carregam marcas invisíveis, o filme ajuda a romper o pacto de silêncio que, por décadas, tentou empurrar a ditadura para um passado “encerrado”.

Mas há um elemento fundamental: não se trata de ficções soltas no ar. São obras ancoradas em histórias reais, em contextos concretos, em violências que aconteceram de fato. Assim como Ainda Estou Aqui, ao reconstruir a trajetória de Eunice Paiva, O Agente Secreto nos lembra que por trás de cada narrativa há vidas atravessadas pelo autoritarismo. A arte, nesse sentido, não substitui a história, ela a amplifica, a humaniza, a torna compartilhável.

Para quem carrega a memória da ditadura como herança familiar, ver essas histórias ganharem o mundo pela via da cultura tem um significado profundo. É como se aquilo que durante tanto tempo foi vivido em círculos íntimos, em conversas sussurradas, em lutos inacabados, encontrasse finalmente uma linguagem pública. O cinema cria pontes entre gerações: permite que quem não viveu aquele tempo se conecte afetivamente com ele; e que quem herdou suas marcas encontre reconhecimento, escuta, elaboração.

Há algo de profundamente político nisso. Uma sociedade que não enfrenta seus traumas tende a repeti-los. Quando a memória é negada, o autoritarismo encontra terreno fértil para retornar com novas roupagens. Por isso, filmes como O Agente Secreto não são apenas obras artísticas: são intervenções no debate público. Eles ajudam a construir uma consciência histórica que não se limita a datas e documentos, mas que alcança o campo dos afetos, das identificações, das perguntas que atravessam pais, filhos e netos.

Celebrar o reconhecimento internacional do nosso cinema é, portanto, celebrar mais do que prêmios. É reconhecer que a cultura brasileira está dizendo ao mundo, e a si mesma, que há histórias que não podem ser varridas para debaixo do tapete. Que a democracia não se sustenta sobre o esquecimento. Que a memória não é um peso do passado, mas uma responsabilidade com o futuro.

Quando a arte consegue transformar trauma em narrativa, silêncio em palavra, ausência em presença simbólica, ela cumpre uma função essencial: interrompe a transmissão cega da dor e abre espaço para a transmissão da consciência, da luta, do compromisso com o “nunca mais”. É nesse ponto que o cinema encontra o trabalho dos Filhos e Netos por Memória, Verdade, Justiça e Reparação. Ambos apostam que lembrar não é ficar preso ao ontem, mas criar as condições para que as próximas gerações não herdem o medo como destino, e sim a coragem de saber, de perguntar e de transformar.

Fonte: saibamais.jor.br

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