O prefeito de Mossoró e pré-candidato ao governo do Rio Grande do Norte, Allyson Bezerra (União), amanheceu o dia com a Polícia Federal em sua casa. O chefe do Executivo, o vice-prefeito e nomes de outros municípios são alvos de uma operação que investiga um suposto esquema criminoso de desvio de recursos públicos e fraudes em procedimentos licitatórios na área da saúde no RN. Ao longo do dia, o prefeito se defendeu e politizou a ação da PF. Entre antigos e novos aliados, houve silêncio nas redes sociais.
O ex-senador José Agripino, presidente do União Brasil no estado, é um dos principais entusiastas da pré-candidatura de Allyson ao governo, ocupando espaço de forma recorrente na mídia para falar sobre conjuntura política e defender o nome do prefeito ao Governo estadual. No Instagram, Agripino costuma compartilhar com seus mais de 32 mil seguidores registros em reuniões políticas, eventos sociais e familiares. Em 15 de janeiro, por exemplo, publicou uma foto ao lado de Allyson, do deputado estadual Kleber Rodrigues e da vice-prefeita de Macaíba, Raquel Rodrigues. “Bem acompanhado”, escreveu. Também fez três publicações desde esse dia — a última foi no sábado (24). Até o fechamento desta reportagem, não publicou nada sobre a operação envolvendo Allyson.
A senadora Zenaide Maia (PSD) é outra aliada de Allyson. Embora seja vice-líder do governo Lula no Congresso Nacional, a parlamentar costura um rompimento com o PT a nível local e deve estar no palanque da oposição em outubro — ela, concorrendo à reeleição, e Allyson a governador. Em 15 de janeiro, por exemplo, estiveram juntos na inauguração do Hospital Municipal de Mossoró. Assim como a senadora, também a acompanha no apoio a Allyson o esposo de Zenaide e prefeito de São Gonçalo do Amarante, Jaime Calado. Em 25 de dezembro, ao comemorar os resultados de uma pesquisa eleitoral, Calado escreveu que “a parceria política e administrativa da senadora Zenaide com o prefeito de Mossoró Allyson Bezerra é aprovada pelo povo potiguar e está refletindo nas pesquisas de intenção de voto”. Nesta terça (27), tanto Zenaide quanto Jaime fizeram novas publicações nas redes sociais. Ela postou um vídeo na participação de uma obra entregue em São Gonçalo, e ele distribuiu parabéns e divulgou obras do município nos Stories do Instagram, mas o casal não se posicionou a respeito da operação da Polícia Federal.
Já o vice-governador Walter Alves (MDB) comunicou em 19 de janeiro a aliança com o grupo do prefeito de Mossoró e o rompimento com o PT potiguar — Walter, inclusive, já indicou o nome para vice de Allyson em outubro, o deputado estadual Hermano Morais, que está de saída do PV e vai se filiar ao MDB. A última publicação de Walter nas redes sociais foi na quinta-feira (22), em que falou sobre o início das obras de duplicação da BR-304. Sobre a operação da Polícia Federal que envolve Allyson Bezerra, não houve pronunciamento nas redes sociais.
Entre os dois nomes principais que devem enfrentar Allyson na eleição para governador em outubro, apenas Cadu Xavier (PT) se pronunciou. O secretário da Fazenda do RN disse que a operação da PF merece atenção de todos e afirmou que gerir recursos públicos requer compromisso, zelo e honestidade.
“Tenho orgulho de gerir as finanças do estado há 7 anos, no governo da professora Fátima, pautado por esses princípios. Que o prefeito e demais investigados tenham o direito de prestar os devidos esclarecimentos e apresentar suas defesas. Fraudes em contratos da Saúde é, além de crime, totalmente desumano”, escreveu Cadu.
Álvaro Dias (Republicanos), governadorável pelo campo bolsonarista, não se pronunciou, embora tenha feito publicação nas redes sociais nesta tarde para falar de obras quando era prefeito de Natal e compartilhar imagens de uma entrevista.
Allyson é pré-candidato a governador e será substituído no comando da prefeitura em abril pelo vice, Marcos Medeiros (PSD). Nas redes sociais, até a publicação dessa reportagem, Medeiros não havia se pronunciado oficialmente sobre a operação — compartilhou apenas nos Stories do Instagram o vídeo em que Allyson se defende. A posição foi a mesma adotada por outros aliados do prefeito, como o líder do Governo na Câmara, vereador Alex do Frango (PSD), e o presidente da Casa, Genilson Alves (União).
A operação deflagrada pela Polícia Federal em conjunto com a Controladoria-Geral da União nesta terça teve o objetivo de desarticular um esquema criminoso voltado ao desvio de recursos públicos e a fraudes em procedimentos licitatórios. Foram cumpridos 35 mandados de busca e apreensão no Rio Grande do Norte, além da adoção de medidas cautelares e patrimoniais. De acordo com balanço divulgado pela PF às 18h11, foram apreendidos R$ 251.502,00 em espécie, distribuídos em sete locais de busca, além de 33 aparelhos celulares, 34 mídias diversas (pen drives e computadores), quatro veículos e 114 documentos.
As investigações apontam indícios de irregularidades em contratos de fornecimento de insumos para a rede pública de saúde, envolvendo empresas sediadas no Rio Grande do Norte que atuavam junto a administrações municipais de diversos estados. Auditorias identificaram falhas na execução contratual, incluindo indícios de não entrega de materiais, fornecimento inadequado e sobrepreço. As diligências incluem o cumprimento de ordens judiciais em Mossoró, Natal, Paraú, São Miguel, Upanema, Serra do Mel, Pau dos Ferros e José da Penha. Os investigados poderão responder por crimes relacionados a desvios de recursos públicos e por fraudes em contratações administrativas.
Pedido de CEI em Mossoró
A vereadora Plúvia Oliveira (PT), de Mossoró, reuniu a oposição da Câmara Municipal de Mossoró nesta terça e propôs a instauração de uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) para investigar o prefeito Allyson Bezerra (União). O grupo de oposição vai realizar uma coletiva de imprensa nesta quarta-feira (28), às 9h na Câmara, para apresentar o documento da CEI que está sendo elaborado pela equipe jurídica da parlamentar.
Mais cedo, em entrevista, Plúvia lembrou que em 2025 também apresentou o pedido de uma outra CEI para apurar possíveis irregularidades em processos licitatórios e na execução de obras públicas no período de 2021 a 2025, incluindo indícios de superfaturamento e cobrança indevida de propinas. O pedido, contudo, foi arquivado pela bancada de situação.
A vereadora Marleide Cunha (PT), também da oposição local, exigiu que o prefeito seja investigado. “Que seja investigado o prefeito, que seja investigado a fundo as obras no município, os contratos aqui em Mossoró, porque uma coisa todo mundo aqui sabe, que é muito estranho o uso do dinheiro público em diversas situações aqui. Dinheiro público é para ser usado em benefício do povo e não em benefício próprio, em benefício de alguns amigos e amigas. Portanto, que seja feita toda a investigação e quem cometer o crime que vá para cadeia”, disse.
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Fonte: saibamais.jor.br




