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Cortejo para Yemanjá reafirma ancestralidade negra em Natal

A Nação Zamberacatu realiza, no próximo dia 2 de fevereiro, a 14ª edição do Batuque para a Rainha do Mar, cortejo em homenagem a Yemanjá que percorre as praias urbanas de Natal e se consolidou como uma das mais importantes manifestações culturais e religiosas ligadas às tradições de matriz africana na capital potiguar. A celebração reúne espiritualidade, música, memória e ocupação simbólica dos espaços públicos, reafirmando a presença e a resistência da cultura negra na cidade.

A programação começa ainda ao amanhecer, às 6h, com a saída do Laburé de Yemanjá, quando o presente à orixá parte do Terreiro da Prata em direção à praia de Ponta Negra, próximo ao Morro do Careca, para a entrega ao mar. À tarde, às 16h, acontece a concentração na Ponta do Morcego, em Areia Preta, de onde batuqueiros e participantes seguem em cortejo até a estátua de Yemanjá, na Praia do Meio, ao som dos tambores e cânticos.

A Nação Zamberacatu é um grupo cultural e comunitário de Natal dedicado à difusão dos ritmos afro-brasileiros, especialmente ligados às tradições do maracatu e dos povos de terreiro. Mais que um coletivo musical, o grupo atua na formação cultural, na valorização da identidade negra e na construção de espaços de convivência e fortalecimento comunitário, utilizando o batuque como instrumento de memória, resistência e afirmação cultural.

Para Oyá Iyalê, mestra da Nação Zamberacatu e produtora geral da festa, o cortejo representa muito mais que uma celebração religiosa. Segundo ela, trata-se de um movimento de reafirmação cultural e de retomada da ancestralidade negra em uma cidade que historicamente marginalizou essas expressões.

“O cortejo do Dia de Yemanjá representa, para a Nação Zamberacatu, uma retomada ancestral dos nossos valores, da nossa cultura, da nossa fé e da perpetuação da nossa sabedoria enquanto comunidade afro-religiosa e negra”, afirma.

Ela ressalta que a permanência da celebração ao longo de 14 anos mostra também que existe, em Natal, uma população que deseja se reconectar com essas raízes. “Embora Natal tenha historicamente invisibilizado e silenciado as expressões negras, existe uma parcela significativa da sociedade que deseja, precisa e anseia ser nutrida dessa ancestralidade, dessa força e dessas sabedorias”, pontua.

A mestra explica que o candomblé e as tradições de terreiro funcionam como espaços de preservação de memória e conhecimento coletivo. “O candomblé é uma grande fonte de memória e de conhecimento ancestral, uma tecnologia de cuidado coletivo que nos ensina a viver em comunidade”, diz. Para ela, levar essa celebração às ruas tem significado simbólico profundo: “Realizar uma festa de axé nas ruas de Natal, uma cidade que por muito tempo nos negou espaço e visibilidade, é um gesto potente de retomada desses valores.”

Segundo Oyá Iyalê, ocupar a cidade com batuque e espiritualidade também é uma forma de enfrentamento ao racismo e às violências sofridas pelas comunidades negras e pelos povos de terreiro. “Levar nossa fé para a rua é também uma forma de enfrentar o racismo, as violências e as múltiplas opressões que a comunidade negra e as religiões de matriz africana sofrem historicamente no nosso país e, de maneira muito marcada, na nossa cidade.”

Ela resume o sentido do cortejo como uma ponte entre passado e futuro: “Para nós, o cortejo é isso: uma retomada de valores ancestrais, de perspectivas e de sonhos futuros que estão profundamente alinhados com a nossa ancestralidade negra.”

Memória viva da Rainha Iracema

A celebração também homenageia a Rainha Iracema Albuquerque, considerada a matriarca da Nação Zamberacatu e uma das idealizadoras do cortejo. Filha de Yemanjá, ela é lembrada como liderança espiritual, cultural e comunitária que marcou profundamente a história do grupo.

“Iracema foi a nossa grande mãe, a nossa primeira mais velha, uma mulher que transitava por todas as esferas que dialogam com a Nação”, lembra Oyá Iyalê. Segundo ela, Iracema atuava tanto na dimensão religiosa quanto nas lutas culturais e políticas da comunidade.

Mesmo tendo convivido por apenas três anos com o grupo, sua influência permanece viva. “Ela foi a nossa grande iniciadora. Mesmo tendo estado fisicamente na Nação por pouco tempo, deixou um legado que permanece vivo até hoje. Seus valores e seu modo de cuidar da comunidade continuam nos ensinando.”

A liderança lembra que Iracema tinha uma capacidade especial de acolhimento e escuta. “Ela conseguia traduzir, na sua própria personalidade, o que são os valores do axé. No cuidado e na sensibilidade espiritual, percebia as pessoas e conduzia processos coletivos com sabedoria”, conta.

Por isso, segundo Oyá Iyalê, a presença da matriarca é sempre lembrada durante a celebração de Yemanjá. “Se essa festa existe até hoje, é porque os saberes, os cuidados e a presença espiritual de Iracema seguem vivos em nós.”

Ocupação cultural e política da cidade

Além do caráter religioso, o cortejo também se afirma como ato político e cultural de ocupação da cidade. Para Oyá Iyalê, essa dimensão sempre esteve presente na proposta do evento.

“O cortejo nasce com essa intencionalidade política, social e cultural, afirmando o direito de ocupar os espaços públicos com a nossa sonoridade, com os nossos valores e com a nossa cultura”, explica.

Ela destaca que a presença do batuque nas ruas ajuda a romper estigmas e ampliar o entendimento sobre os povos de terreiro. “Ao levar o batuque para a rua, ajudamos a desmistificar quem somos e a iluminar perspectivas sobre as religiões de matriz africana e a cultura negra.”

Ainda segundo ela, trata-se de uma ocupação guiada pelo respeito. “É um movimento que não se faz pelo confronto direto, mas pelo axé, pela presença, pelo som e pelo cuidado.”

Convite ao encontro e ao respeito

A Nação Zamberacatu também orienta os participantes a adotarem cuidados ambientais durante a entrega de presentes ao mar, evitando embalagens e materiais poluentes. A proposta é celebrar Yemanjá sem causar danos à natureza.

Para Oyá Iyalê, o cortejo é, sobretudo, um convite ao encontro. “O cortejo é um espaço de encontro, de respeito e de cuidado com a cidade, com as pessoas, com o mar e com a ancestralidade.”

Ela reforça o chamado para que mais pessoas participem da celebração. “Venham participar do cortejo, venham se conectar com essa energia, com esse axé. Permitam-se enxergar uma Natal que celebra a ancestralidade negra e respeita a diversidade religiosa, étnica e cultural.”

Assim, ao som dos tambores e sob a proteção da Rainha do Mar, o cortejo reafirma, ano após ano, que memória, cultura e ancestralidade seguem vivas nas ruas e nas praias de Natal.

Fonte: saibamais.jor.br

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