Não foi apenas um cão que morreu. Na Praia Brava, em Santa Catarina, o que se viu foi o retrato de uma sociedade que vem ensinando, dia após dia, que a dor do outro pode ser espetáculo, que a crueldade pode ser brincadeira, que a vida (quando é frágil, quando não tem voz) vale menos.
Orelha era um cão comunitário. Era parte da paisagem afetiva, desses que pertencem a todos e, por isso mesmo, dependem de todos. Sua morte, sob tortura praticada por quatro adolescentes não é um fato isolado, nem um “desvio inexplicável”. Aristóteles já nos lembrava: o caráter é forjado pelo hábito. Ninguém nasce cruel. A crueldade se aprende. E se aprende porque a sociedade permite, tolera, silencia e normaliza.
A gente aprende a ser bom. Mas também aprende a ser indiferente. Aprende a rir da dor alheia. Aprende a achar que sofrimento é entretenimento. Quem ri da dor do outro está treinando a falência moral de uma sociedade. É um treino diário para a indiferença, para o esvaziamento da empatia, para a ideia perigosa de que o prazer pode vir do sadismo.
Esses quatro adolescentes não apenas machucaram um animal. Eles decidiram que ele merecia sofrer. Decidiram que a dor era justificável. Decidiram que tinham o direito de exercer força bruta sobre quem não podia reagir. Isso diz muito mais sobre a sociedade em que vivemos do que sobre a morte de um cão. Diz sobre os valores que estamos ensinando, ou deixando de ensinar.
A violência contra animais é, há décadas, reconhecida como um marcador precoce de funcionamento psíquico grave. Na psiquiatria, fala-se em transtorno de conduta: violação de regras, desprezo pelo sofrimento alheio, ausência de empatia, banalização da dor. Não é apenas “coisa de adolescente”. É sinal de alerta. É grito de socorro. É espelho quebrado daquilo que foi aprendido em casa, na rua, nas telas, nas conversas atravessadas por ódio, deboche e desumanização.
A crueldade não nasce do nada. Ela é plantada, regada, aplaudida, às vezes. E quando os responsáveis, em vez de impor limites, coagem, ameaçam, protegem, corrompem, usam tráfico de influência, premiam com viagens e privilégios, o recado é claro: não há ética, só força bruta. Não há consequência, só o vazio humano mascarado de poder.
Que valores estão sendo ensinados? Que limites foram dados a esses adolescentes? Que tipo de humanidade está sendo construída quando a violência é relativizada e o agressor é blindado?
Orelha não tinha voz. Como tantos outros (humanos e não humanos) que sofrem em silêncio. A violência contra quem é vulnerável é um treino emocional para violências maiores: contra quem não reage, contra quem não denuncia, contra quem é visto como descartável. Hoje é um cão. Amanhã, quem?
A banalização da barbárie não começa com grandes atrocidades. Ela começa com risadas. Com a normalização da dor. Com a ausência de freios. Com o ensino cotidiano de que a vida do outro vale menos.
Orelha morreu. Mas o que realmente adoece é perceber que estamos ensinando crianças a perderem a humanidade antes mesmo de aprenderem a cuidar. E isso, mais do que a morte de um cão, é o retrato de uma sociedade que precisa, urgentemente, reaprender a ser gente.
Fonte: saibamais.jor.br




