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Acusado de receber propina, Allyson nega ter controle sobre gastos de Mossoró

A Operação Mederi, deflagrada na semana passada pela Polícia Federal (PF), em ação conjunta com a Controladoria-Geral da União (CGU), além de causar um estrago político, provocou também uma mudança de discurso do pré-candidato a governador e prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União). Ele havia declarado anteriormente que “tinha o controle de todas os gastos do município”, mas em declarações mais recentes dadas pós-operação, transferiu a responsabilidade para os seus secretários afirmando que eles são os verdadeiros ordenadores de despesas. Em 13 de novembro de 2025, pouco mais de dois meses antes da operação, em entrevista à rádio 98 FM Natal, Allyson afirmou que tinha controle sobre todos os gastos da Prefeitura de Mossoró. “Eu tenho controle de todos os gastos, não existe esse negócio de ‘banda voou não’, não existe esse negócio de ‘Casa da Mãe Joana’. Tem controle”, declarou à época o prefeito, que foi um dos alvos dos 35 mandados de busca e apreensão cumpridos pela PF em cinco municípios do Rio Grande do Norte, incluindo Mossoró.

Um dia depois da deflagração da operação, que teve como objetivo desarticular um esquema criminoso voltado de desvio de recursos públicos e fraudes em procedimentos licitatórios na área da saúde, Allyson Bezerra mudou o tom do discurso em entrevista à Rádio 96 FM Natal. Na ocasião, além de se defender das acusações de recebimento de propina, Allyson Bezerra transferiu aos secretários municipais a responsabilidade pelo ordenamento das despesas da Prefeitura de Mossoró. “Quando eu cheguei na Prefeitura de Mossoró, o prefeito era ordenador de tudo que se imaginava de despesas. Era o prefeito quem licitava, pagava e fazia os contratos. Eu, no mês de agosto de 2021, aprovei na Câmara Municipal uma lei colocando os meus secretários para serem ordenadores de despesa. Eu tirei de mim, da minha responsabilidade, do meu querer e da minha caneta atos de licitação, contratação e pagamento. Tudo é com os secretários da Prefeitura de Mossoró. Essa é a ‘Matemática de Mossoró’”, justificou-se.

O prefeito disse que falaria apenas por ele, não “por terceiros”, assegurando que nunca recebeu nem solicitou nenhum “tipo de valor” nem manteve nenhum “tipo de diálogo com essas pessoas envolvendo esse tipo de contrato, de benefício pessoal dentro da Prefeitura de Mossoró”. “Nunca solicitei para que ninguém ligado a mim fosse ter esse tipo de contato, esse tipo de conversa”, reiterou.

A “Matemática de Mossoró”

Organograma da propina da “Matemática de Mossoró”. Foto: Reprodução

“Matemática de Mossoró” foi a expressão usada pela Polícia Federal no âmbito da Operação Mederi para descrever o suposto esquema de corrupção e desvio de recursos públicos da saúde na Prefeitura de Mossoró, que teria como um de seus beneficiários, segundo as investigações, o próprio prefeito Allyson Bezerra. O termo refere-se especificamente a um percentual de 15% de propina que seria cobrado da empresa Dismed, pivô do esquema desarticulado pela PF e pela AGU, para facilitar os pagamentos dos contratos de fornecimento de medicamentos firmados com a Prefeitura de Mossoró.

O modus operandi da propina foi revelada através de uma escuta ambiental instalada pela Polícia Federal no escritório da Dismed. Nas conversas gravadas, o sócio da Dismed, o empresário Oseas Monthalggan Fernandes Costa, explica a um interlocutor como funcionava a “Matemática de Mossoró”.

A Prefeitura de Mossoró, segundo a transcrição da conversa que consta na decisão judicial que autorizou a operação, havia emitido uma ordem de compra de medicamentos no valor de R$ 400 mil. No entanto, a empresa entregou apenas o equivalente a R$ 200 mil. A diferença seria distribuída entre os participantes do esquema.

Allyson receberia repasse de R$ 60 mil, segundo investigações da PF

Allyson Bezerra com empresário Oseas Monthalggan, sócio da empresa Dismed. Foto: Reprodução Redes Sociais

O prefeito Allyson Bezerra, ainda de acordo com as interceptações, receberia um repasse de R$ 60 mil, equivalente a 15% do contrato da Prefeitura de Mossoró com a Dismed. “Olhe, Mossoró, eu estudando aqui como é a Matemática de Mossoró. Tem uma ordem de compra de R$ 400 mil. Desses 400, ele entrega R$ 200 mil. Tudo a preço de custo. Dos 200, ele vai e pega 30%. Então, aqui ele comeu R$ 60 mil. Fica R$ 140 mil. Ele ganha R$ 70 mil e R$ 60 mil é meu. Dos R$ 130 mil, nós temos que pagar R$ 100 mil a Allyson e a Fátima, que é 10% de Fátima e 15% de Allyson. Ficou só R$ 30 mil pra empresa”, diz o sócio da Dismed em um dos diálogos obtidos pela PF.

A PF não identificou quem seria Fátima citada na conversa, mas as apurações apontam para uma funcionária da Prefeitura de Mossoró.

Prefeitura de Mossoró pagou R$ 13,5 milhões à Dismed entre 2021 e 2025

Sede da Dismed em Mossoró. Reprodução/Google Street View.

Entre 2021 e 2025, a empresa pivô do suposto esquema recebeu cerca de R$ 13,5 milhões em contratos de venda de medicamentos firmados com a Prefeitura de Mossoró.

“O volume de recursos públicos envolvidos, somado ao volume de dinheiro em espécie sacado pelas empresas, por si só, já constituiria circunstância digna de suspeita acerca da licitude da relação mantida com o ente municipal”, afirmou a PF ao justificar o pedido de busca e apreensão contra o prefeito Allyson Bezerra.

Durante a operação, foram apreendidos na casa do prefeito, em um condomínio de luxo em Mossoró, um celular, um laptop e HDs externos.

A suspeita do pagamento de propina exposta nas escutas, segundo a Polícia Federal, é reforçada pela proximidade entre o sócio da Dismed e o prefeito Allyson Bezerra.

A PF cita em seu relatório que os dois mantêm uma “proximidade política” e usa como exemplo uma foto publicada nas redes sociais.

“Durante a captação ambiental, seu nome foi mencionado pelos sócios Oseas e Moabe acerca de esquemas de pagamentos de propina envolvendo contratos com a prefeitura de Mossoró”, registra a PF em trecho do relatório da Operação Mederi.

Além de Mossoró, as fraudes também teriam ocorrido nos municípios potiguares de José da Penha, São Miguel, Serra do Mel, Paraú e Tibau. Foram cumpridos, ainda, mandados em Natal e Upanema.

O que dizem as defesas dos investigados

A defesa da Dismed e de Oseas, em nota, afirmou que está “confiante de que o esclarecimento técnico e documental demonstrará a inexistência de qualquer conduta criminosa”.

No dia da operação, o prefeito mossoroense publicou um vídeo se defendendo das acusações nas redes sociais. Allyson Bezerra tentou politizar a investigação, atribuindo a ação ao fato de ser pré-candidato a governador.

“Agora, ano eleitoral e em que o nome da gente aparece na primeira posição, nosso nome foi citado e houve essa investigação. Vou enfrentar com muita fé, coragem e integridade de entregar tudo o que me for solicitado. Faço questão de que toda investigação seja conduzida com total rigor da lei. Confio na Justiça”, disse, sem, no entanto, falar sobre sua proximidade com o sócio da empresa citada como pivô do suposto esquema.

Fonte: saibamais.jor.br

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