Muitos dos meus livros trazem cemitérios, dias nublados, chuva e frio, para compor as histórias dos personagens. E preciso esclarecer que busco construir imagens positivas sobre isso, como se essas referências tivessem o mesmo status das praias, dos bosques ou dos dias de sol e de calor.
O motivo é que túmulos e dias chuvosos nunca causaram em mim o sentimento de pesar que provocam nas outras pessoas. Ao contrário: aprecio o ambiente quieto, a arquitetura peculiar, o verde-musgo que vai tomando conta das lápides e a atmosfera calma das últimas moradas. Assim como desfruto das experiências que garoas e temporais proporcionam: o perfume da terra molhada, o som dos ventos e das gotas pingando, a visão das poderosas nuvens de chumbo.
Hoje participei de uma incursão ao Cemitério do Alecrim mediada pelo professor e historiador Henrique Lucena. O professor (que eu já seguia nas redes, mas não conhecia pessoalmente) tem uma energia que captura a atenção dos ouvintes e faz pensar. Não somente sobre História, mas sobre Filosofia, Arte, política, tempo (climático e cronológico) e até mesmo sobre afetos.
Infelizmente, o sol e o calor não me permitiram acompanhar o passeio até o fim. Precisamos, eu e meu esposo, buscar a sombra protetora das poucas árvores disponíveis e não pudemos ouvir o que aquelas belas construções — às quais ele deu voz — contavam a respeito dos seus mortos.
Nunca tinha parado para pensar que a cor, o material, o tamanho, os detalhes, as lápides e até mesmo a falta delas revelam muito sobre quem está enterrado em um jazigo. Por exemplo, sobre Amélia Duarte Machado (1881-1981), empresária, benemérita e figura de destaque na capital, mais conhecida por uma lenda urbana machista e invejosa que a retratam de modo grotesco. Tanto que a família hoje prefere não informar sua identidade na construção.
Como o professor explicou muito bem, os sepulcros são o retrato de um tempo, com sua lógica e contradições: no Brasil do século XIX, as necrópoles seguiam os mesmos ritos sociais da cidade à volta. A morte, que, de acordo com a ideia cristã professada por muitos dos que ali foram enterrados, deveria nivelar os homens, acabava reproduzindo a mesma hierarquia de antes. Os túmulos grandiosos que evocavam poder, filiação científica ou religiosidade, ocupavam as áreas próximas à entrada principal, impondo a permanência do status social do seu falecido ocupante.
Nos corredores centrais repousavam comendadores, coronéis, comerciantes ricos, políticos da oligarquia local, sacerdotes populares e famílias tradicionais, enquanto, ao fundo, distantes dos olhos dos visitantes, ficavam as sepulturas simples, muitas vezes anônimas, consumidas pelo tempo e pelo mato (esse é o caso do túmulo da minha bisavó e da minha avó, localizado na última rua do cemitério).
Rosinha Palatnik, uma moça que faleceu na década de 1930, tem seu rosto estampado com muita nitidez, apesar dos anos, no sepulcro com inscrições em hebraico que fica no “cemitério dos judeus” (dentro do Cemitério do Alecrim). Era uma bela jovem, e isso, somado ao fato de ser judia, desperta a curiosidade da população natalense. Sobre ela, a escritora Iracema Macedo escreveu em sua coletânea de poemas “De lances e dardos” (2000), o seguinte:
CANÇÃO DE AMOR PARA UMA MOÇA JUDIA
Conheço Rosinha Palatnik
por um único retrato de louça
que vive no cemitério
entre os túmulos judeus.
Morreu em 1936, aos vinte anos de idade
e há sobre a lápide, letras em hebraico
que não decifro…
Te vejo em muitos lugares
Sempre dentro do retrato,
Presa e viva, branca e morta.
Que queres, mulher,
Tanto tempo depois do tempo
em que houve calor para ti no mundo?
Que queres da tua janela de vidro
com o teu corpo de cinzas?…
Praticamente no centro do cemitério, mãe e filha, imortalizadas em mármore e granito, mostram semblantes melancólicos no maior e mais bonito mausoléu do Alecrim. Trata-se da esposa (Isabel), e da única filha (Ivete), do ilustre médico Januário Cicco. Falecidas inesperadamente no mesmo ano (1937), despertaram nesse saudoso e enlutado familiar, o desejo de homenageá-las com uma arte que arrebata o espírito de quem a contempla.
Um jovem soldado americano morto em Natal durante a Segunda Guerra Mundial permanece sepultado ali, apesar da “Glory Operation” ter trasladado todos os restos mortais dos combatentes que se encontravam fora do território estadunidense, naquele período. Diz-se que o fato de ele ter morrido de uma doença venérea, e não como herói, fez com que a família não o quisesse de volta.
Não sei se é mais uma lenda. Sei que sua lápide permanece como prova de como este mundo, em qualquer tempo, devora não apenas corpos, mas também dignidades. Porque não só as guerras, como também as sociedades, enaltecem mortos míticos para a memória coletiva e esquecem mortos reais em prol da honra familiar.
Minha bisavó foi uma criança indígena trazida do interior do estado para trabalhar na casa dos brancos ricos da capital. Cresceu, casou-se e teve duas filhas, que foi obrigada a colocar em um orfanato, quando o esposo faleceu. Depois conseguiu emprego onde? Na Maternidade Januário Cicco (hospital que leva o nome do médico famoso enterrado junto com a esposa e a filha no jazigo de já que já falei).
Minha avó foi uma criança institucionalizada no conhecido Orfanato Padre João Maria (mesmo nome do sacerdote cuja tumba se encontra logo na entrada do Alecrim). O orfanato recebeu ajuda de dona Amelinha Machado, que ofertava donativos para a instituição. Sim… muitos mortos de um mesmo “campo santo” tiveram seus caminhos cruzados em vida.
Mas, pasme… lá, bem perto da sepultura simples das minhas antepassadas, avistei um enorme jambeiro que dava sombra a cinco pessoas sentadas, desfrutando de seu almoço e cafezinho, após o serviço de zeladoria das tumbas. Ali eles conversavam e sorriam e me contaram que seus trabalhos foram passados de mãe para filhos. Que o lugar é tranquilo, pois a morte não faz barulho, ou reclama de nada, menos pelo roubo cotidiano dos objetos e esculturas de bronze, para o qual não se encontram os responsáveis.
Será ali, na última rua — não na principal, mas nos fundos, onde o Rio Potengi segue correndo — que meu corpo repousará antes de virar pó. Em um túmulo simples, sem mármore, sem bronze, sem inscrições pomposas que mintam sobre quem sou. É mais honesto com a realidade das coisas, embora não tão admirável quanto esculturas de mármore que levam pessoas a passearem por cemitérios, como quem anda por museus.
Após caminhar sob um sol inclemente, alcanço a última morada da minha parentela e leio os nomes gravados no cimento que ninguém rouba. Dois rostos velhinhos surgem no pensamento. A bisavó Joana perdeu o marido, mas cuidou dos doentes que podiam pagar pelo tratamento. A avó, Francisca, bordou em bastidor de lágrimas. Eu escrevo, imaginando se quando estiver na última rua, alguém saberá como vivi.
Fonte: saibamais.jor.br





