Allyson Bezerra renuncia à Prefeitura de Mossoró sob a sombra da “Operação Mederi”
Allyson Bezerra renuncia à Prefeitura de Mossoró sob a sombra da “Operação Mederi”
O pré-candidato ao Governo do Estado, Allyson Bezerra (União Brasil), renunciou à Prefeitura de Mossoró, na última sexta-feira (27), passando o cargo ao seu então vice, Marcos Medeiros (PSD), que assumiu o comando do Poder Executivo da segunda maior cidade do Rio Grande do Norte. Os dois são investigados na Operação Mederi, deflagrada no final de janeiro pela Polícia Federal (PF), em ação coordenada com a Controladoria-Geral da União (CGU).
A saída do cargo foi oficializada pelo pré-candidato com a leitura de uma carta durante solenidade realizada na Câmara Municipal de Mossoró (CMM). No documento, Allyson Bezerra cita sua “gratidão” por ter administrado o município. Ele foi eleito em 2020 e reeleito em 2024.
“Cheguei pelas mãos do povo e é ao povo que hoje presto contas e agradeço por todo o carinho e a confiança. Juntos, fizemos história e deixamos um legado, com grandes obras como o Hospital Municipal, o Centro Comercial, o Complexo Viário 15 de Março e outras centenas de entregas que transformaram Mossoró na cidade que mais cresce no Rio Grande do Norte”, diz trecho da carta.
No documento, ele afirma ainda que estregava a cidade ao novo prefeito, a quem chamou de “preparado e amigo, que dará continuidade a esse legado, junto com o povo, para fazer muito mais por nossa terra”.
Allyson Bezerra justificou a renúncia afirmando que recebeu um “chamado para servir” aos potiguares, dizendo que se colocava “à disposição como pré-candidato ao Governo do Rio Grande do Norte”.
Ele mencionou que ofereceria como “contribuição” ao estado “um projeto de transformação, desenvolvimento e prosperidade”.
Depois da leitura da carta de renúncia, teve início a transmissão de cargo de Allyson Bezerra ao novo prefeito Marcos Medeiros, conduzida pelo presidente da Câmara de Mossoró, Genilson Alves (União Brasil).
Ao entregar a faixa ao sucessor, o ex-gestor afirmou queremos “o povo continua na Prefeitura de Mossoró”. Marcos Medeiros assume o cargo até dezembro de 2028.
Além da leitura da carta, Allyson Bezerra fez um discurso marcado pelo tom emocional, em que relembra sua curta trajetória política, sua surpreendente eleição ao cargo em 2020 com 65.297 votos e a reeleição em 2024 com 113.121 votos.
“Essa foi a chapa vencedora nas urnas. Quando o povo votou em mim, votou também em Matos. Nós fomos eleitos de forma democrática pela maioria consagradora do povo da cidade de Mossoró”, declarou.
De chapéu de couro na cabeça, emulando a imagem do homem sertanejo para representar a força, a resiliência e a tradição do povo nordestino, Allyson Bezerra lembrou que, aos 28 anos de idade, foi eleito o prefeito mais jovem da história da cidade, sem experiência administrativa para governar, mas com “experiência de vida”.
De adversário a aliado das oligarquias
Antes de chegar à Prefeitura de Mossoró, quando derrotou a ex-prefeita, ex-governadora e ex-senadora Rosalba Ciarlini (PP), Allyson Bezerra havia disputado sua primeira eleição em 2018. Naquele ano, ele se elegeu deputado estadual prometendo combater as “oligarquias do Rio Grande do Norte”.
Dois anos depois, ele invocou esse mesmo discurso na campanha de 2020, quando denunciou o que seria um “acordão” entre as famílias Alves, Maia e Rosado.
Ao se lançar pré-candidato a governador, no entanto, ele se aliou justamente a duas dessas famílias – Alves e Maia –, cujas práticas “coronelistas” o jovem prefeito dizia se insurgir.
Depois da primeira eleição a prefeito em 2020 pelo Solidariedade, Allyson Bezerra mudou para o União Brasil, presidido no Rio Grande do Norte pelo ex-governador e ex-senador José Agripino Maia.
Em 2024, foi reeleito pelo partido, pelo qual também concorrerá ao Governo do Estado em 2026.

José Agripino, inclusive, é o principal articulador político da pré-campanha de Allyson Bezerra, que também recebeu o apoio do vice-governador Walter Alves (MDB), filho do ex-governador, ex-senador e ex-ministro Garibaldi Alves Filho (MDB).
O apoio de Walter a Allyson foi o que motivou a governadora Fátima Bezerra (PT) a permanecer no cargo até o final do seu mandato, abrindo mão de disputar a eleição ao Senado Federal.

Walter Alves foi o responsável pela indicação do deputado estadual Hermano Morais (MDB) para a vaga de pré-candidato a vice-governador na chapa de Allyson Bezerra. A senadora Zenaide Maia (PSD), assim como o vice-governador, também rompeu a aliança com o PT da governadora Fátima Bezerra para apoiar o ex-prefeito de Mossoró.
Além de José Agripino Maia, Garibaldi Alves Filho, Walter Alves e Zenaide Maia, quem também já declarou apoio à pré-candidatrura de Allyson Bezerra foi o ex-governador e deputado federal Robinson Faria (PP).
Quem é o novo prefeito de Mossoró

O novo prefeito de Mossoró, Marcos Medeiros, 50 anos, nunca havia disputado uma eleição antes de se tornar vice na capa de Allyson Bezerra em 2024.
Formado em Gestão Pública pela UFRN, ele é servidor da Ufersa, mesma instituição onde Allyson Bezerra iniciou sua carreira como dirigente do Sindicato dos Servidores Técnico-Administrativos.
Na primeira gestão de Allyson Bezerra, Marcos atuou na Diretoria Executiva da Secretaria Municipal de Saúde e também como Secretário Municipal de Governo.
Evangélico — assim como Allyson —, possui perfil discreto. Até 2024, seus poucos registros nas redes sociais eram voltados a momentos pessoais e idas ao culto.
Operação Mederi: Allyson Bezerra e Marcos Medeiros operariam o topo do esquema, segundo PF

Em janeiro, após a deflagração da Operação Mederi pela PF e pela CGU, Allyson Bezerra e Marcos Medeiros se tornaram investigados pela participação no suposto esquema de propinas e fraudes em licitações em contratos da Secretaria Municipal de Saúde da Prefeitura de Mossoró.
O esquema foi batizado de “Matemática de Mossoró” pela Polícia Federal, O termo se refere especificamente a um percentual de 15% de propina que seria cobrado da empresa Dismed para facilitar os pagamentos dos contratos de fornecimento de medicamentos firmados com a Prefeitura de Mossoró.
O modus operandi da propina foi revelado através de uma escuta ambiental instalada pela Polícia Federal no escritório da Dismed. Nas conversas gravadas, o empresário Oseas Monthalggan Fernandes Costa explica a um interlocutor como funcionava a “Matemática de Mossoró”.
“Olhe, Mossoró, eu estudando aqui. Como é a matemática de Mossoró. Tem uma ordem de compra de quatrocentos mil. Desses quatrocentos, ele entrega duzentos. Tudo a preço de custo! Dos duzentos ele vai e pega trinta por cento, sessenta R$ 60.000,00, então aqui ele comeu R$ 60.000,00! Fica R$ 140.000,00) pra ele entregar cem por cento. Dos cento e quarenta ele R$ 70.000,00. Setenta com sessenta é meu, R$ 130.000,00. Só que dos cento e trinta nós temos que pagar cem mil R$ 100.000,00 a Allyson e a Fátima, que é dez por cento de Fátima e quinze por cento de Allyson. Só ficou trinta mil R$ 30.000,00 pra a empresa!”, disse Oseas Monthalggan, em maio de 2025, sobre a ‘matemática’ do município.
A Prefeitura de Mossoró, segundo a transcrição da conversa que consta na decisão judicial que autorizou a operação, havia emitido uma ordem de compra de medicamentos no valor de R$ 400 mil. No entanto, a empresa entregou apenas o equivalente a R$ 200 mil. A diferença seria distribuída entre os participantes do esquema.
Allyson Bezerra e Marcos Medeiros, segundo as investigações, operavam “o topo do esquema”, além de receber “propina em porcentuais definidos sobre os contratos” com a Dismed.
“Em relação a Allyson e Marcos, há referências nominais específicas nas conversas indicando recebimento de valores”, diz a Polícia Federal.
“No nível intermediário, estariam os gestores administrativos, que garantiriam as condições institucionais para funcionamento do sistema. No nível operacional, estariam os fiscais e gestores de contrato que viabilizariam concretamente as entregas parciais mediante atestados. Externamente à administração pública, estariam os empresários, que operacionalizariam o esquema no âmbito privado”, aponta a investigação.
Fonte: saibamais.jor.br