A cerimônia de entrega do Grammy 2026, maior prêmio da indústria musical, consagrou os brasileiros Caetano Veloso e Maria Bethânia, Kendrick Lamar e também foi marcado por discursos de artistas contra o ICE (polícia de imigração norte-americana) e falas fortes contra o presidente Donald Trump.
Para o Brasil, a noite foi histórica, com a vitória de Caetano Veloso e Maria Bethânia como Melhor Álbum de Música Global pelo disco Caetano e Bethânia Ao Vivo, com o show da turnê conjunta que fizeram em 2024/2025 e que lotou estádios no país.
Caetano já recebeu a premiação no passado, mas Bethânia se tornou a primeira cantora brasileira a ganhar um Grammy.
Caetano apareceu em um vídeo nas redes sociais momentos após ter sido premiado. Ele estava deitado na cama com seu neto, assistindo a um desenho animado. O cantor comentou:
“Ganhamos o Grammy? Ô meu Deus do céu!.”
Em seguida, ligou para Bethânia e disse “oi, Betha! Ganhamos o Grammy”. Ela respondeu: “Mentira!”.
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Trump e ICE
A cerimônia de entrega, transmitida para o mundo todo na noite deste domingo (1), foi também marcada por protestos de artistas contra Donald Trump e a atuação do ICE, polícia de imigração que vem “caçando” estrangeiros e que matou recentemente dois norte-americanos.
O apresentador da noite, o comediante Trevor Noah, fez várias críticas ao presidente dos EUA, que é mencionado muitas vezes nos arquivos Epstein, divulgados na última semana.
“Esse é um Grammy que todo artista quer quase tanto quanto Trump quer a Groenlândia. O que faz sentido, já que a ilha de Epstein não existe mais, ele precisa de uma outra para ficar passando tempo com Bill Clinton”, disse Noah.
Trump reagiu à fala do apresentador em postagem no Truth Social, sua rede rede social. Ele escreveu:
“O Grammy Awards é péssimo, ninguém assiste! O apresentador, Trevor Noah, quem quer que seja, é tão ruim quanto Jimmy Kimmel. Noah disse INCORRETAMENTE a meu respeito que Donald Trump e Bill Clinton foram à ilha de Epstein. ERRADO!!! Não posso falar por Bill, mas eu nunca estive na ilha de Epstein, não cheguei nem perto disso. Até esta noite, eu nunca fui acusado de ter estado lá. Parece que vou mandar meus advogados processar esse idiota patético e sem talento, e vou processá-lo por muito dinheiro. Prepare-se, Noah! Vou me divertir muito com você. Presidente DJT.”
Mas Noah não foi o único a citar Trump negativamente. Bad Bunny, cantor porto-riquenho e um dos mais populares da atualidade, subiu ao palco para receber seu prêmio de Melhor Álbum de Música Urbana por Debí Tirar Más Fotos, e falou sobre a perseguição a imigrantes promovida pelo governo norte-americano:
“Não somos selvagens, não somos animais, não somos alienígenas. Somos seres humanos e americanos. O ódio fortalece o ódio. Só o amor é mais forte que o ódio. Então, por favor, precisamos ser diferentes”.
Bunny dedicou sua vitória “a todas as pessoas que tiveram que deixar suas casas para seguir seus sonhos. A todos os latinos do mundo, a todos os artistas que vieram antes e que mereciam este prêmio. Muito obrigado”. O cantor foi muito aplaudido.
A cantora Billie Eilish, que ganhou o Grammy de Melhor Canção do Ano Por “Wildflower”, foi ao microfone e comentou sobre a atuação do ICE:
“Ninguém é ilegal em terras roubadas. É muito difícil saber o que dizer e o que fazer agora, e sinto que aqui neste lugar precisamos continuar lutando, falando e protestando. Nossas vozes importam e as pessoas importam. E f**-se ICE é tudo o que quero dizer. Desculpe”.
O maior vencedor da noite foi o músico Kendrick Lamar, que levou cinco prêmios: Melhor Álbum de Rap, Melhor Performance de Rap Melódico, Melhor Música de Rap e Gravação do Ano.
O Corpo de Bombeiros registrou 65 chamadas para quedas de árvores, 6 chamadas para desabamentos e 13 chamadas para enchentes, no domingo (1º), na capital e na Região Metropolitana de São Paulo devido às fortes chuvas na região. Não houve registro de vítimas nas ocorrências.
A Defesa Civil do Estado de São Paulo registrou desabamento de um prédio desocupado de quatro andares no município de Guarulhos. A Defesa Civil municipal fez vistoria técnica, isolamento da área e interditou o local. Não houve danos a edificações vizinhas.
Várias regiões do estado tiveram ocorrências registradas pela Defesa Civil entre a tarde de domingo (1º) e a segunda-feira (2), em decorrência das chuvas. Foram destelhamentos, alagamentos e queda de muros e de árvores sem registro de vítimas. As cidades afetadas foram Peruíbe, Cotia, Itapecerica da Serra, Cabreúva, Jahu, Santa Isabel, Taubaté e Caçapava.
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Alerta de chuva forte
A Defesa Civil do Estado de São Paulo divulgou alerta para risco de chuvas persistentes, acompanhadas por raios, rajadas de vento e possibilidade de queda de granizo, entre segunda-feira (2) e terça-feira (3), em diversas regiões do estado.
O órgão recomenda que a população evite áreas sujeitas a alagamentos, enxurradas e vias inundadas, além de buscar abrigo em local seguro durante temporais, mantendo distância de árvores, postes e estruturas metálicas.
Em áreas de encosta, é importante observar sinais de deslizamento, como rachaduras no solo, nas paredes dos imóveis e inclinação de árvores ou postes. Em caso de emergência, as pessoas devem acionar a Defesa Civil pelo telefone 199 ou o Corpo de Bombeiros pelo 193.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva celebrou a vitória de Caetano Veloso e Maria Bethânia no Grammy Awards 2026, neste domingo (1º). “Orgulho de ver dois gigantes da nossa arte sendo celebrados assim”, escreveu Lula em publicação nas redes sociais.
Os irmãos venceram na categoria Melhor Álbum de Música Global com o disco Caetano e Bethânia Ao Vivo. A produção é um registro da turnê dos dois artistas.
“A música de vocês atravessa gerações, toca a alma do nosso povo e mostra ao mundo a grandeza da cultura brasileira”, acrescentou Lula.
O álbum, gravado ao longo da turnê que lotou estádios em diversas cidades brasileiras, reúne sucessos das trajetórias individuais dos dois artistas, como Reconvexo e Vaca Profana, além de uma versão inédita de Fé, composição de Iza com nova leitura nas vozes dos irmãos.
Segundo Maria Bethânia, o primeiro Grammy representa a consagração internacional após décadas de carreira.
Para Caetano, essa foi a sexta indicação ao Grammy e a terceira premiação. O artista baiano já venceu duas vezes: com Livro (1998) e João Voz e Violão (2000), álbum de João Gilberto que produziu.
O Grammy Awards é a principal premiação da indústria musical mundial.
O desfile das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro começa no Domingo de Carnaval, 15 de fevereiro, com a Acadêmicos de Niterói. A escola estreante na elite das agremiações trará um samba-enredo narrado em primeira pessoa por uma retirante nordestina: Dona Lindu, mãe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que será homenageado pelo enredo Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil.
Na letra do samba, Eurídice Ferreira de Mello, mãe de oito filhos, narra a viagem de “13 noites e 13 dias” com a família, em um caminhão “pau-de-arara”, entre Garanhuns, no interior de Pernambuco, e a periferia de Guarujá, no litoral paulista.
>> Enredos das escolas de samba contam a história não oficial
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Em entrevista à Agência Brasil, a cantora e compositora Teresa Cristina, uma das autoras do samba-enredo, conta que reunir a família era a motivação daquela travessia.
“Ela fez isso por amor, né? Ela veio atrás do pai [das crianças]”, explica. “O samba é sobre o Brasil. É sobre um Silva. É sobre sobreviventes”,
Teresa Cristina assina o samba em pareceria com André Diniz, Paulo César Feital, Fred Camacho, Junior Fionda, Arlindinho Cruz, Lequinho, Thiago Oliveira e Tem-Tem Jr.
Dona Lindu faleceu em 1980, aos 64 anos. Ao escutar o samba e rever memórias, Lula se comoveu, revela Teresa Cristina.
“Quando a gente falou para ele: ‘olha, o samba é uma história sendo contada pela sua mãe’, o olho dele na hora deu aquela marejada”.
“[Depois], ele ouviu o samba e chorou copiosamente. Começou a falar da mãe, falou do pai. Ficou bem emocionado, sabe? Com o rosto todo vermelho. Senti que ele ficou feliz de ter a história dele imortalizada em um samba-enredo.”
Gravação do programa Samba na Gamboa, da TV Brasil, apresentado pela sambista Teresa Cristina, com o cantor Xande de Pilares. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Do agreste à presidência
O mulungu (mulungu-da-caatinga), citado no título do samba, é uma árvore de copa larga e flores avermelhadas, de altura de 12 a 18 metros, com tronco de até 80 centímetros de diâmetro, onde as crianças do agreste costumavam brincar, como faziam Lula e os seus irmãos.
A jornada do menino do sertão pernambucano que virou operário no ABC paulista, líder sindical, político e presidente da República merece reconhecimento, defende o presidente da Acadêmicos de Niterói, Wallace Palhares.
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante encontro com integrantes da escola de samba Acadêmicos de Niterói. Foto: Ricardo Stuckert/PR
“Eu costumo falar que, independentemente de as pessoas gostarem ou não [dele], pela política, é preciso respeitar a história de uma pessoa que saiu lá do interior de Pernambuco, foi para São Paulo e hoje ocupa a maior cadeira desse país”, disse em entrevista ao professor e historiador Leandro Silveira, que apresenta o quadro No Ritmo da Folia, no programa Tarde Nacional, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro (FM 87,1 MHz ou AM 1130 kHz).
Para além da trajetória do político, o samba-enredo faz referência à melhoria das condições de vida da população ao longo dos três mandatos de Lula, como no combate à fome e na ampliação de acesso à educação.
A letra do samba ainda relembra o ex-deputado Rubens Paiva, a estilista Zuzu Angel, o jornalista Wladimir Herzog – mortos pela ditadura militar (1964-1985) ─ e o sociólogo Betinho (Hebert de Sousa) e seu irmão, o cartunista Henfil.
Outra referência do samba não é citada explicitamente. Parte do refrão tem os versos “Olê, olê, olê, olá/Vai passar nessa avenida mais um samba popular”, uma referência à letra do samba Vai passar, de Chico Buarque.
“Fui eu que coloquei na letra. Eu queria que as pessoas lembrassem tanto do samba Vai passar, como se lembrassem do Chico Buarque”, admite Teresa Cristina
Para a cantora, “o Chico Buarque sempre esteve ao lado do Brasil. A gente sempre sabe que pode contar com ele, um artista que nunca se dobrou à bruta autoridade, à ditadura, a generais. O Chico é um homem muito corajoso”.
Enredo recorrente
Essa não é a primeira vez que Lula vira enredo de escola de samba. Em 2012, a Gaviões da Fiel, agremiação de São Paulo, homenageou o presidente com o enredo Verás que um filho teu não foge à luta – Lula, o retrato de uma nação. Em 2023, a Cidade Jardim, escola de samba de Belo Horizonte, desfilou com o enredo Sem medo de ser feliz.
Outros presidentes da República já foram homenageados. Getúlio Vargas já foi enredo da Mangueira (1956) em Exaltação a Getúlio Vargas ou o grande Presidente; do Salgueiro (1985), em Anos trinta, vento sul – Vargas; e da Portela (2000), em Trabalhadores do Brasil ─ a época de Getúlio. Juscelino Kubistchek, por sua vez, foi enredo da Mangueira (1981) em De Nonô a JK.
Lei Rouanet
O desfile da Acadêmicos de Niterói não será financiado pela Lei Rouanet de incentivo à cultura, diferentemente do que chegou a circular nas redes sociais. A escola chegou a receber em dezembro autorização da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura e da Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura para captar até R$ 5,1 milhões para a apresentação. Em razão do prazo exíguo, a agremiação desistiu de tentar captar recursos.
A Lei Rouanet opera sem qualquer transferência de recursos do governo federal para projetos culturais. Produtores que têm suas propostas autorizadas, após análise técnica dos dois órgãos do Ministério da Cultura, podem tentar captar o valor autorizado junto a empresas e pessoas contribuintes do Imposto de Renda. Os eventuais patrocinadores podem abater o valor do financiamento do imposto devido – até 4% se for empresa e até 6% se for pessoa física.
No dia 19 de janeiro, a Embratur e a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) assinaram um termo de cooperação técnica, com a interveniência do Ministério da Cultura (MinC), que permite o repasse de R$ 1 milhão para cada agremiação do grupo especial de escolas de samba do Rio – um total de R$ 12 milhões a serem investidos neste carnaval.
Conheça os enredos e a ordem dos desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro
1º dia – domingo (15/2)
Acadêmicos de Niterói – Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil;
Imperatriz Leopoldinense – Camaleônico;
Portela – O Mistério do Príncipe do Bará;
Estação Primeira de Mangueira – Mestre Sacacá do Encanto Tucuju – o Guardião da Amazônia Negra
2º dia – segunda-feira (16/2)
Mocidade Independente de Padre Miguel – Rita Lee, a Padroeira da Liberdade;
Beija‑Flor de Nilópolis – Bembé do Mercado;
Acadêmicos do Viradouro – Pra Cima, Ciça;
Unidos da Tijuca – Carolina Maria de Jesus.
3º dia – terça-feira (17/2)
Paraíso do Tuiuti – Lonã Ifá Lukumi;
Unidos de Vila Isabel – Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África;
Acadêmicos do Grande Rio – A Nação do Mangue;
Acadêmicos do Salgueiro – A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau.
Um prédio de quatro andares desabou na madrugada desta segunda-feira (2) na Avenida Presidente Castelo Branco, nº 298, no bairro do Maracanã, zona norte do Rio de Janeiro, e matou uma mulher, identificada como Michele Martins, de 40 anos.
O Corpo de Bombeiros Militar foi acionado. Mãe e filha de sete anos ficaram sob os escombros. A menina foi resgatada com vida perto das 6h30 e levada para o Hospital Souza Aguiar. A mãe foi retirada morta dos escombros.
Além delas, oito pessoas foram resgatadas com vida pela corporação, sendo uma delas encaminhada ao Hospital Municipal Salgado Filho.
Mais de 50 militares e sete unidades operacionais atuam no local, incluindo especialistas do Grupo de Operações Especiais e alunos do Curso de Operações de Salvamento em Desastres com apoio de 12 viaturas.
O novo salário mínimo de R$ 1.621 começa a ser pago nesta segunda-feira (2) aos trabalhadores. O valor pode ser conferido no contracheque referente a janeiro.
O reajuste de 6,79%, equivalente a R$ 103, foi oficializado pelo Decreto 12.797/2025. O aumento segue a política de valorização do salário mínimo, que combina inflação (INPC) e crescimento do Produto In terno Bruto (PIB), respeitando os limites do arcabouço fiscal, que restringe o reajuste a 2,5% acima da inflação do ano anterior.
Os aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) começaram a receber o novo salário mínimo no último dia 26. O pagamento segue até sexta-feira (6), conforme o número final do cartão, sem considerar o dígito verificador.
Quanto vale o mínimo em 2026
• Mensal: R$ 1.621;
• Diário: R$ 54,04;
• Hora: R$ 7,37.
Como foi calculado
• Inflação pelo INPC: 4,18%;
• Somada ao crescimento real do PIB: 3,4%;
• Adicional de 3,4% limitado a 2,5% pelo arcabouço fiscal;
• Reajuste total: 6,79%.
Impactos
Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o novo salário mínimo impacta 61,9 milhões de brasileiros. O aumento deve injetar R$ 81,7 bilhões na economia em 2026.
O reajuste tem efeitos amplos tanto sobre a renda das famílias quanto sobre as contas públicas. O governo estima impacto combinado de R$ 110 bilhões na economia, ao considerar o reajuste e a isenção do IR. No entanto, haverá custo adicional para a Previdência Social estimado em R$ 39,1 bilhões.
Além de afetar diretamente trabalhadores que recebem o piso nacional, o novo valor serve como referência para uma série de benefícios previdenciários, assistenciais e trabalhistas, como aposentadorias do INSS, pensões, seguro-desemprego e salário-família.
Confira como ficam os benefícios e as contribuições atreladas ao salário-mínimo:
INSS
• Benefícios no piso (1 salário mínimo): reajuste integral de 6,79%, para R$ 1.621
• Acima do piso: reajuste de 3,90% (INPC de 2025)
• Teto do INSS: R$ 8.475,55
Contribuições ao INSS (CLT)
• Até R$ 1.621: 7,5%
• De R$ 1.621,01 a R$ 2.902,84: 9%
• De R$ 2.902,85 a R$ 4.354,27: 12%
• De R$ 4.354,28 a R$ 8.475,55: 14%
Autônomos, facultativos e MEI
• Plano normal (20%): R$ 324,20
• Plano simplificado (11%): R$ 178,31
• Baixa renda (5%): R$ 81,05
• MEI (5%): R$ 81,05
Seguro-desemprego
• Reajustado pelo INPC (3,90%), com vigência desde 11 de janeiro
• Parcela mínima: R$ 1.621
• Parcela máxima: R$ 2.518,65
• Valor varia conforme salário médio dos últimos meses.
Na Região Seridó do Rio Grande do Norte, além da cultura e culinária, uma coisa chamou a atenção dos cientistas, o alto índice de câncer colorretal, o segundo que mais mata no Brasil. Os dados foram coletados por pesquisadores que, ainda em 2019, realizaram um estudo que foi publicado em revistas internacionais. Ao todo, 12 famílias e um total de 150 participantes foram monitorados entre os meses de julho e novembro de 2019. “O Seridó é um exemplo claro de como história, geografia e genética podem moldar o perfil de saúde de uma população e isso é a ciência da epidemiologia. No Seridó, no século XVII e XVIII, a maioria das famílias que tomavam de conta daquela região era de origem europeia, sobretudo portugueses ligados à pecuária extensiva e acabaram fazendo posse de muita terra por lá. Esses grupos ficaram nesse território de difícil acesso, com seca recorrente, de difícil mobilidade – as pessoas nasciam e viviam na mesma região – e acabavam formando pequenos núcleos de famílias extremamente interligadas e que existem até hoje”, explica o médico Edilmar Moura, diretor de Ensino, Pesquisa e Inovação da Liga Contra o Câncer.
Com o povoamento em fase inicial numa região de difícil acesso, tornou-se comum a relação entre parentes de uma mesma família, o que favoreceu a mutação de um gene, o MUTYH, que é conhecido no mundo todo por facilitar o desenvolvimento do câncer colorretal. “A frequência com que ele aparecia com mutações foi a maior já descrita até 2019 no mundo. Nesse contexto, a consanguinidade, que é a possibilidade de casar e ter filhos com familiares próximos, de primeira, segunda e terceira geração, se tornou muito frequente. Não era, necessariamente, um costume deliberado das pessoas, mas resultado de toda essa questão geográfica, escassez de parceiro, muita preservação de patrimônio familiar e questão de alianças familiares para manter tudo isso”, esclarece Moura.
“Em poucas gerações, duas ou três, boa parte da população acabou tendo algum tipo de ancestralidade comum. Do ponto de vista genético, toda vez que isso acontece, ocorre algum risco de ter o que se chama de ‘efeito fundador’, que é acontecer alguma alteração genética capaz de facilitar o aparecimento de alguma doença. Esse efeito é passado de geração em geração. Isso nós estudamos na época porque detectamos a frequência de um tipo específico de câncer, que é o de intestino, de cólon e reto, que era maior lá do que na população em geral fora da região seridoense”, acrescenta o médico.
Para estudar os casos, foi realizada uma parceria em 2019 entre a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a Liga Contra o Câncer e as prefeituras de Caicó e Jardim do Seridó. O trabalho foi coordenado pela geneticista Tirzah Braz Petta Lajus. Foi realizada a coleta de material da mucosa e sanguíneo de pessoas com histórico de familiares com câncer colorretal.
“Associado a isso, juntamos a história da consanguinidade, o fator genético e a prevalência aumentada, sem outras justificativas, desse tipo de câncer. Em 2019, última vez que aprofundamos isso, 12 famílias da região foram confirmadas como portadoras de alterações genéticas no gene MUTYH. As alterações genéticas resultam em uma doença conhecida, a Polipose Adenomatosa, identificada no exame de colonoscopia. Quando fazemos colonoscopia, muitas vezes, há o achado de um pólipo, que é como se fosse um dedinho da mucosa saindo. Esses pólipos são sempre biopsiados, a maioria deles são benignos e não trazem nenhum risco de câncer e existe um risco em torno de 20% dos pólipos desenvolverem câncer”, esclarece o médico da Liga Contra o Câncer.
O problema maior ocorre quando há o surgimento da polipose, que é a presença de mais de 100 pólipos numa mesma pessoa. “Isso por si só já aumenta o risco para cerca de 80% de desenvolver câncer ao longo da vida. Esse paciente precisa ficar em acompanhamento rigoroso, nós colocamos essas famílias nesse monitoramento. Caso haja alguma alteração maior na biópsia, tem indicação de fazer colectomia total, que é a retirada de todo o intestino grosso e a pessoa fica com colostomia definitiva. Na época, envolvemos psicólogo, serviço social, nutrição. Imagine o susto de dar esse diagnóstico para uma família, que é ainda maior se o médico afirmar que o melhor tratamento é retirar todo o intestino e ficar com a colostomia o resto da vida”, revela Moura.
Ao todo, seis pessoas passaram por esse processo dentre as 12 famílias monitoradas pelo estudo. Até hoje, nenhuma delas desenvolveu câncer. “Foi um tratamento extremamente radical, de exceção. Já temos uns seis anos de acompanhamento e nenhuma dessas pessoas desenvolveu câncer. Na época, isso foi chamado de 1º Encontro de Pacientes com Polipose Colônico do Seridó. Tentamos explicar para a população que isso não é um diagnóstico de morte, não é uma definição estigmatizada de que aquela população ou aquela região teve algum tipo de azar, punição ou pecado, não é nada disso. Era uma oportunidade de ter uma informação útil para que as pessoas fizessem rastreamento de maneira indicada, para grupo de alto risco. Isso levaria, caso o câncer viesse a acontecer, a um diagnóstico precoce e cura. Era, na verdade, uma dádiva saber dessa informação para que se pudesse fazer ações de prevenção e de rastreamento”, aponta o médico, que planeja inscrever o projeto em novos editais para concorrer a financiamentos e ampliar o número de famílias monitoradas.
“Tudo isso é importante para dizer que, primeiro, qualquer pessoa com mais de 50 anos precisa fazer sua colonoscopia de base. Segundo, se eu tenho familiar de primeira ou segunda geração com câncer de cólon ou reto, eu preciso, no mínimo, aos 40 anos, iniciar meu rastreamento. Além disso, devo fazer algum tipo de aconselhamento genético, a gente chama isso no sistema público de saúde de vigilância oncológica regionalizada”, detalha o pesquisador.
Uma das dificuldades é que são poucos os locais com estrutura para isso. Mas, no Seridó, há duas estruturas da Liga Contra o Câncer, uma em Caicó e outra em Currais Novos. “Apesar do SUS não pagar testes genéticos, ele dá ao paciente o direito à colonoscopia e podemos, junto a projetos de pesquisa, viabilizar testes genéticos para as populações de alto risco. São testes caros e que exigem uma equipe multidisciplinar grande. Não podemos fazer orientação genética sem apoio de um psicólogo para entender todas as outras questões e não trazer maiores problemas para essa família, essa pessoa”, aponta o médico.
Os testes genéticos de rastreamento também não são oferecidos pelos planos de saúde. Os preços variam de R$ 2 mil a R$ 15 mil. “Temos o exame de rastreamento que é factível, de baixo risco para o paciente e é capaz de mudar a mortalidade da doença. É como a mamografia, elas estão no mesmo patamar, são capazes de mudar a mortalidade da doença”, alerta o médico.
Os irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia venceram o neste domingo (01) Grammy Awards 2026 na categoria Melhor Álbum de Música Global com o disco Caetano e Bethânia Ao Vivo.
O prêmio foi recebido em nome deles pela apresentadora Dee Dee Bridgewater, durante evento em Los Angeles, nos Estados Unidos.
A produção premiada é um registro da turnê dos dois artistas. A conquista coroou o momento artístico marcado por reencontros afetivos com o público e pela reafirmação da força da canção brasileira no cenário internacional.
O álbum, gravado ao longo da turnê que atravessou diversas cidades brasileiras com casas lotadas, reúne sucessos das trajetórias individuais dos dois artistas, como Reconvexo e Vaca Profana, além de uma versão inédita de Fé, composição de Iza com nova leitura nas vozes dos irmãos.
Ao comemorar a vitória nas redes sociais, Caetano e Bethânia escreveram:
“Que alegria em vencermos o @grammys de ‘Melhor Álbum Internacional’ juntos! Em especial, gostaríamos de agradecer aos músicos que ao nosso lado, fizeram esse disco acontecer. O nosso muito obrigado a todos que ouviram o disco, foram aos shows e compartilharam desta história conosco!”
Para Maria Bethânia, o primeiro Grammy representa a consagração internacional após décadas de carreira.
Para Caetano, essa foi a sexta indicação ao Grammy e a terceira premiação. O artista baiano já venceu duas vezes: com Livro (1998) e João Voz e Violão (2000), álbum de João Gilberto que produziu.
“Embora a escravidão tenha sido abolida do território nacional, essa prática ainda é muito presente”. A afirmação é da procuradora Andrea Gondim, coordenadora da pasta do trabalho escravo do Ministério Público do Trabalho no Rio Grande do Norte (MPT-RN). Ela se refere aos casos de pessoas resgatadas em situação análoga ao trabalho escravo, que no ano passado teve apenas um registro no estado, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Na última terça-feira (28) foi celebrado o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, data em que o MTE divulgou os dados referentes ao ano de 2025. Na verdade, a pasta registrou dois casos no Rio Grande do Norte, mas a chefe local do núcleo de fiscalização do Ministério do Trabalho no RN, Rossana Nunes Chaves, explica que um dos casos de resgate computado para o RN refere-se, na verdade, a uma fiscalização de trabalho doméstico realizada pelo Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM) em João Pessoa (PB). No entanto, como o endereço da empregadora registrado na Receita Federal é em Natal, houve um equívoco na extração dos dados e, embora o resgate tenha ocorrido fisicamente na Paraíba, ele apareceu nas estatísticas do RN devido a esse detalhe cadastral.
O único caso real no Rio Grande do Norte, portanto, ocorreu na zona rural de Mossoró, em julho de 2025.
“Nessa inspeção, os auditores identificaram um trabalhador rural mantido sem registro, sem pagamento regular de salário, morando em condições precárias, trabalhando sem fazer uso de equipamentos de proteção, além de uma criança laborando em atividades perigosas, configurando trabalho infantil em uma de suas piores formas”, conta Rossana Chaves.
Os números mostram que nos últimos cinco anos os casos costumam flutuar no Rio Grande do Norte. O RN resgatou nove pessoas desse tipo de crime em 2024, enquanto em 2023 não houve nenhum registro. Já em 2022 foram 32 resgates, e 11 em 2021. Os dados foram obtidos por meio do SmartLab, ferramenta do Observatório da Erradicação do Trabalho Escravo e do Tráfico de Pessoas, que se baseou nos registros do Painel de Informações e Estatísticas da Inspeção do Trabalho no Brasil (Radar SIT). A ferramenta original, o Radar STI, está temporariamente fora do ar.
Pessoas resgatadas em situação de trabalho análogo à escravidão no RN nos últimos cinco anos
Ano
Resgates
2025
1*
2024
9
2023
0
2022
32
2021
11
Fonte: SmartLab, com base no Radar SIT
* O ano de 2025 ainda não está presente na ferramenta SmartLab; dado oficial do MTE é de dois registros, mas auditora do Ministério aponta equívoco na extração dos dados, com um caso no RN
Em todo o Brasil, no ano passado, segundo o MTE, foram resgatados 2.772 trabalhadores e trabalhadoras em 1.594 ações fiscais de combate ao trabalho análogo à escravidão, com a garantia do pagamento de mais de R$ 9 milhões em verbas rescisórias às vítimas.
Além dos resgates, mais de 48 mil trabalhadores e trabalhadoras tiveram direitos trabalhistas assegurados por meio das fiscalizações. Mesmo nos casos em que não foi caracterizada a condição de trabalho análogo à escravidão, outros direitos foram garantidos pela atuação dos auditores-fiscais do Trabalho em campo.
De acordo com a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), os setores com maior número de trabalhadores e trabalhadoras resgatados foram obras de alvenaria (601), administração pública em geral (304), construção de edifícios (186), cultivo de café (184) e extração e britamento de pedras e outros materiais para construção, com beneficiamento associado (126).
Os dados revelam uma mudança no perfil dos resgates. Em 2025, 68% das pessoas identificadas em condição análoga à escravidão no Brasil foram resgatadas no meio urbano, superando o número de ocorrências no meio rural, cenário distinto do observado em anos anteriores.
“Embora fosse só uma única pessoa, isso já era muito grave”, alerta procuradora
A procuradora Andrea Gondim, que possui um mestrado pela Universidade de São Paulo (USP) voltado à pesquisa sobre trabalho escravo, diz que os dados ajudam a pautar uma atuação estatal como um projeto de nação brasileira de combate ao trabalho escravo.
“Porque ainda que fosse uma única pessoa encontrada no nosso território vítima da redução do trabalho em condição análoga à de escravo, ainda assim seria necessário uma pronta atuação estatal”, diz ela, que complementa:“embora fosse só uma única pessoa, isso já era muito grave.”
Os desafios enfrentados pelos auditores-fiscais do Trabalho na hora de ir à campo são vários, conta a procuradora do MPT-RN.
“O desafio tanto na hora da operação, porque muitas vezes é uma situação realmente de risco para o trabalhador, e também o desafio do pós-resgate, de como alocar essas pessoas, como contribuir para que essas pessoas realmente consigam romper essa barreira do trabalho escravo, para conseguir romper esse ciclo da exploração”, explica.
Já o procurador Luciano Aragão Santos, coordenador nacional de Erradicação do Trabalho Escravo e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (Conaete) do MPT, diz que o maior desafio enfrentado atualmente é a interferência política nas instituições responsáveis pela fiscalização e responsabilização.
“Temos visto tentativas de enfraquecer a Lista Suja de empregadores, o uso de avocatórias ministeriais para proteger empresas que deveriam ser incluídas no cadastro e pressões variadas sobre a autonomia dos órgãos de fiscalização. Quando o sistema de fiscalização é fragilizado, o incentivo para cumprir a lei diminui.”
O subfinanciamento da fiscalização, para ele, constitui outro obstáculo estrutural.
“O número de auditores-fiscais do Trabalho, mesmo com a recente nomeação de novos auditores, ainda é insuficiente para a extensão territorial do Brasil e para a complexidade das cadeias produtivas que precisam ser monitoradas. Sem concursos públicos regulares e sem estrutura adequada, a capacidade de fiscalizar se reduz, e áreas inteiras do país permanecem descobertas”, alerta.
Desigualdade alimentada pela cor
O balanço das ações de combate ao trabalho escravo contemporâneo realizadas em 2025 pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) revela que essa prática em atividades econômicas segue profundamente associada às desigualdades raciais e sociais no Brasil. Do total de trabalhadores resgatados no período, 86% são homens e 83% se autodeclaram negros (pretos ou pardos), evidenciando que a população negra é atingida de forma desproporcional, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social.
A maior concentração das pessoas resgatadas no país durante o ano passado está na faixa etária entre 30 e 39 anos, e 65% residem na região Nordeste, com destaque para o Maranhão, que concentra parcela significativa desse contingente. Em relação à escolaridade, 68% possuem baixa escolaridade, 24% concluíram o ensino médio e 8% são analfabetos. Os dados reforçam, segundo o MTE, o vínculo direto entre trabalho escravo, pobreza estrutural e exclusão educacional.
O que configura um trabalho análogo à escravidão?
A auditora e chefe local do núcleo de fiscalização do Ministério do Trabalho no RN, Rossana Chaves,
De acordo com o Artigo 149 do Código Penal, a escravidão moderna não exige a privação da liberdade de ir e vir, caracterizando-se pela violação da dignidade humana. Ela se configura por quatro elementos, que podem aparecer isoladamente ou em conjunto:
* Trabalho forçado: quando há vício de consentimento ou ameaça para permanência no serviço.
* Jornada exaustiva: labor intenso que impede a recuperação física do trabalhador e fere o direito ao descanso e convívio social.
* Condições degradantes: situações aviltantes que retiram o “status” de ser humano do trabalhador, como a falta de alojamento decente, higiene, água potável ou segurança.
* Servidão por dívida: uso de mecanismos de endividamento (como cobrança ilegal por transporte, ferramentas e comida — o “truck system”) para prender o trabalhador ao local.
O que acontece com empregadores e trabalhadores resgatados?
Quando um empregador é flagrado submetendo pessoas a situação análoga à de escravo, são lavrados autos de infração com obrigação do pagamento das verbas rescisórias e salariais.
Ele também é incluído na “Lista Suja”, após decisão administrativa definitiva, o que gera restrições de crédito e danos à reputação da empresa. Há ainda possibilidade de responder criminalmente e ser alvo de ações civis públicas para reparação de danos morais individuais e coletivos. Já o trabalhador ou trabalhadora resgatado tem direito legal ao recebimento do Seguro-Desemprego do Trabalhador Resgatado (SDTR), pago em três parcelas no valor de um salário mínimo. Esse benefício contribui para a reconstrução da vida das vítimas após a violação de direitos. Além disso, todos são encaminhados à Assistência Social e, posteriormente, às diversas políticas públicas, de acordo com seus perfis específicos.
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Em ano de Copa do Mundo, a imagem de modernização que Natal tentou vender ao país volta a ser confrontada por uma obra inacabada que se arrasta há quase 16 anos. O Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) Kátia Garcia, primeira obra iniciada no contexto da Copa de 2014 na capital potiguar, segue sem sede própria e funciona em uma casa alugada, pequena, quente e sem acessibilidade, no bairro de Candelária, zona Sul de Natal. No terreno onde deveria estar a escola, restam escombros, um muro e promessas que atravessam diferentes gestões.
A situação se arrasta desde 2010, quando a sede original do CMEI foi demolida para as obras do entorno da Arena das Dunas. Desde então, a unidade funciona em espaços provisórios, enquanto a sede definitiva, prevista para o terreno da Escola Estadual Walfredo Gurgel, nunca saiu do papel. O abandono da obra já havia sido denunciado pelo Saiba Mais em 2018, em uma série de reportagens que expôs o avanço mínimo da construção. Passados quase oito anos desde aquelas publicações, a escola permanece sem sede própria, reforçando o caráter de legado inacabado da Copa em Natal.
Precariedade
Segundo a gestora pedagógica, Jucilene de Souza Leão, a escola atende atualmente cerca de 80 crianças, 40 por turno, distribuídas em apenas quatro salas de aula. Para ela, a precariedade do espaço físico impacta diretamente a procura por vagas. “Esse ano tivemos pouca procura de matrícula. A gente assimila isso ao espaço que a gente não tem. Quem chega aqui e olha diz: ‘não vou botar meu filho aqui’”, afirma. Ela lembra que, em anos anteriores, a escola chegou a manter lista de espera durante todo o período letivo. “Com a sede própria, aumentaria bastante a capacidade de receber crianças.”
Uma das principais limitações do cotidiano escolar é a falta de espaço adequado para atividades lúdicas. “A gente não tem um local apropriado para as crianças brincarem. A área disponível é a da frente, que pega sol direto. Já pedimos cobertura, a engenharia veio, houve promessa, mas como é casa alugada, nada avança”, relata Jucilene. A restrição também inviabiliza eventos coletivos com as famílias. “A gente não consegue reunir os dois turnos. No ano passado, dois eventos foram cancelados.”
A precariedade atinge até a rotina da alimentação. Embora exista um refeitório, o espaço não comporta a dinâmica da escola. “A gente nem utiliza mais o refeitório. Preferimos servir as refeições nas salas, porque levar uma turma por vez faria a gente perder mais de uma hora só nesse momento”, explica. A adaptação foi necessária para preservar o tempo pedagógico, já que as crianças realizam duas refeições diárias na unidade.
Outro reflexo direto da falta de estrutura é a inexistência de uma biblioteca ou espaço de leitura. Apesar disso, o CMEI possui um acervo amplo e diversificado de livros infantis, que não pode ser exposto adequadamente por falta de espaço físico. Os livros ficam guardados em armários e circulam entre as salas por meio de um sistema de rodízio. Os professores apresentam os títulos às crianças e desenvolvem atividades pedagógicas e de mediação de leitura, garantindo o acesso aos livros mesmo sem um ambiente apropriado.
A ausência de acessibilidade é outro problema estrutural grave. O imóvel possui degraus, não tem rampas e as salas são pequenas. “Quando o vereador Tércio Tinoco, que é cadeirante, esteve aqui, teve muita dificuldade de circular. Ele viu de perto o tamanho das salas”, conta a gestora. Além disso, o calor excessivo tem reflexos diretos na saúde. “As salas não são refrigeradas. O ventilador só joga vento quente. Adoece professor, adoecem as crianças, adoece todo mundo.”
Apesar das limitações físicas, o CMEI é reconhecido pela qualidade pedagógica, inclusive no atendimento a crianças neurotípicas. “A gente recebe muitas ligações de famílias que vêm por indicação de outras famílias, pelo nosso trabalho pedagógico”, afirma Jucilene. Ela destaca que a rede pública, muitas vezes, dispõe de profissionais mais preparados que a rede privada. “Nossa equipe é formada, tem especialistas, psicopedagogia, mestrado. A escola pública tem mais estrutura humana para lidar com essas crianças.” Ainda assim, a falta de espaço impede avanços. “A gente precisaria de uma sala de Atendimento Educacional Especializado (AEE), mas aqui não há condições físicas para isso.”
Jucilene acompanha a trajetória da escola desde a municipalização, logo após a demolição da sede original. “Estou aqui desde que o Kátia foi derrubado. Desde 2011 ou 2012 estamos funcionando nessa casa”, resume. Sobre a paralisação da obra, ela afirma que nunca houve uma explicação clara por parte do poder público. “A gente nunca teve uma resposta objetiva. O que se fala é que o dinheiro foi sequestrado, mas nunca explicaram exatamente o que aconteceu.”
A luta pela sede própria teve como uma de suas principais lideranças a ex-diretora Selma Maria do Nascimento, que faleceu durante a pandemia de Covid-19 sem ver o sonho concretizado. “Selma batalhou muito. Foi ela quem conseguiu a cessão do terreno da Escola Estadual Walfredo Gurgel para a construção da nossa sede. Ela buscou respostas quando a obra parou. Infelizmente, não viu isso se realizar”, lembra Jucilene. “Quando Selma faleceu, a obra já estava parada há muito tempo.”
O desgaste ao longo dos anos também impactou o engajamento da comunidade escolar. “As pessoas estão desacreditadas. Quando chamamos os pais para se mobilizar, muitos dizem que não podem, que estão trabalhando. São mais de 15 anos de espera”, afirma.
Apesar disso, a gestão escolar segue lutando por melhorias e pela conquista da sede. Ao visitar a Secretaria Municipal de Educação (SME) para resolver outro problema estrutural da casa — o sistema de esgotamento sanitário, que exige limpeza frequente da fossa —, as diretoras foram informadas sobre o retorno das obras em menos de um mês.
Jucilene afirma que “desde que Selma começou com essa luta, é a primeira vez que percebo que agora temos uma resposta mais concreta, a mais digna de confiança”.
O que diz a Prefeitura
Em nota, a Prefeitura do Natal, por meio da Secretaria Municipal de Educação (SME), informou que a retomada da obra do CMEI Kátia Fagundes Garcia, unidade do Tipo 2 padrão FNDE, foi inicialmente licitada em 2023, com processo homologado em agosto daquele ano. No entanto, a gestão municipal optou por não efetivar a contratação da empresa vencedora após a criação do Pacto Nacional pela Retomada de Obras da Educação Básica, instituído pelo Governo Federal.
Segundo a SME, a decisão permitiu a repactuação da obra, com atualização de valores e adequação técnica e financeira. O processo foi aprovado pelo FNDE, com Índice de Reprogramação de 85,40%. O valor final da obra é de R$ 2.881.271,35, sendo R$ 1.901.639,09 de recursos federais e R$ 979.632,26 de contrapartida do Município.
A Prefeitura informa ainda que o processo licitatório foi concluído, a ordem de serviço já foi encaminhada e o prazo de execução da obra é de oito meses, com previsão de conclusão até dezembro de 2026. Atualmente, o CMEI Kátia Garcia funciona em imóvel locado no bairro de Candelária, com capacidade para atendimento de 126 crianças, ao custo mensal de R$ 2.658,25. Com a nova sede, a ser construída no terreno da Escola Estadual Walfredo Gurgel, a capacidade deverá chegar a 188 crianças.
Enquanto a promessa de retomada não se materializa no canteiro de obras, o CMEI Kátia Garcia permanece como símbolo de um legado inacabado da Copa: uma escola que resiste pela dedicação de seus profissionais, pela criatividade pedagógica e pela memória de quem lutou por ela, mas que há quase 16 anos aguarda o direito básico a um espaço digno para educar crianças em Natal.
Linha do tempo
2010 – Sede original do CMEI é demolida para obras do entorno da Arena das Dunas
2011–2012 – Escola passa a funcionar em imóvel alugado, em caráter provisório
2014 – Copa do Mundo em Natal
Anos seguintes – Obra da sede própria é iniciada e paralisada, sem conclusão
Pandemia (2020–2021) – Falecimento da ex-diretora Selma, liderança na luta pela sede
2023 – Obra é licitada pela Prefeitura, mas contratação não é efetivada
2024–2025 – Município adere ao Pacto Nacional de Retomada de Obras
2026 (previsão) – Conclusão da nova sede, no terreno da Escola Estadual Walfredo Gurgel
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