da Ballroom à música, a construção de uma voz potiguar que ecoa
da Ballroom à música, a construção de uma voz potiguar que ecoa
A trajetória da artista potiguar não binária YO é marcada por deslocamentos contínuos que atravessam linguagem, território, identidade e formas de atuação artística. Longe de um percurso linear, sua caminhada se constrói a partir do acúmulo de experiências que convergem para o seu fazer artístico, conectando dança, militância, produção cultural, Ballroom e, mais recentemente, a música.
Esse caminho começa ainda na adolescência, dentro do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), onde YO cursava edificações. Embora a formação técnica não tivesse relação direta com o campo artístico, foi nesse ambiente que surgiram as primeiras oportunidades concretas de experimentar novas linguagens.
“A minha primeira veia artística foi a dança, desde sempre”, afirma, em entrevista à Agência Saiba Mais.
No instituto, a entrada em um projeto de danças urbanas, com aulas regulares e apresentações institucionais, abriu espaço para as primeiras experiências de palco. Após um processo seletivo interno, YO passou a integrar um grupo que se apresentava em eventos oficiais do IFRN, consolidando ali seus primeiros passos como performer.
Mas esse início não aconteceu isoladamente. Ele se cruza com um momento político intenso. Em 2016, ano de forte mobilização estudantil no país, YO se envolve diretamente com o movimento estudantil e é eleita para a diretoria de Arte e Cultura do grêmio do IFRN. A função amplia seu campo de atuação: além de performer, passa a organizar festas, eventos e ações culturais, descobrindo, na prática, os bastidores da produção.
“Foi ali que eu tive meu primeiro contato com produção cultural. A diretoria de Arte e Cultura era responsável por organizar as festas, então a gente fazia São João, Halloween, tudo.”
É também nesse período que surge a drag América Bracchi, primeira persona artística estruturada por YO. Com recursos limitados — muitas vezes vindos de uma bolsa estudantil —, a montação acontecia de forma improvisada e, por vezes, escondida.
“Eu guardava minhas coisas de drag no grêmio, porque não podia levar para casa. Eu tinha que me montar escondido.”
Escolha do nome tem influência de vereadora
A escolha do nome não é aleatória. Influenciada por Brisa Bracchi, que, à época, já era uma referência na militância, YO buscava construir uma drag que também fosse um posicionamento político. A performance, então, passa a ocupar espaços de protesto, ocupações estudantis e manifestações, conectando estética e discurso. Nesse momento, a arte deixa de se separar da militância — torna-se, ela própria, uma linguagem de atuação política.
Paralelamente, YO começa a circular como DJ. Sua atuação se expande principalmente pelo interior do estado, onde constrói uma rede própria de contatos e reconhecimento. Cidades como Santa Cruz, Caicó, Currais Novos e Mossoró entram no circuito, consolidando uma presença que, curiosamente, ainda não se refletia com a mesma força na capital.
“Eu acabei criando uma fama no interior que eu não tinha em Natal, porque aqui o acesso à cena também depende muito de contatos, que, na época, eu ainda não tinha”, relata.
Essa fase de expansão, no entanto, é atravessada por um processo de desgaste. A necessidade constante de esconder a própria identidade cobra um preço alto.
“Era muito cansativo. Eu tinha que sair de casa, me montar em outro lugar, performar, depois me desmontar e voltar.”
O afastamento da drag e da produção cultural acontece nesse contexto, em meio a um período de dificuldades. A saída do IFRN marca uma ruptura: YO se afasta da cena artística e passa a focar na entrada na universidade e na busca por estabilidade financeira.
A virada acontece durante a pandemia. Ao dividir casa com outras pessoas trans, YO vivencia um processo profundo de reconhecimento identitário, que redefine sua relação com o corpo e com a arte.
“Eu virei pras pessoas que moravam comigo e falei: ‘gente, eu sou uma pessoa não-binária’.”
Essa descoberta transforma sua expressão artística. A montação deixa de ser uma construção de personagem e passa a ser extensão de si.
“Eu percebi que não era mais uma drag. Era eu, explorando minha feminilidade, sem precisar me esconder atrás de uma persona.”
A Ballroom potiguar
É nesse ambiente de convivência e experimentação coletiva que surge o embrião da inserção de YO na cultura Ballroom.
Embora o contato mais estruturado venha depois, as primeiras aproximações com o vogue remontam ao período escolar. Ainda no IFRN, YO chegou a coreografar uma apresentação inspirada no universo da dança, utilizando referências difusas — como o clipe “Vogue”, de Madonna, e vídeos encontrados na internet.
“A gente fazia sem saber exatamente o que era. Não tinha ninguém pra ensinar, nem acesso fácil à informação.”
Esse cenário começa a mudar no período pré-pandemia, com a realização de batalhas de vogue em Natal, ainda desconectadas da estrutura formal da Ballroom. Sem domínio dos protocolos ou das categorias da cultura, artistas locais se reuniam para experimentar a linguagem.
Durante a pandemia, com a circulação de conteúdos online e a realização de bailes virtuais, o acesso ao conhecimento se amplia. Treinos, workshops e trocas com pessoas de outras cenas permitem um aprofundamento mais consistente.
É nesse contexto que YO, junto a outras pessoas, passa a articular a construção de uma cena Ballroom em Natal. Antes mesmo da formalização de uma casa, já havia um movimento de organização coletiva. Ao lado de Aisha Lemos — figura importante na cena potiguar —, YO discutia nomes, formatos e possibilidades.
O processo ganha força a partir de encontros com pessoas mais experientes da cena nacional, que ajudam a orientar os primeiros passos.
A virada definitiva acontece com o convite para integrar a Casixtranha. A partir daí, o movimento se estrutura. Entre o fim de 2022 e o início de 2023, YO participa de momentos decisivos: viagens para balls em outros estados, como a Paraíba, realização de performances locais e, principalmente, a criação dos primeiros treinos abertos de Ballroom em Natal.u
“Quando a gente voltou, já chegamos dizendo: existe Ballroom no RN!”
Nesse processo, YO assume um papel central na formação da comunidade. Com mais experiência em dança e facilidade de comunicação, passa a conduzir treinos, sistematizar conteúdos e produzir materiais pedagógicos sobre a cultura Ballroom.
“Eu pesquisava muito pra poder ensinar. Juntava tudo em documentos, estudava história, categorias e repassava.”
As primeiras ações públicas da Casixtranha seguem uma lógica de mediação cultural. Performances em festas funcionavam como verdadeiros showcases — uma forma de apresentar a Ballroom a um público que, em grande parte, ainda não conhecia a cultura.
“A gente fazia questão de explicar. Não era só performar, era ensinar enquanto mostrava”, relembra.
SAIBA MAIS: Ballroom: entenda como a comunidade cresceu no RN
Esse movimento se intensifica com a ocupação de diferentes espaços da cidade, inicialmente de forma independente e sem remuneração. A abertura de rodas de vogue em festas se torna uma estratégia de visibilidade e formação de público. Com o tempo, produtores culturais passam a reconhecer o potencial dessas performances, ampliando convites e profissionalizando a atuação da casa. Eventos maiores, como festivais e festas de grande porte, passam a incluir a Ballroom em suas programações.
Paralelamente, YO se consolida como commentator, figura central dentro da Ballroom responsável por conduzir os bailes com a voz, animar o público e, sobretudo, narrar a história da comunidade com o uso da voz.
A musicalidade, que já fazia parte de sua formação desde o coral no IFRN, mas encontra na Ballroom, uma nova possibilidade de expansão. A prática, inicialmente restrita às balls, começa a transbordar para a música gravada.
Incentivada por outras artistas no cenário nacional da Ballroom, YO realiza suas primeiras gravações e passa a disponibilizar faixas em plataformas digitais de maneira independente. A inserção em projetos maiores aconteceu neste ano. A artista potiguar compõe o projeto Hype do Vogue 3 de R2POT, ao lado de outras colaborações com nomes importantes da cena Ballroom brasileira, o que marca um novo momento na carreira:
“Eu não acreditava que estava acontecendo. Só acreditei quando vi a música no Spotify.”
Ouça a faixa:
Mesmo com o reconhecimento, a artista mantém uma visão pragmática sobre os desafios do mercado musical, especialmente para artistas do Nordeste. A produção independente, a dificuldade de circulação e a necessidade de investimento próprio são obstáculos constantes. Ainda assim, os planos são concretos, ela sonha com um EP autoral e ampliar sua presença em festivais e premiações.
Paralelo a esse movimento, YO continua atuando na formação e fortalecimento da cena Ballroom local como Overall Imperatriz YO Ixtranha, uma das lideranças da cena. Eventos como Balls locais, categorias com grande número de participantes e o surgimento de novas lideranças indicam um cenário em expansão, vizualiza ela: “Hoje a comunidade anda com os próprios pés.”
A Ballroom no Rio Grande do Norte deixou de ser uma experiência embrionária e se tornou uma cena estruturada, com impacto regional e reconhecimento nacional. Para YO, no entanto, o aspecto mais importante permanece sendo o coletivo. A criação de espaços seguros, onde corpos dissidentes possam se expressar, continua sendo o eixo central de sua atuação.
“Eu sempre quis criar um lugar onde as pessoas pudessem ser aplaudidas, onde elas se sentissem confortáveis no corpo delas.”
Ao revisitar a própria trajetória, a artista reconhece que muitos dos sonhos da infância se concretizaram. A “bixinha”, como ela mesma se refere, que cantava usando um cabo de vassoura como microfone, hoje, aos 28 anos, ocupa palcos como o do Festival MADA e do Bloquíssimo, além de atuar na formação de artistas e contribuir diretamente para a construção da cena cultural de Natal.
Mas, para além das conquistas individuais, o que permanece é a continuidade. A capacidade de fortalecer uma comunidade e abrir caminhos para que outras pessoas, com vivências semelhantes, também possam existir e se reconhecer:
“Quando alguém chega e diz que começou a se entender como pessoa não-binária depois de me ver, eu penso: é isso. É sobre isso. Fico feliz”, finaliza ela.
Esta reportagem faz parte da série Traquejo, da Agência Saiba Mais. O nome remete à habilidade de “se virar”, de encontrar experiências e seguir em movimento. A proposta é contar histórias de pessoas trans e travestis potiguares que, em contextos muitas vezes adversos, constroem seus próprios caminhos, criando estratégias e formas de fazer acontecer.
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Fonte: saibamais.jor.br
