Quando um tremor de magnitude 1.7 foi registrado em João Câmara às 20h26, no dia 19 de fevereiro deste ano, poucos minutos bastaram para que a informação chegasse aos computadores do Laboratório Sismológico da UFRN, em Natal.
O sinal percorreu a rede de dezenas de estações espalhadas pelo Nordeste, foi processado por sistemas digitais, revisado por especialistas e transformado em boletim, que pode ser acessado pela Defesa Civil e pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), por exemplo.
Hoje, esse processo é quase automático. Há 40 anos, quando o abalo de 5.1, o maior da história do Rio Grande do Norte, atingiu João Câmara, nada disso existia.
“João Câmara, Terra dos Abalos” é uma série especial do g1 que relembra os 40 anos do maior terremoto já registrado no Rio Grande do Norte e um dos maiores do Brasil. Nesta segunda reportagem, mostramos como a sequência sísmica transformou João Câmara em um laboratório natural e mudou os rumos da sismologia brasileira. A terceira e última matéria será publicada nesta segunda-feira (21).
Na época, os registros eram feitos em equipamentos analógicos, impressos em papel fumê. A equipe era formada por apenas três professores. Não havia estações móveis para instalar em áreas afetadas nem uma rede nacional de monitoramento sísmico.
Foi justamente aquela sequência de terremotos iniciada em 1986 que mudou esse cenário e transformou a sismologia brasileira.
“Eu diria que houve um antes e um depois de João Câmara na sismologia no Brasil. A partir disso, núcleos e grupos de sismologia se consolidaram, houve investimento e capacitação”, destaca Aderson Nascimento, coordenador do LabSis.
Antes de JC
Quando os primeiros tremores começaram a ser sentidos em junho de 1986, o grupo de sismologia da UFRN já estudava a atividade sísmica da região desde o início da década.
Embora o Brasil já registrasse terremotos, poucos eram estudados de forma contínua. Também eram raros os eventos que provocavam impactos tão significativos sobre uma população urbana.
O professor aposentado Joaquim Mendes Ferreira havia visitado João Câmara pela primeira vez em 1983, após um tremor registrado na região. “À época, o prefeito Ribamar já tinha essa preocupação e me convidou para ir lá”, conta.
Três anos depois, em 1986, voltou acompanhado dos professores João da Mata e Mário Takeya e do então bolsista Francisco Hilário para acompanhar uma sequência que ainda parecia pequena.
“Nós fomos para o campo logo no começo de junho. Mas a atividade foi aumentando, as magnitudes começaram a crescer e percebemos que estávamos diante de algo completamente diferente”, lembra.
Até então, explica Joaquim, a estrutura disponível era bastante limitada. “Não tínhamos equipamentos de campo. Existia apenas uma estação permanente e o trabalho era basicamente visitar as áreas, levantar informações e enviar os registros para centros de pesquisa no exterior”, relembra.
Enquanto os abalos se intensificavam, a pequena equipe da universidade passou a acompanhar diariamente a evolução da crise.
O desafio, porém, ia muito além da ciência.
“O que abalou mesmo as pessoas, não foi apenas o dano físico. Eram os tremores e depois as réplicas, uma atrás da outra. Psicologicamente aquilo era devastador”, recorda Joaquim.
O então prefeito Ribamar Leite conta que se interessou pelo tema quando ainda estava na faculdade de Ciências e, por isso, havia convidado o professor Joaquim Ferreira para uma visita na cidade.
“Não tinha previsibilidade. Na época existia a tese na cidade de que com uma sequência de centenas de abalos menores, um grande viria. Outra tese dizia que com a dispersão da energia nos menores, não teria força para um abalo grande, mas nada comprovado cientificamente”, diz.
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Fonte: Portal g1 RN
Fonte: Senadinho Macaiba

