Mantenha-se Conectado!

Assine nossa newsletter para receber nossos artigos mais recentes instantaneamente!

Atualizações

juventude, política e e militância travesti em Natal

Akira Vasconcellos: juventude, política e e militância travesti em Natal

A história de Akira Vasconcellos não começa nos espaços institucionais da política, nem nos palcos de militância já consolidados. Ela tem início dentro de uma escola pública, ainda na adolescência, em meio a conflitos, descobertas e enfrentamentos que moldariam sua atuação futura. Hoje, com apenas 18 anos, sua trajetória já carrega as marcas e aprendizados desse percurso.

“Falar do meu trabalho é uma coisa bem longa”, diz Akira, em entrevista à Agência Saiba Mais, ao relembrar os primeiros passos na Escola Municipal Juvenal Lamartine, em Natal. Foi ali, ainda no ensino fundamental, que teve o primeiro contato com a política ao integrar o conselho escolar. Mas também foi ali que entendeu, na prática, como o debate sobre diversidade pode ser atravessado por resistência e violência.

Um episódio marcou esse início: a chegada de uma estudante trans à escola. A reação de parte da comunidade escolar foi imediata e hostil. “Ela foi muito atacada pelos pais. E eu não entendia aquilo, mas queria ajudar”, conta.

Na época, Akira ainda não se identificava como travesti e tentava, com as ferramentas que tinha, abrir espaço para o diálogo. Tentou levar uma palestra sobre a comunidade LGBTQIAPN+ para a escola, mas o projeto foi barrado. “Disseram que eu estaria ensinando os alunos a serem gays, lésbicas, trans. Eu tinha 14 anos e fui muito atacada. Não entendia por que tanto ódio.”

Descoberta e liderança

A entrada no ensino médio, no Instituto Padre Miguelinho, marcou uma virada. Foi ali que Akira começou a compreender sua identidade de gênero e, ao mesmo tempo, aprofundou sua atuação política.

Em poucas semanas, passou de aluna recém-chegada a secretária-geral do Grêmio Estudantil da escola. Quatro meses depois, já ocupava a vice-presidência.

Mas o ambiente escolar continuava sendo um território de disputa. Em 2023, enquanto iniciava seu processo de afirmação como mulher trans, Akira foi vítima de violência dentro da escola.

“Me trancaram no banheiro. Fiquei das 11h até 13h30 lá dentro. Eu chorava, estava desesperada”, relembra. O episódio, somado a constantes ataques e ao uso do nome morto por colegas.

O chamado “nome morto” é o termo utilizado para se referir ao nome de registro civil atribuído a uma pessoa trans ao nascer, mas que já não corresponde à sua identidade de gênero. O uso desse nome, especialmente após a adoção do nome social é considerado uma forma de desrespeito e pode causar constrangimento, exposição e violência simbólica. No Brasil, o direito ao uso do nome social é reconhecido em diferentes esferas, como escolas, universidades e serviços públicos, sendo um elemento fundamental para garantir dignidade e reconhecimento às pessoas trans.

A trajetória política de Akira também passa por contradições. Ao entrar em um coletivo de militância ainda no início da atuação, viveu experiências que hoje revisita com crítica. O rompimento com esse grupo foi um ponto de inflexão. A partir daí, Akira se aproximou do coletivo Juntos e passou a reformular sua prática política, com foco em educação, cultura e atuação direta nas escolas.

Também integrou a Feira do Mandume, onde atuou como produtora executiva. O coletivo desenvolve uma agenda antirracista, com atuação centrada na valorização e difusão da cultura negra.

SAIBA MAIS: Coletivo leva arte negra às escolas e desafia o currículo racista

A atuação de Akira também se estende ao campo da formação e da troca de saberes. Como palestrante, ela já levou debates sobre vivências trans, política e questões raciais para diferentes espaços, como os Institutos Federais, com atividades no IF de João Câmara, ao lado da vereadora Brisa Bracchi (PT), e no IF das Rocas, além de encontros no coletivo Feira do Mandume. Nessas ocasiões, sua fala parte da própria experiência para dialogar com jovens e comunidades sobre identidade, direitos e enfrentamento às violências.

A vida de Akira é atravessada por uma equação delicada entre militância e sobrevivência. Hoje, após retificar seus documentos, ela tenta reorganizar prioridades:

“Estou focando em estudar, trabalhar, cuidar da minha vida.”

No começo deste ano, articulou, praticamente sozinha, a retomada do ato do mês da visibilidade trans em Natal, que não acontecia desde 2012.

“Eu vi um ato em São Paulo e pensei: vou fazer um aqui. E fiz em uma semana”, relata. Apesar da baixa adesão, considera o momento simbólico. “Foi histórico. E ano que vem vai ser maior.”

Quando questionada sobre as políticas que considera urgentes para a população trans em Natal, Akira aponta um descompasso entre discurso e prática, especialmente no que diz respeito ao acolhimento imediato:

“As pessoas dizem que estão lutando, mas quando aparece alguém precisando de ajuda de verdade, elas somem”, afirma.

Na avaliação de Akira, as prioridades são claras: políticas de permanência, acesso à moradia, alimentação e apoio contínuo.

“A gente precisa de cesta básica, de aluguel social, de acolhimento. Não adianta só falar de direitos se o básico não está garantido.”

Ela também aponta a necessidade de ampliar o acesso à educação e à permanência de pessoas trans nas escolas e universidades, além de fortalecer ações culturais como ferramenta de transformação.

“A cultura abre uma brecha de luz em uma vida que está escura”, diz.

Sonhos e futuro na política

Akira projeta o futuro de continuidade do que tem construído com a política. Quer disputar um cargo público em Natal e sonha em se tornar professora de Sociologia.

“Eu quero levar tudo isso para dentro da sala de aula. Foi na escola que eu descobri essa paixão.”

Também está no processo de escrita de seu primeiro livro, “O Mistério de Ser Eu”, onde pretende registrar parte das experiências que atravessam sua trajetória.

“A minha vida é muito conturbada. Se a gente fosse contar tudo, passava meses conversando.”

Uma trajetória em construção

A história de Akira Vasconcellos ainda está em curso. Jovem, mas já marcada por enfrentamentos intensos, ela se insere em uma geração que tensiona estruturas dentro e fora dos movimentos sociais. Entre avanços e frustrações, sua trajetória revela não apenas os desafios da militância trans em Natal, mas também a potência de quem insiste em transformar a própria experiência em ação política.

“Eu só quero que a gente não desista umas das outras”, finaliza.


Esta reportagem integra a série Traquejo, da Agência Saiba Mais, que, como o próprio nome sugere, se dedica a contar as trajetórias de pessoas trans e travestis que, diante das adversidades, inventam suas próprias formas de existir, criando caminhos, estratégias e jeitos de fazer acontecer.

SAIBA MAIS:
Geja: arte, política e performance na construção de uma drag no RN
De Areia Branca ao hip-hop: os versos potentes de Ale Du Black



Fonte: saibamais.jor.br

Gil Araújo

About Author

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may also like

Atualizações

Enem 2025: RN tem mais de 113 mil inscritos confirmados

Número de estudantes no exame é 10,9% superior aos inscritos de 2024. Provas desta edição do Enem tem data marcada
Atualizações Cotidiano

Incêndio atinge barracas de alimentação e deixa 4 feridos em festival gospel

Caso aconteceu na noite desta sexta-feira (25) durante shows do Festival Sal e Luz em Mossoró, no Rio Grande do