O ventilador roubou minhas ideias
O ventilador roubou minhas ideias
Sofro de insônia!
Declaração nada promissora pra começar uma crônica, não é mesmo!? E, diga-se de passagem, ela, minha insônia, também é crônica. Nada mais cotidiano na minha vida que umas crisezinhas regulares. Apesar das gotinhas ou dos comprimidinhos. (Uso diminutivos para dar uma amenizada nessa história.)
Mas a verdade é essa. E digo “sofro” porque é um martírio viver assim. Quando não é a demora ou a dificuldade para adormecer, são os despertares noturnos – o que é pior, acordo várias vezes durante a noite e sinto uma dificuldade enorme em voltar a dormir. Mesmo com os remedinhos que tomo. É desgastante, acredite! Algumas vezes, raras vezes, ela se manifesta em despertares precoces, mas quando os tenho não consigo retomar o sono e já inicio o dia estressada. É “U OH!”
Às vezes, porque o sono não é reparador, estou, no outro dia, só o pó da rabiola, com fadiga, cansaço, sonolência excessiva e alterações de humor: fico irritada, ansiosa…
É quando essa maldita insônia se acentua que minhas crises de depressão eclodem, acompanhadas de um mau humor horroroso que toma conta de mim… sem falar nos meus famosos lapsos de memória e minha vontade de me esconder do mundo.
Uma coisa positiva nessa história (se é que posso chamar de positiva) é que, como sei que estou vencida, me agarro ao papel e à caneta (coisas que estão sempre à mão), ou ao celular e escrevo, ou gravo áudio para meu grupo de WhatsApp formado só por mim mesma. Escrevo minhas inquietações, o sonho que me despertou, uma ideia que me surge na hora, as angústias de não conseguir dormir, meus medos, meus desejos, meus sonhos mais abissais…
Despejar isso em uma folha ou em um arquivo de áudio ou de texto no celular me aquieta, na maioria das vezes. No outro dia, ou dias depois, confiro o que escrevi ou o que gravei, porque na hora, o importante é “vomitar”, me aquietar e tentar voltar a dormir. É como se as ideias me perturbassem tanto que se não as puser para fora, elas não me deixarão dormir nunca mais.
Mas sabe o que mais engraçado, é quando tento ler o que escrevi (o que faço geralmente no escuro) e não entendo minha letra, seja porque escrevi rápido demais, seja porque escrevi atropelando uma frase em cima da outra. Um caos!
Quando gravo, consigo salvar mais coisas, desde que me lembre de posicionar o celular protegido do ventilador. (É! Durmo com ventilador porque adoro o barulhinho… é um verdadeiro acalanto, uma canção de ninar… um dos métodos que fazem meu cérebro relaxar e querer dormir.)
Mas, na maioria das vezes, só lembro desse detalhe depois que metade do que eu “vomitei” está gravado e abafado pelo som do ventilador (HAHAHAHAHAHA!!!). É, o ventilador ouviu e tomou só pra si minhas ideias, ou boa parte delas. É, o ventilador roubou minhas ideias assim, na cara dura e eu me sinto uma idiota porque já caí nesse golpe centenas de vezes.
Ele rouba e não me revela mais nada do que se apropriou. Algumas vezes, recupero as ideias furtadas por ele, pela parte que consegui salvar de seu sopro ladrão. Outras, não consigo fazer as conexões necessárias para tanto e lá se foram elas… carregadas de mim para nunca mais.
Não sei se um dia essas ideais voltam e sou eu que não lembro que já pensei nelas. Um mistério! Desses que nem um sopro acalentador (mas também ladrão de ideias alheias), que me provoca sensação de paz e vontade de dormir e sonhar, como uma verdadeira canção de ninar, é capaz de revelar.
Talvez ele tome essas ideias para si porque elas não devem valer um vintém. Talvez tomar consciência delas seja motivo de me deixar mais uma noite acordada, insone, pensando e desejando que meu cérebro se esvazie, para dar lugar a um sonho bom, a um soninho gostoso que seja capaz de me transportar, acalentada e ninada, para o abraço dos braços de Morfeu.
Fonte: saibamais.jor.br