A recente declaração de Donald Trump, em que descreve venezuelanos como “as pessoas mais feias” que já viu, não é apenas um ataque verbal grotesco. É a expressão de um projeto de poder que historicamente desumanizou, estigmatizou e violou povos inteiros em nome de interesses geopolíticos e econômicos. Essa fala racista e xenófoba ecoa numa guerra que, no fundo, não começou hoje. Ela se acumula na política externa dos Estados Unidos para além da retórica estereotipada.
Nos primeiros dias de janeiro de 2026, Trump anunciou orgulhosamente uma operação militar dos Estados Unidos que resultou no que chamou de “captura” do presidente venezuelano Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. O ataque unilateral em território de um Estado soberano chocou o mundo e reabriu debates sobre legalidade, direito internacional e imperialismo.
O episódio foi apresentado pela Casa Branca como parte de uma suposta campanha contra o narcotráfico e a chamada “ameaça chavista”. No entanto, essa justificativa se revelou ainda mais frágil quando o próprio governo dos Estados Unidos recuou de uma de suas principais acusações contra Maduro. Washington retirou formalmente a narrativa de que o presidente venezuelano chefiaria o chamado “Cartel de los Soles”, admitindo que o grupo, tal como apresentado nos processos judiciais, não se sustenta na realidade. A mudança enfraquece de forma decisiva o discurso jurídico que sustentava a perseguição ao líder venezuelano e expõe o caráter político da ofensiva.
Ao desmontar a acusação central de narcotráfico, os Estados Unidos deixam ainda mais evidente que a operação não se baseia em combate ao crime ou defesa da democracia. Trata-se de uma ação de força orientada por interesses estratégicos, que ignora mecanismos diplomáticos, o devido processo legal internacional e o princípio da soberania nacional, pilares que deveriam reger as relações entre Estados independentes. Analistas estrangeiros e governos de diversas nações classificaram a operação como violação flagrante do direito internacional e um precedente perigoso para a estabilidade regional.
Esse cinismo ficou ainda mais explícito quando Trump declarou que os Estados Unidos seriam responsáveis por uma “transição” na Venezuela e que grandes petroleiras norte-americanas administrariam as reservas do país, que detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. O componente econômico, longe de ser secundário, aparece como eixo estruturante da ofensiva. O petróleo surge não como consequência, mas como objetivo central da intervenção.
Essa escalada não surgiu do nada. Ao longo de 2025, intensificaram-se ações militares contra embarcações e operações punitivas no Caribe e no Pacífico, atribuídas pelo governo norte-americano a supostos narcotraficantes venezuelanos. Muitos desses episódios, no entanto, foram questionados por especialistas e por setores da comunidade internacional, que apontaram inconsistências nas provas apresentadas e motivações políticas por trás das ações.
A desumanização como ferramenta político-ideológica
A fala de Trump, além de ofensiva, é sintomática de um olhar hegemônico que reduz povos e culturas a categorias despersonalizadas, prontas para justificar intervenções. Essa lógica tem raízes profundas no projeto expansionista dos Estados Unidos desde o século XIX. Da Doutrina Monroe às sucessivas intervenções diretas e indiretas, construiu-se um padrão de desvalorização das vidas e da autodeterminação dos povos latino-americanos.
Nos últimos 75 anos, políticas de mudança de regime, golpes apoiados por Washington e ocupações militares marcaram a atuação dos EUA na região. Da invasão do Panamá em 1989 ao apoio a ditaduras durante a Guerra Fria, a história fornece elementos suficientes para compreender por que países latino-americanos resistem à ideia de que Washington possa ser árbitro legítimo de democracia ou segurança.
Brasil, soberania e a mídia hegemônica
Como jornalista, é impossível ignorar o papel da grande mídia nesse processo. A cobertura hegemônica frequentemente reproduz narrativas oficiais das grandes potências, naturalizando justificativas de segurança e minimizando interesses econômicos e estratégicos. Isso contribui para uma opinião pública menos crítica diante de ações que, se praticadas por outros países, seriam prontamente condenadas.
No Brasil, país que não sofreu invasão militar direta dos Estados Unidos no pós-Segunda Guerra Mundial, mas que teve o golpe civil-militar de 1964 apoiado por Washington, essa lógica de poder se manifestou de forma indireta, por meio de influência política, militar e econômica. Isso demonstra que o imperialismo nem sempre se impõe por tanques, mas também por cooptação e alinhamento estratégico.
Venezuela: o cerne de uma disputa global
A Venezuela não é apenas palco de um conflito diplomático. É um país estratégico, rico em recursos naturais, especialmente petróleo, e historicamente alvo de interesses externos. As tentativas reiteradas de associar o governo venezuelano ao narcotráfico funcionaram, por anos, como instrumento de criminalização política. O recuo dos próprios Estados Unidos nessa narrativa revela o esgotamento desse discurso e reforça que a intervenção atual não se sustenta juridicamente, apenas politicamente.
O percurso é conhecido. Primeiro vêm os insultos e a desumanização. Depois, as acusações morais e criminais. Por fim, a intervenção direta. A linguagem antecede a guerra e prepara o terreno para que ações de força sejam apresentadas como necessárias ou inevitáveis.
Soberania, direitos humanos e futuro
Não somos quintal de nenhuma potência, nem território de manobra para projetos hegemônicos. A fala de Trump é apenas a face visível de uma estrutura mais profunda, a persistência de uma lógica imperialista que desvaloriza vidas fora do eixo de poder enquanto instrumentaliza o discurso jurídico, midiático e militar para expandir sua influência.
Cabe ao jornalismo crítico expor essas engrenagens, conectar discurso e prática, revelar interesses ocultos e recusar narrativas que naturalizam a violência como solução. Em um tempo em que soberania e autodeterminação voltam a ser frontalmente atacadas, compreender o passado é condição indispensável para enfrentar o presente e disputar o futuro.
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Fonte: saibamais.jor.br
