Ela sempre foi o riso mais alto da mesa de bar. O tipo de pessoa que chega antes do sol, abre janelas, espalha gargalhadas e tempera o silêncio com histórias exageradas, coloridas demais como a própria protagonista delas: a amiga que todo mundo descreve como “a mais animada da turma”. E talvez fosse mesmo, nos dias em que a alma não doía. Porque havia outros dias, aqueles em que a manhã parecia uma roupa apertada, e o espelho, uma testemunha inconveniente. Nesses, ela vestia a alegria como quem disfarça um hematoma: com cuidado, habilidade e um sorriso ensaiado no provador da própria existência.
A primeira conversa aconteceu numa tarde de outubro, quando o vento trazia cheiro de cachaça, cerveja e churrasco na brasa quente. Ela estava sentada entre dois amigos, num banco de jardim ainda morno do dia. As mãos brincavam com o lacre da latinha de cerveja, mas os olhos, esses não brincavam com nada. Carregavam um peso que nem o melhor dos disfarces conseguiria camuflar.
“Eu sou depressiva e estou saindo de uma crise”, ela disse, com uma honestidade quase tímida, como se as palavras tivessem vindo com sapatos de feltro para não fazerem barulho. Os dois amigos não se espantaram; não porque já soubessem, mas porque a cumplicidade verdadeira não se alarma com revelações, ela apenas as reconhece e acolhe. Ela continuou deixando as frases caírem no ar como chuvinha fina do Sertão: “Eu uso máscaras. A gente usa, né? Performances, sorrisos que não pertencem ao coração, mas que salvam a gente do julgamento. Tenho medo de parecer frágil. Medo de dizer que dói. Porque se eu demonstrar tristeza, se eu ficar casmurra, quem vai acreditar? Eu sou a ‘alegre’, a ‘engraçada’, a ‘forte’.”
O silêncio não foi desconfortável; foi rede armada na varanda em um dia de calor. Um espaço onde as palavras dela podiam se deitar sem pressa. Ela respirou fundo, e então veio a frase, com um gosto agridoce de quem já a mastigava há tempo demais: “Há dias que todo riso é máscara!” Os amigos se inclinaram levemente, não com pena, mas com presença. E ela arrematou, quase em sussurro, mas com a precisão de um sino: “Eu escondo muita dor por trás das minhas gargalhadas.”
Foi ali que a narradora, testemunha acidental dessa conversa e observadora silenciosa daquela cena, sentiu a espinha tremer. Porque a verdade quando chega não pede licença, ela acende a luz. Viu que a amiga não chorou, mas a voz embargou como céu antes da chuva. “Eu tenho medo de não corresponder ao que esperam de mim”, confessou. “Medo de decepcionar se eu não estiver radiante. Medo de ser humana demais.”
Um dos amigos estendeu a mão até a dela. O outro não precisou tocar; o olhar já abraçava. “Você não precisa ser a alegria o tempo todo”, disseram, sem sincronia ensaiada, mas com aquela harmonia que só existe entre quem já dividiu xícaras de café, ressacas homéricas e risadas sinceras. “A gente tá aqui. A gente vê você.”
E viram mesmo. Porque amigos não acreditam apenas no que é dito, eles percebem o que é omitido. A narradora, então, notou o momento exato em que a conversa mudou de eixo. Não foi quando a amiga falou sobre a depressão, nem quando descreveu as máscaras. Foi quando os três trocaram olhares. Um entendimento que não dependia de vocabulário: era código, era músculo, era morse ocular.
A troca de olhares é a língua secreta dos afetos. Um idioma que não se aprende em escola, se herda em convívio. Quando um amigo olha para o outro e, sem dizer, pergunta: “o que é que vc tem?” E o outro, também sem dizer, responde: “não tô bem.” Foi assim ali, naquele banquinho de jardim, na área de lazer da casa de um deles, onde rolava aquele happy hour de costume. A amiga percebeu que podia desabar sem cair, porque havia olhos para sustentá-la. Olhos que sabiam ler suas mudanças de estação. “A gente percebe no seu olhar quando a alegria não é sua”, disseram. “Quando o brilho é um grande disfarce.”
A narradora se arrepiou outra vez. Porque foi naquele instante que ela mesma lembrou de outra conversa, vivida meses antes, com um amigo que sempre pareceu feito de poesia elétrica. Ele falava sobre energia como quem descreve clima, não o que se vê, mas o que se sente na pele. Ele disse, numa tarde qualquer, que “a energia entre as pessoas é uma equação sensível: muda quando alguém entra, quando alguém sai, quando alguém cala ou quando alguém finge.” Ela entendeu, mas não completamente, até aquela tarde de outubro, naquele happy hour, quando a equação daquela mulher com os dois amigos se revelou na cumplicidade entre eles.
Esse outro amigo tinha um de seus sobrenomes escrito com uma sílaba forte no centro, uma paroxítona que elevava o meio daquela palavra que o nomeava como um troféu (era assim que ela o interpretava, com um fogo constante no coração daquele substantivo tão próprio dele e que só ela o usava para chamá-lo). Certa vez, ela chamou seu abraço de “ocitocina”. Ele riu quando ouviu, porque soava como apelido de super-herói hormonal, mas ela disse que a ocitocina é conhecida como o “hormônio do amor”, “do vínculo”, “do bem-estar” porque está ligado à sensação de conexão, confiança, afeto e proximidade emocional.
Ela pensou que a energia entre os dois, a química invisível que fazia as conversas fluírem, os silêncios não pesarem, as emoções se dizerem sem legenda e a intimidade indiscreta entre eles não ofenderem era a “ocitocina particular deles”. Uma metáfora para aquele tipo raro de encontro em que a alma reconhece a outra como espelho sem rivalidade, abraço sem cobrança, troca sem roubo.
Ela entendeu naquele dia que certas conexões não apenas aproximam, mas modulam frequência. Mudam postura, mudam humor, mudam até a forma como a gente ocupa o espaço. Tem gente que chega e nossa energia contrai, se esconde e aí fazemos uso das nossas máscaras, nossas performatividades; tem gente que chega e nossa energia dança, se espreguiça, acende neon na alma, as máscaras caem. E quando esse amigo falava de energia, ele falava dela, e dele, e do encontro dos dois como um território próprio, um bioma emocional onde as vulnerabilidades podiam ser ditas sem alarde, mas com verdade.
As conexões entre pessoas são campos de força: rearranjos de magnetismo. Um gesto mínimo, a troca de olhares, é capaz de revelar o que nem mil parágrafos de confissão alcançariam. É física sentimental: corpo que responde à presença, alma que reage à ausência. Mas entre amigos, essa física não assusta, ela comunica.
Mas voltando ao banquinho e àquele triângulo afetivo: naquela tarde, a amiga depressiva era a protagonista do desabafo, mas todos ali estavam nus de disfarce. A narradora percebeu que amizade é isso: um campo energético onde a fragilidade não é falha, é sinal de confiança. Onde as máscaras não precisam ser empunhadas, apenas pousadas na cadeira ao lado, porque ninguém ali confunde personagem com pessoa.
A amiga disse que temia ser vista como frágil, mas ali descobriu que a fragilidade só ameaça quando a gente a esconde. Quando é dita entre olhos que compreendem, ela vira ponte. “Há dias que todo riso é máscara”, repetiu a narradora mentalmente, mas agora com outro significado: não como sentença de isolamento, mas como senha de reconhecimento. Porque a máscara só existe porque há dor; mas a dor só pode ser nomeada porque há acolhimento para ela.
Os amigos falaram sobre a importância de perceberem-se mutuamente. “Às vezes você não precisa dizer. A gente sabe quando algo não encaixa. Quando sua energia baixa, quando seu corpo fala em outra língua. A gente vê. A gente sente. Não combina com você!” E a narradora lembrou de novo do amigo que chamou de ocitocina: sim, energia é equação, disse ele. E sim, certas pessoas alteram completamente o resultado. Há encontros que curam sem curativo, apenas com presença. Há olhares que dizem “fica” quando o resto do mundo exige “segue sorrindo”.
A crônica que se escreve agora, então, é um espelho dessas duas conversas em tempos distintos: numa, o desabafo sobre fragilidades e máscaras; noutra, a filosofia das trocas de energia. E no meio delas, um ponto comum: a cumplicidade que nasce no olhar. Porque palavra a gente edita, encena, maquia; mas o olho, esse é texto sem rascunho.
E a performance que usamos para sobreviver é legítima, até bonita. A gente se monta para o mundo como quem se fantasia para o carnaval da normalidade: brilho, volume, estampa, coreografia social. Mas a amizade é o único camarote onde a fantasia pode ser desmontada sem virar vergonha. É onde a equação energética se estabiliza não pela ausência de dor, mas pela presença de leitura. A leitura ocular. A leitura da alma pelo único orifício que não aprende a mentir direito: os olhos.
Talvez seja isso que nos salve: a capacidade de esconder do mundo. Performamos para sobreviver à brutalidade cotidiana, mas só nos entregamos, quase sem perceber, a quem sabe ler o que escapa da cena. Porque amizade não exige confissão formal, nem testemunho verbal, ela acontece no intervalo do olhar, na pausa antes da pergunta que não precisa ser feita. É ali que fragilidades repousam, desejos respiram e o sigilo deixa de ser cárcere para virar abrigo.
E se o mundo insiste em nos pedir constância, alegria e espetáculo, permitir-nos-emos (essa mesóclise é intencional!) à delicadeza do desajuste apenas entre quem nos reconhece inteiros. Diremos menos, sentiremos mais. Guardaremos as máscaras no bolso e deixaremos que os olhos façam o trabalho sujo da verdade. Porque quando a equação muda, quando alguém chega ou parte, quando a energia se altera, são eles, os olhos cúmplices, que avisam antes do corpo cair. E nesse idioma silencioso, antigo e insubmisso, continuaremos a nos encontrar: frágeis, desejantes, performáticos, mas nunca sozinhos.
Fonte: saibamais.jor.br
