Não é um fato inédito, os Estados Unidos já praticam intervencionismo na América Latina há muito tempo. Mas, passadas algumas décadas das sangrentas ditaduras e golpes militares no continente, o mundo se viu diante de uma nova intervenção dos Estados Unidos, dessa vez, na Venezuela. Era 3 de janeiro quando a Venezuela acordou com a notícia do sequestro do presidente Nicolás Maduro. A tensão havia começado há meses com a movimentação dos norte-americanos sob a justificativa do combate ao tráfico de drogas. Mas, sem arrodeios, o motivo logo foi colocado na mesa: o petróleo.
Passada uma semana, analistas ainda tentam apontar caminhos e entender o risco que a intervenção na Venezuela representa para outros países, afinal, não faltaram ameaças a Colômbia e Groelândia.
“O que aconteceu na Venezuela pode acontecer em qualquer outro país. Se não questionarmos o que aconteceu ali, se aceitarmos que um país possa violar a soberania de outro, que possa passar por cima de todo direito internacional, qualquer país se vê em risco de sofrer processo semelhante. O Brasil não está alheio a isso”, assevera Gabriel Vitullo, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Doutor em Ciência Política e Coordenador do Programa de Ciências Sociais da UFRN.
O professor, que conversou com a Agência SAIBA MAIS, explica que o caso é considerado tão grave que até setores da direita no Brasil condenaram o que houve na Venezuela.
“O PSDB, na figura controversa do presidente do partido, Aécio Neves, condenou o que aconteceu na Venezuela entendendo que a essa violação flagrante da soberania nacional venezuelana representa um risco, também, para nós. O bolsonarismo saiu a bater palmas, mas os setores mais racionais da direita brasileira, que entendem que a soberania não é uma piada, uma brincadeira, também condenaram o que aconteceu”, comenta Vitullo.
Para o pesquisador, não há dúvida de que houve uma violação flagrante do direito internacional, independentemente da opinião que tenhamos sobre o governo da Venezuela.
“Trump, diferente de outros presidentes, diz as coisas de forma mais direta e crua. Ele deixou muito claro que a motivação é o petróleo. Ele deixou claro, nas duas coletivas de imprensa que deu, que os Estados Unidos precisam da maior reserva petrolífera do mundo, que está na Venezuela, muito maior que da Arábia Saudita, do Irã e Iraque”.
A atuação dos Estados Unidos
“Durante muitos anos os Estados Unidos exerceram controle sobre a economia Venezuelana e seus recursos naturais e a partir de 1999, com a ascensão de Hugo Chávez, houve uma mudança no sentido da Venezuela se garantir como país soberano e de controlar seus próprios recursos naturais e, desde então, até hoje os Estados Unidos vêm boicotando o governo venezuelano com várias tentativas de golpe, a mais destacada de todas foi em 2002. Hugo Chávez ainda era vivo e estava na metade de seu primeiro mandato. Foi um golpe articulado interna e externamente com participação das forças armadas, do empresariado venezuelano e a participação decisiva do Departamento de Estado da Central de Inteligência norte-americana. Esse foi um golpe fracassado porque Hugo Chávez estava com uma enorme popularidade e contava com o apoio importante dentro das próprias Forças Armadas que estava dividida com um setor pró Estados Unidos e outro pró Venezuela e Hugo Chávez. Graças à gigantesca mobilização popular e ao racha das forças armadas, Chavez conseguiu tomar a presidência e o golpe durou apenas 48 horas e a partir daí ele iniciou um processo de reforma profundo dasForças Armadas na Venezuela para que ela não voltasse a ser usada pelas forças do imperialismo norte-americano. Tanto é que todas as tentativas posteriores de derrubada do presidente Hugo Chávez e depois do Maduro, não contaram com a participação orgânica das Forças Armadas”, explica Vitullo.
Um novo tipo de golpe
O histórico de intervenções estadunidenses na América Latina passa pelo Brasil com o golpe de 1964, em 1973 no Chile e em 1976 na Argentina.
“Nos três tivemos participação dos Estados Unidos na preparação, organização e na deflagração do golpe e tivemos o protagonismo da Forças Armadas nesses países. Isso na Venezuela hoje é diferente. Não podem contas com as Forças Armadas, por isso optaram por uma outra estratégia, que foi pontual de ir lá, capturar o presidente e continuar ameaçando. Isto é uma novidade, um golpe de novo tipo, que não conseguiu destituir o governo, apenas destituir o presidente. O governo venezuelano continua na sua estrutura, continua a linha sucessória, Delcy Rodrígues assumiu a presidência de forma interina enquanto Maduro estiver sequestrado, fora do país”.
200 anos de intervenções
“As intervenções dos Estados Unidos já completaram 200 anos. Vamos pensar na Doutrina Monroe, de 1823, citada pelo próprio Trump de forma descarada, que postulava que a América era para os americanos. O gentílico era para quem nasceu na América, o brasileiro é americano, eu nasci na Argentina e sou americano, mas eles se apropriam do gentílico e quando dizem ‘americanos’ falam apenas deles. Desde então, houve dúzias e dúzias de intervenções, mais abertas ou mascaradas, dos Estados Unidos. Vou citar alguns casos, como na pequena ilha de Granada, um pequeno país independente no Caribe, em 1983. Na época Ronald Reagan estava na presidência e entendiam que ele era um cara muito à esquerda, timidamente progressista. Mas, o presidente foi destituído a partir de um processo de invasão das forças navais dos Estados Unidos. Capturaram e depuseram o presidente. Avançando no tempo, podemos lembrar em 1989 a invasão do Panamá, que é o que mais se aproxima ao que aconteceu na Venezuela. Bombardearam o Panamá, o número de mortos foi bem maior e até hoje não se sabe ao certo quantos foram. Capturaram Manuel Noriega, um presidente que até o dia anterior tinha sido um fiel aliado dos Estados Unidos. Ele havia trabalhado na CIA, fazia um jogo duplo e em algum momento os Estados Unidos entenderam que ele não servia mais aos seus interesses. Eles queriam, basicamente, tomar o controle do canal do Panamá. Sempre há questões geopolíticas, estratégicas e econômicas fundamentais que explicam este processo. Casualmente foi, também no dia 3 de janeiro, em 1989. Nos anos 1990 invadiram o Haiti e capturaram o presidente do país e, agora fazem o mesmo na Venezuela”.
O blefe
“O Brasil corre grandes riscos, como os demais países da América Latina porque pensemos que essas ameaças, que para alguns são meros blefes, e o Trump adora blefar, às vezes se materializam. O Trump vem ameaçando de maneira direta a Colômbia, onde em breve haverá eleições e o que indica é que o Petro [Gustavo Petro], o presidente mais à esquerda da América Latina, faça seu sucessor. Os Estados Unidos não querem saber da Colômbia continuar nas mãos de forças progressitas. Tem o caso histórico de Cuba. Os Estados Unidos por diversas vezes tentaram derrubar o regime cubano e ele tem insistido em tomar a Groelândia. Estamos num cenário muito conturbado e o Brasil não está imune, lembremos do tarifaço, do apoio ao neofacismo brasileiro, ao bolsonarismo. Tivemos aquele rápido diálogo entre Lula e Trump, no qual teria havido uma química, parecia que a coisa tinha se acalmado, mas com Trump tudo é muito imprevisível. Portanto, o Brasil corre esse risco sim, afinal está sendo cercado. Pensemos no que aconteceu na Venezuela, no que aconteceu no Equador, onde os EUA apoiaram o Noboa [Daniel Noboa], o atual presidente, onde houve numa eleição muito pouco transparente. Também tem o Chile, que não faz fronteira com o Brasil e acabou de ganhar um candidato de ultra-direita, mais à direita ainda do que Bolsonaro. pensemos no que está acontecendo na Argentina, onde houve eleição com renovação parcial do parlamento que o Milei [Javier Milei] iria perder, se não fosse o apoio direto financeiro dos Estados Unidos, fato inédito na América Latina. Trump se envolveu diretamente em troca de recursos naturais. Pensemos, ainda, no que aconteceu em Honduras, com eleições fraudadas dias atrás, com um candidato apoiado por Trump, que ganhou a eleição também.
De olho na América Latina
“Há uma determinação muito explícita do governo Trump, com grande influência de seu ministro de Relações Exteriores, o secretário de Departamento de Estado, Marco Rubio, que é um estadunidense de origem cubana, seus pais são exilados em Miami, de retomar o controle da América Latina. Os Estados Unidos veem a região como sua área de influência. Nas últimas décadas eles haviam largado de mão da América Latina, o que havia sido muito bom para nós, mas hoje eles querem retomar o protagonismo na América Latina da única forma que sabem fazer, não é para garantir o bem-estar dos povos, nem a democracia, mas simplesmente para tirar proveito dos enormes recursos naturais que há no nosso continente”.
As reações
“As reações foram bastante fortes, a questão é como passar do discurso à ação quando temos no Conselho de Segurança das Nações Unidas, que é a única entidade com poder militar para intervir em defesa de um país que está sendo atacado, tem cinco membros permanentes e um deles é os Estados Unidos, além de Rússia, China, França e Grã-Bretanha. Ele existe desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando as potências vencedoras criaram toda a organização da ONU. A instituição mais importante das Nações Unidas, que tem algum poder, de fato, é o Conselho de Segurança, mas basta um membro se opor para que uma ação não seja aplicada. Os Estados Unidos vão exercer seu poder de veto porque não vão votar contra os próprios interesses, portanto, não podemos esperar nenhuma resolução condenando o que aconteceu na Venezuela e exigindo a libertação do presidente Maduro”.
Fonte: saibamais.jor.br




