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Verdades esquecidas sobre um projeto de engorda de praia bem sucedido

Gostaria de fazer algumas observações sobre uma matéria publicada no Portal Saiba Mais, no dia 13/01/2026, sobre a engorda de Ponta Negra. Talvez, por ser novo no Rio Grande do Norte, o professor da UFRN, Venerando Eustáquio, desconhece que, em 2001, foi realizado o Projeto de Recuperação de Areia Preta, com a implantação de três (03) espigões e aterro hidráulico, principalmente no trecho denominado de Miami. Esse projeto foi apoiado pela Secretaria de Obras do Município de Natal através de um convênio com a FUNPEC/UFRN.

A situação em Areia Preta era extremamente crítica e o processo erosivo muito acentuado, com o mar destruindo a Avenida Silvio Pedrosa, causando sérios problemas ao trânsito e a destruição parcial da cortina de concreto na ladeira de acesso à Via Costeira, que exigia uma manutenção anual muito onerosa, estimada à época em R$ 800 mil, segundo informações da Secretaria de Obras.

Esse projeto fez parte do escopo da minha Tese de Doutorado, realizado junto à Universidade de Barcelona e a Universidade Politécnica da Catalunha, e pretendia inicialmente somente a engorda de todo o trecho da praia, ou seja, da Ponta do Morcego até a Ponta de Mãe Luiza. Contudo, através de modelização com softs apropriados, foi observado que ocorreria uma fuga de sedimentos em direção à Praia dos Artistas, ensejando a necessidade da implantação dos três espigões, garantindo assim a estabilidade do aterro hidráulico.

Em relação à engorda (aterro hidráulico), a proposta era aproveitar o material arenoso da dragagem a ser realizada no Porto de Natal, cujos estudos demonstravam possuírem as especificações técnicas apropriadas para a engorda da Praia de Areia Preta, barateando a obra e aproveitando um material de grande valia – que seria descartado aleatoriamente no mar. Entretanto, diante de impasses entre a Prefeitura de Natal e a CODERN, mais uma vez se assistiu a um desperdício expressivo de recursos.

Quanto ao andamento do projeto, ocorreu uma reação tamanha de desconhecimento e ignorância por parte de autoridades, setores da imprensa, classe política e até pessoal técnico, provocando atraso no andamento da obra – custeada com recursos da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC), que faz parte do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), naquela época denominado Ministério de Integração Nacional. O atraso provocou também a falta de recursos para realização da dragagem, lançamento do material na praia e consequente aterro hidráulico.

Ciente dessa situação, buscamos como solução aproveitar o material que estava sendo escavado durante a construção do Hotel Serhs na Via Costeira, que inclusive enfrentava dificuldades para o descarte desse material arenoso e que, por sorte, possuía especificações técnicas semelhantes às areias da Praia de Areia Preta.

Infelizmente, a quantidade de material não foi suficiente para finalizar o projeto. Ainda assim, serviu para recuperar e alargar a Praia de Miami, que se consagrou como uma das principais áreas de lazer da Cidade de Natal. No tocante aos outros trechos da Praia de Areia Preta, o aterro conseguido, juntamente com os espigões, cessaram definitivamente o processo erosivo – garantindo a segurança viária.

Ainda é importante ressaltar que a proposta previa também a urbanização dos espigões, a exemplo de cidades como Fortaleza, onde essas áreas se constituem como polo de lazer e turismo. Vale lembrar que o Projeto de Areia Preta era anterior ao da Praia de Iracema, em Fortaleza, mas devido aos entraves ocorridos aqui, a obra de lá foi finalizada antes – tendo sido urbanizada, alargada e melhorada ao decorrer dos anos, constituindo-se hoje na principal área de lazer e turismo daquela cidade cearense. Enquanto isso, aqui em Natal nada foi feito nesses 25 anos de finalização da obra.

O caso de Ponta Negra, por sua vez, não teve o desfecho almejado por falhas graves na execução. Afirmo isso por ter participado, como consultor técnico, da revisão pela Secretaria de Obras do EVTEA (Estudo de Viabilidade Técnica Econômico e Ambiental), elaborado pela empresa Tetratech, cujas conclusões apontavam a engorda como melhor solução, e que deveria obrigatoriamente, como é praxe universal e pleno conhecimento técnico, utilizar um material da mesmo tipo e com a mesma granulometria do original ou preferencialmente um pouco mais grosso, mas nunca sedimentos outros, como oriundos de recifes de algas calcária, ou melhor, rodolitos.

Da mesma forma, em relação à drenagem pluvial, ressaltava que deveria, obrigatoriamente, preceder a engorda, o que infelizmente não aconteceu.

Que esse esclarecimento sirva para resgatar a memória recente da cidade de  Natal e demonstrar que é possível promover obras de forma adequada, respeitando o conhecimento técnico, aplicando corretamente os recursos públicos e atendendo aos anseios da população.

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*Eugênio Cunha é geólogo e ex-diretor-geral do Idema na gestão Wilma de Faria

Fonte: saibamais.jor.br

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