
Por Margarida Dias, professora da UFRN
Recentemente li um romance intitulado São Amaranto em que o personagem principal fugia de seu país para denunciar a ditadura que lá se instalou. A história se inicia em 1977 e, chegando ao Brasil, ele tenta inutilmente executar a tarefa a que veio, mas depondo para jovens jornalistas e tendo sido publicado, sua narrativa é entendida como uma alegoria ao que acontecia no Brasil e, por isso, foi preso.
A semelhança das ditaduras latino-americanas também já foi cantada por Caetano Veloso em Podres Poderes e as oligarquias que se revezam nos poderes municipais, estaduais e nas casas legislativas federais também não é obra do realismo fantástico, embora seja matéria para esse gênero.
Também tenho ciência que a experiência condensada por Nicolau Maquiavel e expressa no livro O príncipe que, segundo consta, inaugura a ciência política com sua ética e forma de agir diferenciados, não é bem digerida pelos eleitores comuns, como eu. Perpassados pela moral cristã, muitas vezes, confundimos os valores e não conseguimos ver lógica e justiça, onde para as relações da política real, acontece.
O que tudo isso tem a ver com o governo da Professora Fátima e a indefinição que a mídia propaga sobre os rumos do estado a partir de abril, quando a governadora deve decidir se se afasta do governo para se candidatar ao cargo de senadora?
Talvez, a primeira relação ou particularidade seja o fato que a Professora Fátima é a primeira governadora não ligada as famílias que sempre comandaram o estado do Rio Grande do Norte. Isso não é pouco, embora não seja suficiente. Suficiente para inverter prioridades na gestão, por exemplo. Para uma eleitora comum, como eu, que acompanho a gestão pelas notícias, a Professora Fátima “arrumou a casa”, em detalhes. Não foi fácil, nem pouco. Não vou retomar dados sobre atrasos de salários, condições da segurança pública… Todos os possíveis dessas poucas linhas podem lembrar ou buscar na internet.
Foi feito um acordo entre as lideranças políticas e, neste momento, a Professora Fátima deveria deixar o governo nas mãos de seu vice, que governou junto com ela, e pleitear o senado.
O político em questão já avisou que não cumprirá o acordo. Como disse antes, na política, palavra dada, acordo firmado ou acerto anterior, não tem o peso que tem para o cidadão comum ou para os valores gerais da sociedade.
Para a Professora Fátima, vinda desse povo, deveria ter? Na minha humilde opinião de eleitora comum, sim. O governo eleito, por duas vezes, é do Partido dos Trabalhadores, é de uma mulher, professora, proveniente – repito – das classes populares e agente de uma política que não reprime adversários com falta de verbas, que não mistura os interesses públicos e privados, que dialoga e respeita a diferença.
Talvez isso seja pouco para a política real, talvez seja pouco para o cidadão e a cidadã que tem pressa pelas soluções da segurança, do emprego e da sobrevivência. Mas, isso não é pouco para uma mudança da sociedade, da construção de novos valores e para o reconhecimento e respeito de toda a população.
Ainda não vi nenhum argumento sólido que me convença da necessidade de a Professora Fátima Bezerra não optar pela conclusão do seu governo. Se outros não cumprem acordos, mesmo que admissível no mundo político, no mundo real, do calor das ruas e da luta diária dos trabalhadores, é a confiança que pesa.
Professora Fátima Bezerra, se a senhora quer escutar eleitores e cidadãos comuns, como eu, rompa mais uma vez os modelos estabelecidos, e fique. Termine seu mandato e mostre que não confiamos na senhora à toa.
Fonte: saibamais.jor.br