More
    spot_imgspot_imgspot_imgspot_img

    Como matar uma mulher sem deixar rastros?

    8.645 Seguidores
    Seguir
    spot_imgspot_imgspot_imgspot_img

    “Como matar uma mulher sem deixar rastros?”

    Essa pergunta foi feita ao Google 163 milhões de vezes em 2025, segundo dados do Anuário de Segurança Pública.

    Pasmem!

    O choque é ainda maior quando, conforme outros dados divulgados pelo IBGE, tomamos consciência que a população estimada do Brasil nesse mesmo ano é de 213,4 milhões de habitantes. É como se somente 50, 4 milhões de brasileiros não estivessem interessados em matar uma mulher sem deixar rastros.

    É curioso, ou trágico, como o Brasil conseguiu transformar o feminicídio em culpa da vítima. A mulher morre e o que fica é a manchete: Uma mulher foi morta… NÃO! O texto deveria estar na voz ativa: Um homem matou mais uma mulher.

    Um homem que assassinou uma mulher porque possui um ódio bem treinado, um ressentimento disciplinado, uma pedagogia da posse que começa no berço, passa pela igreja, pela escola, pela mesa do bar, pela mesa do jantar, pela mesa de decisões, todas, historicamente, sem mulheres.

    Esta semana, o presidente da República sancionou o Pacto Nacional de Prevenção à Violência contra as Mulheres. Um pacto. Uma palavra bonita, solene, quase romântica, se não fosse trágica. Um pacto para que mulheres não sejam mortas por quem diz amá-las. Um pacto para que o óbvio, “não mate mulheres”, precise ser transformado em política pública, orçamento, campanha educativa, capacitação de profissionais, monitoramento de risco, botão do pânico, casa-abrigo, medida protetiva, tornozeleira eletrônica, disque-denúncia, fila prioritária, estatística, relatório, plano, comissão, grupo de trabalho, audiência pública, nota de repúdio, luto oficial.

    O pacto é necessário. Urgente. Fundamental. Mas também é sintoma. Sintoma de uma sociedade que ainda não conseguiu ensinar seus homens que amor não é posse, que cuidado não é controle, que ciúme não é zelo, que “quem ama não mata” não é slogan, é regra básica de convivência humana.

    Enquanto isso, seguimos assistindo ao teatro da heterossexualidade, esse grande espetáculo onde homens performam virilidade, poder, força, domínio e mulheres performam paciência, tolerância, resiliência, silêncio.

    Segundo a filósofa americana Marilyn Frye:

    “Dizer que um homem é heterossexual implica somente no fato de que ele mantém relações sexuais exclusivamente com o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que diz respeito ao amor, a maioria dos homens heterossexuais reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram, respeitam, adoram, reverenciam, a quem honram, imitam, idolatram e formam profundos vínculos, a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender, e cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam, essas são, esmagadoramente, outros homens. Nas suas relações com as mulheres, o que passa por respeito é bondade, generosidade ou paternalismo, o que passa por honra é a remoção do pedestal. Das mulheres querem devoção, serviço e sexo.’’

    Trocando em miúdos: homens se amam entre si. A nós, mulheres, resta o papel de serviçais emocionais, sexuais, domésticas, espirituais. Querem de nós devoção, serviço e sexo. Amor mesmo, guardam para os amigos, os chefes, os líderes, os “irmãos”.

    Talvez por isso matem com tanta facilidade. Porque não amam. Possuem.

    E não, não me venham com a desculpa do álcool, da droga, da crise financeira, da infância difícil, do desemprego, da traição, do ciúme, do “surto”. A violência contra a mulher não é um desvio individual: é um projeto social. É uma estrutura. É uma pedagogia. É uma política não declarada, mas eficaz.

    Enquanto isso, seguimos ensinando nossas meninas a atravessar a rua mais rápido à noite, a não usar tal roupa, a não olhar nos olhos, a não provocar, a não confiar, a não ir sozinha, a não rir alto, a não existir demais. E seguimos ensinando nossos meninos a não chorar, a não pedir ajuda, a não demonstrar afeto, a não perder, a não recuar, a não ouvir, a não respeitar, a não aceitar não como resposta.

    O pacto sancionado esta semana não é um favor às mulheres. É uma dívida histórica. É o mínimo. É o Estado, finalmente, reconhecendo que o problema não está na mulher que denuncia, mas no homem que agride. Que o problema não é a mulher que “escolheu mal”, mas uma sociedade que educa mal. Que o problema não é a mulher que “não saiu a tempo”, mas um sistema que não oferece saída, abrigo, proteção, renda, autonomia, rede de apoio.

    E aqui faço questão de registrar: não basta proteger mulheres depois da violência. É preciso impedir que ela aconteça. É preciso agir antes do primeiro tapa, antes da primeira ameaça, antes da primeira humilhação, antes do primeiro controle, antes da primeira chantagem emocional, antes da primeira “brincadeira” que dói, antes da primeira porta batida, antes do primeiro “se você me deixar, eu te mato”.

    Mas vamos ser honestas: não adianta esse pacto sancionado sem pacto social. Não adianta lei sem mudança cultural. Não adianta política pública sem revisão profunda das masculinidades. Não adianta tornozeleira se o tornozelo continua acreditando que o corpo da mulher é propriedade privada.

    E, sim, eu vou debochar. Porque às vezes só o deboche dá conta do absurdo. Vamos fingir, por um minuto, que o problema é a mulher. Que ela fala demais, que ela provoca, que ela trai, que ela não sabe se comportar, que ela não respeita o homem, que ela quer direitos demais, que ela quer igualdade demais, que ela quer viver demais. Vamos fingir que o problema não é um sistema inteiro que ensina homens a odiar mulheres com flores, músicas românticas, pedidos de casamento ajoelhados e promessas de “até que a morte nos separe”, (e, às vezes, separam mesmo, e quase sempre, quem morre é ela).

    O pacto é uma tentativa de romper esse ciclo. De interromper essa herança de violência passada de pai para filho, de avô para neto, de tio para sobrinho, de vizinho para vizinho, de pastor para fiel, de professor para aluno, de chefe para funcionária, de namorado para namorada, de marido para esposa, de ex para ex.

    Mas não nos iludamos: o pacto não é varinha mágica. Ele não vai impedir que amanhã, em alguma casa, em algum bairro, em alguma cidade, uma mulher seja espancada, estuprada, esfaqueada, enforcada, queimada, jogada da janela, enterrada no quintal, esquecida na estatística. O pacto não ressuscita ninguém. Ele apenas tenta impedir a próxima morte.

    “Isso já é muito” – dirão. Mas ainda é pouco.

    Porque o que precisamos, de fato, é um pacto com a vida das mulheres. Um pacto que comece na infância, passe pela escola, pela família, pela mídia, pelas igrejas, pelos bares, pelos estádios, pelos tribunais, pelos palácios, pelas casas, pelos quartos, pelas camas. Um pacto que diga, sem rodeios: mulher não é coisa, não é prêmio, não é posse, não é propriedade, não é extensão do ego masculino, não é depósito de frustrações, não é saco de pancadas emocional, não é alvo de ódio mascarado de amor.

    Enquanto isso não acontece, seguimos enterrando mulheres. Seguimos velando corpos. Seguimos escrevendo colunas. Seguimos contando números. Seguimos nomeando vítimas. Seguimos perguntando “por quê?”. Seguimos respondendo “por causa do machismo”. Seguimos vivendo como se isso fosse natural. Seguimos indo trabalhar no dia seguinte. Seguimos.

    Mas não deveríamos seguir assim.

    Talvez o pacto seja o começo de uma interrupção. Um ponto fora da curva. Uma tentativa de romper a repetição. Uma fresta. Uma rachadura nesse muro grosso que separa o discurso da prática, a lei da vida, o direito da realidade, a proteção do abandono.

    E, se você chegou até aqui pensando “isso não é comigo”, sinto informar: é. Porque o feminicídio não começa no soco. Começa na piada. No silêncio. Na conivência. No “não é bem assim”. No “tem dois lados”. No “mas ele era tão bom rapaz”. No “ela também provocava”. No “não sabemos o que aconteceu entre quatro paredes”. No “mas ela é louca por ele”.

    A pergunta acessada 163 milhões de vezes “como matar uma mulher sem deixar rastros?” permite escancarar uma realidade tão absurda, tão chocante, revela uma face tão sombria sobre como a sociedade machista, patriarcal e misógina vê e trata todas as mulheridades, que me faz pensar sobre como nós, mulheres, resistimos a tudo isso, vivendo tão ameaçadas?

    Que o pacto recém-sancionado não seja apenas mais um papel bonito em uma gaveta feia. Que seja instrumento, ferramenta, escudo, espada, rede, abrigo, farol. Que seja, sobretudo, um compromisso real com a vida das mulheres.

    Porque nós já fizemos pactos demais com a morte.

    E, francamente, está na hora de quebrá-los.

    Fonte: saibamais.jor.br

    spot_imgspot_imgspot_imgspot_img

    Veja tambem

    spot_imgspot_img

    Related articles

    DEIXE UMA RESPOSTA

    Por favor digite seu comentário!
    Por favor, digite seu nome aqui

    spot_imgspot_img