Ângelo Desmoulins Tavares, o Jotó, já nem sabe ao certo o tanto de molduras e pinturas que fez ao longo da vida (“eu faço muita, muita, muita moldura”). Aos 75 anos, o artista plástico pernambucano que adotou Natal como lar passa seus dias em seu ateliê na Cidade Alta, mesmo local onde vive com sua cadelinha Nega. O espaço, rodeado de todo tipo de objeto, é onde Jotó produz e recebe amigos e clientes que o procuram em busca do seu traço artesanal para as molduras, que fizeram dele referência para a arte personalizada.
Nomes como Dorian Gray e Newton Navarro tinham obras de Jotó. “De rapazinho”, conta, ele já fazia molduras, mas foi aperfeiçoando o traço com o tempo. A reportagem visitou o artista na quarta-feira (24), um dia depois de Jotó ganhar destaque nas redes sociais com uma publicação da arquiteta e urbanista Wire Lima, que descreveu o ateliê do artista plástico como um verdadeiro “tesouro da cidade”. A publicação tinha quase oito mil curtidas até esta sexta (26).
Ao chegar no endereço localizado na Rua Vigário Bartolomeu, 563, Jotó conversava do outro lado da calçada com o sociólogo e cliente Renan Matheus, que se disse apaixonado pelo trabalho do artista, a quem já compra quadros e molduras há mais de 10 anos. Torcedor do América, Renan também aproveita para comprar novas obras do clube a cada vez que o time é campeão.
“Eu acho que o que chama mais atenção é o tipo de traço que ele tem de moldura de quadro. Ele faz em madeira maciça, ele tem uns tipos de madeira que ele seleciona que é muito bacana”, descreve.
Uma das molduras preferidas do artista (veja mais abaixo), dispostas em seu ateliê, carrega também pinturas próprias. Jotó é adepto da Arte naïf, termo utilizado como sinônimo de arte ingênua, original e/ou instintiva. Jotó nunca estudou arte formalmente; tudo o que aprendeu veio de maneira autodidata.
“Aquela eu fico mais feliz porque realmente é uma moldura que eu, além de fazer a moldura, ainda faço o desenho dela”, conta o moldurista.
Desmoulins já fez diferentes exposições em Natal, individuais ou coletivas. Uma das últimas, o “Em torno do Beco”, foi realizada em 2021 na Galeria da Funcarte. Participaram mais 13 pintores além de Jotó: Alexandre Ribeiro, Verônica Maria, Tony França, Fábio Eduardo, Arthuri, Assis Marinho, Nilson Araújo, Francisco Eduardo, Dilson Oliveira, Valderedo Nunes, Rogério Silva e Girotto.
As dores causadas por problemas na coluna, além das mais de sete décadas de vida, fizeram o artista plástico diminuir um pouco o ritmo de trabalho. Ainda assim, não para de pintar ou produzir novas molduras.
O artista também faz molduras convencionais, daquelas mais fáceis de encontrar pelas lojas, mas gosta mesmo é quando pode criar à sua maneira, fazendo traços diferentes com o estilete. Para ele, a criação é uma força de ampliar suas dimensões artísticas.
“Não é muito bom só fazer uma moldura dessa daqui [convencional]. Ela não me atrai, mas desde quando eu já boto alguma coisa nela, então eu já sinto algo mais”, diz.
Fonte: saibamais.jor.br





