* Márcio Alexandre
Todo mundo cria – ou deveria criar – seu mundo próprio. Aquele espaço-tempo em que você exerce-se. Estabelece suas prioridades, vive suas verdades, imagina suas vontades. E as coloca em prática. Sem isso significa deixar de gostar de ninguém. Nem deixar de continuar se preocupando com o outro. De cuidar, inconscientemente, de quem cuidamos.
Aquele momento em que nada diz respeito a nenhum outro vivente. Só a você. Com suas contradições, seus paradoxos, suas incongruências. Sim, porque talvez seja nessas coisas onde ser o que somos não magoa ninguém. Porque as verdades puras e as certezas cristalinas parecem sempre precisar de validação. Estão sempre sob o escrutínio do outro. Como se a mesmíssima verdade não nos pudesse ser vistas apenas sob o nosso olhar. Sem a pujante necessidade do exercício da alteridade julgadora. Sem que isso seja visto como excentricidade ou que seja o enredo das teses dos maledicentes. Recusar selos fere sensibilidades.
Um tempo para pensar em voz ativa e expressar o que pensamos em caixa alta, tendo como espectadores nossas frustrações mais confortantes e nossas conquistas mais perturbadoras. Um momento para fugir do rótulo. Para não caber na garrafa. Escutando apenas os sons de nossa coragem e a trilha sonora dos nossos medos.
Talvez essa mundo seja apenas ficção. Como essa crônica.
* Professor e jornalista
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Fonte: Na Boca da Noite

