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* Márcio Alexandre
Antigamente, morria-se de fome. Hoje, morre-se de inanição. Mas não é qualquer uma delas. Morre-se de inanição de afetos.
Morre-se pelo beijo não dado. Pela ligação não feita. Pelo abraço não correspondido. Pela visita não recebida.
Morre-se do abandono. Morre a mãe que foi largada pela filha. O filho que foi deixado pelo pai. A filha que foi rejeitada pela mãe.
Morre-se da percepção. De se saber que o orgulho virou rejeição. A doença virou praga. A imagem da si virou vergonha.
Porque tudo isso causa dor. E é “a dor que dói mais”. Por isso se morre de tristeza. Que é a morte mais triste. Que não são nos jornais. Que não gera manchetes. Que sequer dá no atestado de óbito. Porque necrópsia investiga o corpo, tristeza marca a alma e dilacera o coração.
Quase sempre quem morre de tristeza morre sozinho. Porque é só a constatação do abandono. O recibo do mal sofrido. O laudo da indignação acumulada. Para o causador buscar culpados. Para a culpar bater no próprio peito.
Quem mata de tristeza tem certeza da morte que causou. É visível no ressentimento. É perceptível no remorso. É detectável na falta de humanidade.
Tudo isso explica o mal que são. A monstruosidade que representam. Fazem tudo isso se aproveitando da morte que causaram. E vão continuar causando. Impunidade sempre fortalece mais quem mata por prazer de ser quem se é.
* Professor e jornalista
Fonte: Na Boca da Noite

