* Márcio Alexandre
A gente está evitando. O incômodo, o desconforto. A gente só quer o mais fácil. O mais limpo. O menos insalubre.
A gente desacostumou. A andar de pés descalços. A correr na chuva. A viver no improviso.
A gente quer o fácil. O previsível. A gente quer ladrilhos.
A gente tem nojo do imponderável, abomina o impensável e assim, evita o que pode nos salvar.
A gente só quer o que todo mundo está querendo.
A gente está insuportável. É por isso que está tão fácil nos dividir. Porque gosto virou torcida. Vontade virou disputa. Querer virou negócio.
Nos inutilizamos enquanto pessoa. Viramos um quase nada enquanto humano. Nos coisificamos. Temos até números. De seguidores e curtidas. De Comentários e visualizações. Estamos nos arredondando para menos.
Assim a gente se abusa. Porque tudo virou performance. O encontro não é necessidade, é marketing. A foto não é registro, é propaganda. Nada mais vai para o passado. É sempre o agora querendo lucrar. Links, likes. A gente virou produto e adorou isso mesmo que muitos não percebam o risco disso.
Ou a gente determina o que quer ou vai ser superado pela que não queremos. Quintal sem areia é bonito, mas não gera vida.
# Professor e jornalista
Foto – Getty Images
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Fonte: Na Boca da Noite

