Foi a partir do Rio Grande do Norte que uma das campanhas mais importantes pela repatriação de fósseis brasileiros ganhou força nos últimos anos. A paleontóloga Aline Ghilardi, professora e pesquisadora do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, está entre os principais nomes da mobilização pelo retorno do Irritator challengeri, dinossauro brasileiro de cerca de 113 milhões de anos que está sob guarda do Museu Estatal de História Natural de Stuttgart, na Alemanha.
O caso teve um novo capítulo durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Alemanha, em abril de 2026. Em declaração conjunta assinada em Hannover, os governos do Brasil e da Alemanha registraram a disposição do Estado de Baden-Württemberg e do Museu Estatal de História Natural de Stuttgart em devolver o fóssil do Irritator challengeri ao Brasil, no contexto de uma cooperação científica entre os dois países.
Nas redes sociais, Aline comemorou o avanço, mas fez questão de lembrar que a conquista não veio sem desgaste. “Estou genuinamente feliz em ver um sinal tão forte em direção ao retorno de Irritator challengeri ao Brasil. Lutamos muito por isso”, escreveu. Para ela, o retorno do fóssil vai muito além da devolução de uma peça científica. Representa a reparação de uma história marcada pela retirada de patrimônio brasileiro, pela exclusão de pesquisadores locais e pela necessidade de reconhecer que fósseis também carregam memória, identidade e pertencimento.
O Irritator challengeri é um dos fósseis mais importantes já retirados do Brasil. O crânio, encontrado na Bacia do Araripe, no Ceará, foi comprado pelo museu alemão em 1991 de um negociante privado. Pesquisadores que estudaram o material identificaram nele o crânio de espinossaurídeo mais completo conhecido até hoje.
O nome “Irritator” surgiu justamente da irritação dos cientistas ao descobrirem que o fóssil havia sido adulterado, com partes do focinho modificadas para parecer mais completo e, portanto, mais valioso no mercado. A segunda parte do nome, “challengeri”, é uma homenagem ao professor Challenger, personagem de “O Mundo Perdido”, de Arthur Conan Doyle.
A discussão central, no entanto, ultrapassa a curiosidade científica. Desde 1942, a legislação brasileira estabelece que os depósitos fossilíferos são propriedade da Nação e que a extração de espécimes fósseis depende de autorização prévia e fiscalização do órgão competente. Por isso, pesquisadores brasileiros argumentam que fósseis retirados do País sem autorização não devem permanecer em museus ou coleções estrangeiras como se fossem apenas objetos de pesquisa internacional.

A campanha pelo retorno do Irritator ganhou força depois de outra vitória simbólica: a repatriação do fóssil de Ubirajara jubatus, também retirado da Bacia do Araripe e mantido por anos na Alemanha. A partir desse precedente, paleontólogos, juristas e pesquisadores passaram a pressionar pela devolução de outros exemplares brasileiros. No caso do Irritator, uma carta aberta reuniu centenas de assinaturas de especialistas, enquanto uma petição pública ultrapassou 34 mil apoios. A pesquisadora da UFRN é uma das líderes das campanhas.

Aline Ghilardi destacou que a mobilização popular foi decisiva. Em sua publicação, agradeceu aos pesquisadores que estiveram na linha de frente da campanha e também às pessoas que compartilharam a hashtag, assinaram o abaixo assinado e pressionaram instituições alemãs e brasileiras. “Independentemente do que digam, foram vocês, sobretudo vocês, que tornaram isso possível”, escreveu.
Ainda não há data definida para a chegada do fóssil ao Brasil, nem confirmação oficial sobre a instituição que ficará responsável por sua guarda. Também existem críticas ao vocabulário usado na declaração conjunta, que fala em “entregar” o fóssil ao Brasil, e não em “repatriar” ou “restituir”. Para parte dos especialistas, essa diferença importa porque evita reconhecer de forma mais direta a dimensão histórica e política do caso.
Mesmo assim, o avanço é considerado um marco. Para a paleontologia brasileira, o retorno do Irritator challengeri pode fortalecer a pesquisa nacional, ampliar o acesso de cientistas brasileiros ao material original e aproximar a população do patrimônio fossilífero do País. Para o Nordeste, especialmente para a região do Araripe, o fóssil tem ainda um peso simbólico maior: ele pertence a uma história geológica enraizada no sertão e pode ajudar a formar novas gerações de pesquisadores.

Como resumiu Aline, a luta é difícil, expõe pessoas e cobra um preço. Mas também pode mover instituições, governos e museus. “Acreditem: revoluções são possíveis. E são vocês que as fazem acontecer.”
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Fonte: saibamais.jor.br





