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É o fresco, é?

Adoro refletir e debater sobre comportamentos humanos. E também amo me debruçar sobre particularidades de linguagem, em especial as regionais. A junção entre esses aspectos pode levar a boas análises sociais e comportamentais, além de permitirem investigações sobre identidade regional. Recordo de um texto sensacional e divertido do amigo escritor e editor Carlos Fialho sobre a palavra “galado”, que como todo potiguar sabe, possui dezenas de significados e abrange um léxico riquíssimo.

Dia desses refleti sobre uma expressão também genuinamente norte-riograndense e que se presta a um universo de análises e significantes: “é o fresco, é?” A princípio, principalmente para sudestinos e sulistas, pouco afeitos às variantes do léxico nordestino, a frase pode parecer incompreensível. Mesmo para nordestinos de outras cepas e estados talvez ela não seja familiar nem de fácil assimilação.

Vamos à ela. Formulada como uma pergunta, a partir da obrigatória inflexão interrogativa da frase, é na verdade um comentário afirmativo irônico indicando que o sujeito a quem a expressão é dirigida tem um defeito, gerado por algum dos dois possíveis significados da palavra “fresco” (além de suas implicações e expansões, claro).

Explica-se: usa-se “é o fresco, é?” perguntando mas, na verdade afirmando ou reforçando, quando, por exemplo, o sujeito é pego em situação de fragilidade ou fraqueza (uso do termo “fresco” referente à “frescura”, como sudestinos fazem). Exemplificando: um grupo de amigos tem o carro com pneu furado na estrada. Um deles diz que não quer trocá-lo para não sujar as mãos de graxa. Os outros disparam: “É o fresco, é?”, criticando a mania de limpeza em momento inadequado.

Mas há uma evidente pegada homofóbica no uso do termo à moda nordestina. Quando a frase serve para denotar qualquer indicativo, por mais idiota que seja, de homossxualidade (que historicamente não é aceita na vida social) real ou imaginada. Um amigo surge na festa com uma camisa cor-de-rosa. Algum cabra macho necessariamente vai comentar: “é o fresco, é?”.

Contudo, podemos usar essa gíria tradicional (e regional) para expandir o raciocínio e adentrar um tema muito em voga atualmente, o da masculinidade frágil e variantes como os incels e red pills (que em maior e menor escala geram um caldo sócio-cultural que deságua na violência contra a mulher e LGBTQIA+ e feminicídios). Homens normativos socialmente héteros têm imensa dificuldade em aceitar/entender qualquer comportamento que não esteja dentro de seu molde de “como deve ser um homem-macho como meu pai e meu avô”.

Dessa maneira a crítica debochada em “é o fresco, é?” serviria para uma gama imensa de comportamentos masculinos (de héteros ou gays) que não se adequem aos padrões rígidos (e também utópicos) da linha de pensamento do “macho tradicional”. Ouve música clássica? “É o fresco, é?”. Cuida das unhas? “É o fresco, é?”. Assistir patinação artística? “É o fresco, é?”. Não curte futebol ou UFC? “É o fresco, é?”. Em vez de cerveja, prefere drinks? “É o fresco, é?”. E por aí vai.

Recordo até de um momento divertido com um amigo querido, coração grande e um amor de pessoa, mas normativo e, digamos, tradicionalista. Uma vez ele me dava uma carona em seu carro e ligou o som numa rádio. De um rock bobo, a set list pulou para “Love hurts”, clássico da banda escocesa Nazareth, e quando eu começava a curtir a guitarra e a voz rasgada do vocalista ele disparou: “Dois machos no carro e uma música romântica dessas? Vou mudar de estação. É o fresco, é?”.

Em suma, o imenso leque de comportamentos que tornam o homem “fresco” deve colocar o percentual de “cabras machos” de verdade em níveis ínfimos. Estamos falando, claro, de vida social, pois predileções sexuais e desejos íntimos, ficam entre quatro paredes e acabam fugindo dos julgamentos contidos no “É o fresco, é?”. Lembro de uma reportagem que fiz nos anos 2000 para o finado Jornal de Natal sobre as travestis que faziam ponto na Avenida Engenheiro Roberto Freire, entre Capim Macio e Ponta Negra, Depois de muito diálogo, negociação e pagar umas bebidas, três concordaram em conversar comigo com o gravador ligado. Perguntei qual o perfil de cliente que elas atendiam. Todas responderam a mesma coisa, que quase 100% dos homens com quem saíam eram casados e com pinta de machões. Queriam ser passivos, não ativos.

Na verdade o uso da expressão e do termo “fresco” de forma pejorativa, evidencia a clara e terrível relação cultural entre termos que se referem à homossexualidade e ofensa. Não por acaso, sinônimos populares de homossexual masculino, como “viado”, “baitola”, “boiola” são xingamentos de um homem para outro quando quer odender, agredir e diminuir.

O vocabulário de diminuição da outra pessoa devido à sua orientação sexual atinge de igual forma histórica às mulheres (de “filho da puta” ao regional “rapariga”) e pode legitimar a misoginia, mas é outro assunto tão amplo que pode ser tema para outro texto. E muitas mulheres vem escrevendo textos excepcionais e didáticos sobre essa questão.

Sobre o amigo que não queria ouvir “Love hurts” no carro comigo, me dei conta que quando ele ler que citei o seu coração grande e o defini como um amor de pessoa, ele não vai se conter e vai pensar: “É o fresco, é?”. Imagine se ele soubesse que minha playlist preferida no Spotify é com músicas do ABBA?

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Fonte: saibamais.jor.br

Cefas Carvalho

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