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Juliano Freire transforma afeto e cotidiano popular em literatura infantil

“Escrever para crianças vai muito além da simplicidade. É um compromisso com a formação de novos leitores.” A reflexão do jornalista e escritor Juliano Freire atravessa não apenas sua visão sobre literatura infantil, mas também toda a trajetória que construiu ao longo de duas décadas dedicadas ao gênero. Agora, o autor lança seu quinto livro, “A cachorrinha que aprendeu a ler”, obra que transforma o cotidiano de uma família trabalhadora em uma narrativa sobre leitura, afeto e descoberta.

O lançamento acontece nesta sexta-feira, 8 de maio, a partir das 17h, na Pão & Companhia, em Natal. Publicado pela editora Ases da Leitura, sob o selo Asinha, o livro também está disponível em plataformas digitais.

O interesse pela literatura infantil

Embora a literatura infantil tenha se tornado seu principal campo de atuação, Juliano conta, em entrevita à Agência Saiba Mais, que o impulso para escrever começou ainda cedo. Aos 12 anos, criava romances policiais em cadernos escolares, influenciado pelos seriados de televisão que assistia na época. As histórias, segundo ele, eram ambientadas em cidades como Nova York e Paris, numa imaginação já atravessada pelo desejo de narrar.

Mais tarde, veio o jornalismo. E com ele, uma compreensão mais profunda sobre construção narrativa, observação e compromisso com a escrita.

“Jornalismo é uma base. Os porquês e comos da profissão, a linearidade, a objetividade e o compromisso em ser fiel ao que se escreve, mesmo que seja ficção, são alicerces para o contar”, afirma.

Para o escritor, a experiência como repórter ajudou a desenvolver uma forma de escrita que respeita o leitor e valoriza a clareza das histórias. “Como repórteres aprendemos a encadear narrativas e contá-las com profissionalismo. Acho que trouxe isso para a construção das histórias”, explica.

Apesar disso, foi a paternidade que abriu definitivamente o caminho para a literatura infantil. Juliano relembra que começou a criar histórias oralmente para o filho ainda pequeno, que se tornou seu primeiro ouvinte e também seu primeiro crítico.

“Meu primeiro filho, quando criança, foi meu primeiro ouvinte e leitor das histórias que criei. Pedia para contar de novo e de novo e elas foram ficando gravadas na memória”, conta.

A partir dessa experiência afetiva, o escritor passou a transformar as narrativas em livros. Desde então, construiu uma produção marcada por personagens populares, situações cotidianas e histórias atravessadas por mistério, transformação e sensibilidade.

Entre os títulos publicados por ele estão “Doninha e o Marimbondo”, “Pereyra – o menino bom de bola”, “Felizardo contra a bruxa da feira” e “Gumercindo mora no castelo”.

O novo livro

Em “A cachorrinha que aprendeu a ler”, Juliano aposta em uma protagonista inusitada: uma poodle que passa a compreender o universo das palavras através da convivência com Dona Gertrudes e sua neta, Lúcia, integrantes de uma família urbana, miscigenada e trabalhadora que mantém o hábito da leitura dentro de casa. Na trama, a cachorrinha acompanha silenciosamente o cotidiano da família enquanto observa livros, escuta conversas e cria vínculos afetivos. O autor define a personagem como uma “memorialista” das pequenas cenas do cotidiano.

“A cachorrinha traz na retina os momentos de aconchego, aprendizado e evolução. Em um lar urbano, no meio de uma família brasileira comum, um animal é capaz de aprender letras, palavras, textos e significados”, afirma.

Além da dimensão lúdica, o livro também carrega uma reflexão sobre acesso à leitura e democratização do conhecimento. Juliano explica que fazia questão de ambientar a narrativa em uma família trabalhadora justamente para reforçar que o estímulo à leitura não deve ser privilégio de poucos.

“Apesar de o livro ainda ser um artigo pouco acessível para parte da população, seja por questões econômicas ou culturais, é importante enfatizar sua importância para o desenvolvimento das pessoas e o amadurecimento do país”, observa.

O autor relaciona essa escolha diretamente à própria trajetória pessoal. Nascido e criado no bairro do Alecrim, em Natal, ele relembra uma infância sem luxo, mas cercada por livros, revistas e enciclopédias.

“Vim de um lar assim. Sem luxos ou coisas supérfluas, mas onde não faltava recurso para compra de livros”, diz.

Para Juliano, a literatura infantil ocupa um papel decisivo na formação de leitores capazes de transitar futuramente por diferentes gêneros e estilos literários. “A literatura infantil é a porta de entrada para leituras em diversos níveis”, afirma.

Mesmo diante da concorrência com telas, redes sociais e jogos eletrônicos, ele acredita que a leitura seguirá ocupando um espaço essencial na vida das pessoas. “Hoje, a leitura disputa espaço com games, distrações eletrônicas e telas. Mas ela não acabará”, pontua.

O processo de criação de A cachorrinha que aprendeu a ler começou no início de 2025 e levou cerca de um ano até se transformar em livro físico. Segundo o autor, a escrita acontece de maneira espontânea, quase inevitável.

“As histórias ficam na minha cabeça, em desenhos, rostos, imagens em movimento. Não sossego até colocá-las no papel ou na tela”, conta.

Ao olhar para a própria produção, Juliano afirma que seu principal compromisso continua sendo provocar reflexão sem abandonar o encantamento característico da literatura voltada às crianças. “Procuro passar uma mensagem que faça pensar”, resume.

O escritor também aproveita o lançamento para defender maior valorização da literatura infantil produzida no Rio Grande do Norte. Para ele, existe uma produção potiguar qualificada, mas ainda carente de oportunidades e visibilidade nacional:

“Há literatura infantil produzida no Rio Grande do Norte com qualidade para estar no cenário nacional e de fora também. O que autores e autoras precisam é de oportunidade”, finaliza.

SAIBA MAIS:
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Fonte: saibamais.jor.br

Gil Araújo

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