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“Não sei dançar” – Uma crônica-poesia sobre a exaustão

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Não sei dançar”, nomeou, Bandeira, um de seus poemas. Não sei parar, digo eu.

E nisso talvez more a nossa mais sincera coreografia: a do tropeço no passo da dança da vida. Porque se o poeta confessa a inabilidade do corpo diante da música, eu confesso a incapacidade da pausa diante da vida. 

Não sei parar. 

Não sei desligar. 

(Mas estou aprendendo, disse minha psicóloga, hoje mais cedo). 

Não sei existir sem a lista de tarefas me piscando o olho, sedutora e tirana, como quem diz: 

Venha! 

Você ainda pode mais!

Acordo às cinco e pouco com a impressão de que vou me atrasar, embora o dia nem tenha começado oficialmente. 

Café apressado, ou uma fruta engolida no caminho da escola. 

(Quando muito!) 

Bolsa pesada. 

Voz ainda rouca. 

Trinta e duas aulas distribuídas em quatro dias da semana. O número, dito assim, parece estatística de edital. 

Mas ele tem peso; 

tem cheiro de quadro branco; 

tem marcas de tinta de pincel pra quadro grudadas na roupa; 

tem garganta seca no final do terceiro turno.

Trinta e duas vezes eu entro em sala.

Trinta e duas vezes eu cumprimento as turmas.

Trinta e duas vezes eu me reorganizo para caber na vida de pessoas que nem sempre querem caber em mim.

É curioso como a exaustão não chega de repente. Ela se instala como um inquilino silencioso. 

Primeiro ocupa os ombros. 

Depois o maxilar. 

Por fim, a alma. 

Quando vejo, estou corrigindo atividades às onze da noite com a sensação de que, se eu parar, algo desmorona, embora eu mesma já esteja meio em ruínas.

Lembro então de Byung-Chul Han e sua análise sobre essa tal “sociedade do desempenho”, apresentada em seu livro A Sociedade do Cansaço. Ele fala de uma positividade excessiva. Não é mais o “você deve”, mas o “você pode”. E esse “você pode” é mais cruel do que qualquer imposição externa, porque ele vem mascarada 

de liberdade, 

de autonomia, 

de escolha.

Você pode dar mais aulas!

Você pode aceitar mais uma turma!!

Você pode produzir mais!!!

Você pode ser melhor!!!!

Você pode se reinventar!!!!!

E quando você pode, você deve. E quando você deve, você não para.

Não há mais o patrão com chicote. Há o sujeito empreendedor de si mesmo, explorando a própria energia como se fosse recurso inesgotável. Eu mesma me exploro com uma disciplina quase admirável. Organizo planilhas, planejo sequências didáticas, leio textos na fila do banco, respondo mensagens no intervalo do lanche, sorrio, incentivo, estimulo, motivo… Às vezes, me torno a professora produtiva, 

criativa, 

resiliente.

E profundamente cansada. 

(Estresso-me e arengo com o vento, nesses momentos).

Mas há um outro lado (e ele me envergonha um pouco!). 

Quando o calendário esvazia. 

Quando, por algum motivo, não há 32 aulas me esperando. 

Quando a rotina desacelera. 

Quando o silêncio se instala na casa como uma visita longa demais.

A ausência da correria não me traz imediatamente alívio. Traz angústia.

É desesperador ficar muito tempo sem essa rotina atarefada. Como se a falta de cansaço revelasse uma falta de valor. 

Se não estou exausta, estou sendo suficiente? 

Se não estou ocupada, estou sendo útil? 

Se não estou no limite, estou realmente vivendo? 

E esse desespero vem de muito cedo, quando eu entendi que produzindo, sendo útil, sendo proativa, disponível e solícita, estando sempre em atividade, eu seria aceita.

A sociedade do desempenho não nos ensinou apenas a produzir. Ensinou-nos a medir a própria dignidade pela nossa funcionabilidade, pelo que podemos oferecer e pela nossa exaustão. Cansaço virou medalha. 

“Olhe como eu estou esgotada!” 

(Isso prova que eu sou importante). 

“Olhe minhas olheiras!” 

(Elas são quase um currículo).

E eu, que não sei parar, fico entre dois abismos: o da sobrecarga e o do vazio.

Quando estou no auge da correria, sonho com uma semana leve, com tardes silenciosas, com tempo para ler poesia sem transformar o poema em plano de aula. Sonho em deitar em uma rede às três da tarde e não sentir culpa. Sonho em não responder imediatamente a todas as demandas. Sonho com a lentidão.

Mas quando a lentidão chega, ela não vem romântica. Ela vem crua. Escancara minhas inseguranças. Sussurra que talvez eu só saiba existir na urgência. Que talvez eu precise do barulho para não escutar certas perguntas. 

Para que eu não encare meus pensamentos, 

meus medos, 

minhas inquietudes, 

o desconhecido que habita em mim…

Quem sou eu quando não estou exausta?

Quem sou eu quando não estou produzindo?

Quem sou eu quando não estou sendo necessária?

Talvez o maior paradoxo seja esse: a rotina me cansa, mas também me organiza. A correria me desgasta, mas também me estrutura. As 32 aulas me drenam, mas também me oferecem sentido. 

Há algo de profundamente humano no encontro com os estudantes, mesmo quando esses encontros me esgotam. 

Há algo de vital em preparar uma aula que acende um olhar. 

Há algo de quase sagrado na troca.

E, no entanto, não deveríamos precisar adoecer para nos sentirmos vivos.

Byung-Chul Han fala da violência neuronal, essa que não deixa marcas visíveis, mas implode por dentro. A depressão, o burnout, a ansiedade são sintomas de uma sociedade que transformou o “poder fazer” em imperativo absoluto. Nós nos tornamos projetos intermináveis de otimização. 

Melhor versão. 

Melhor desempenho. 

Melhor resultado.

E onde fica o direito ao cansaço que descansa?

Onde fica a pausa que não é fracasso?

Onde fica o corpo que simplesmente não quer produzir nada?

“Não sei dançar”, diz Bandeira. Talvez ele estivesse falando também de inadequação, de não caber no ritmo imposto, de não conseguir acompanhar a música do mundo. 

Eu, que não sei parar, 

danço sem perceber que a música já mudou. 

Danço quando já não há som. 

Danço sozinha no salão da produtividade, acreditando que, se eu parar, as luzes se apagam.

Talvez a verdadeira aprendizagem não seja ensinar 32 aulas em quatro dias com a excelência que gostaria de imprimir nelas. 

Talvez seja aprender a sentar no meio do dia e respirar sem cobranças ou culpas.

Talvez seja aceitar que não somos máquinas de rendimento; 

que a positividade excessiva também nos violenta; 

que o descanso não é ausência de valor…

Eu ainda não sei parar. Confesso. Ainda me pego abrindo o notebook num domingo à noite, organizando a semana como quem organiza a própria identidade. (Já imprimi material em pleno domingo!). Ainda sinto um vazio estranho quando a agenda fica branca demais.

Mas começo a suspeitar que o movimento não pode ser eterno; 

que até a dança precisa de silêncio entre um passo e outro; 

que até o poeta que não sabe dançar sabe, ao menos, reconhecer o próprio limite, mesmo não acompanhando o baile, ou o acompanhando à sua maneira, sem se sentir um barrado, um penetra; 

descobrindo como desfrutar da festa em seu próprio ritmo…

Talvez o desafio seja esse: não aprender a fazer mais, mas aprender a fazer menos sem se sentir menos.

Entre a exaustão e o vazio, existe um intervalo possível, um espaço onde o trabalho não nos devora e o descanso não nos apavora, um lugar onde a vida não precisa ser comprovada por métricas de desempenho. (Preciso encontrar esse lugar!)

Ainda estou ensaiando esse passo. Observando esse baile, tentando tirar dele uma certa alegria! 

Sigo cansada, 

produtiva, 

inquieta, 

tentando descobrir se, 

no fundo, 

parar também pode ser uma forma de dança.

Enquanto isso, decido tirar Bandeira pra dançar:

“Uns tomam éter, outros cocaína.

Eu tomo alegria!

Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.”

E, garanto, não estou pensando em como levar o poema de Bandeira para um plano de aula. Juro!

Fonte: saibamais.jor.br

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