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O senhor da guerra não gosta de crianças

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No começo dessa semana vimos que os EUA começaram a bombardear o Irã, chegando a matar o líder supremo daquele país, o aiatolá Ali Khamenei. Ao contrário de incursões bélicas anteriores dos ‘ianques’, esta declaração de guerra não teve um pretexto, uma desculpa, uma argumentação (como defesa da democracia, caçar terroristas etc). Aconteceu porque Trump quis, afinal, o fio de pretexto das tais armas nucleares do Irã não ganharam apoio nem do Congresso nem do próprio partido Republicano. Trump decidiu atacar o Irã e pronto, como aconteceu com a Venezuela (com outro pretexto fraquíssimo e sem provas, a ligação de Maduro com o narcotráfico).

Como no mundo polarizado, alucinado e infantilizado de hoje é de praxe acontecer, imediatamente grande parte da opinião pública e da mídia transformaram o conflito em um Fla x Flu. No Brasil, inclusive (onde a situação é ainda mais polarizada, alucinada e infantilizada há alguns anos). A torcida organizada dos EUA e Israel, formada pela extrema-direita internacional, vem tendo orgasmos múltiplos com os ataques e destruições no Irã, já que condenam o regime iraniano.

Diga-se de passagem que parte da esquerda torcer para o Irã atacar Israel como se estivesse assistindo a uma partida de Copa do Mundo também é esquisito e de mal gosto. Solidificado na formação humanistas que meus pais me deram, me entristece ver os vídeos dos mísseis caindo em prédios e o horror das pessoas em volta, seja em Teerã ou em Tel Aviv. Não me bate na hora a macropolítica, mas sim a ideia das pessoas que perdem parentes nesses ataques, ou tem as casas e todas as recordações destruídas, ou o trauma que deixará em crianças que veem o lar explodindo em pedaços sem entender porquê.

Por falar em crianças, elas são, como sempre, as grandes esquecidas da guerra. No sábado, 28, primeiro dia de bombas americanas sobre o Irã, uma delas caiu em uma escola para meninas, em Minab na província de Hormozgan, no sul do país que deixou entre 80 e 120 mortas. No dia seguinte, domingo, 1 de março, o Estadão perpetrou um dos seus editoriais mais infames com o título “Ninguém vai chorar pelo Irã”, onde idolatra Trump e Benjamin Netanyahu e defende incondicionalmente os ataques. Não se pode ou deve chorar pelo Irã, Estadão, mas pode chorar pelas crianças iranianas mortas? Ou a vida das mulheres e crianças islâmicas não tem o peso das vidas de mulheres e crianças ocidentais? Ironicamente, quando se fala em atacar o regime teocrático iraniano (que eu particularmente abomino) utilizam o argumento de libertar as mulheres e meninas das proibições e da burca. Mas para libertá-las é preciso que estejam vivas, não? Quantas ainda irão morrer em “acidentes inevitáveis” em uma guerra que o próprio Trump afirma que será longa.

É horrível perceber, entre amigos, jornalistas, veículos etc, que nessa visão de mundo umas vidas valem menos que outras. Ao longo dos anos vimos por exemplo que vidas palestinas valem pouco ou nada. Hoje é a vida dos iranianos que vale menos que a torcida por mais uma bomba explodindo prédios.

Para fechar esse texto, comecei uma pesquisa sobre o número de crianças mortas nos últimos ataques dos EUA e em guerras locais. Assustado com os números altos e chocado com as matérias e imagens, decidi não publicar aqui a lista estatística de horrores. Basta fechar com a letra de Renato Russo, da banda Legião Urbana, em ” A canção do senhor da guerra: “O senhor da guerra/não gosta de crianças”.

OBS: Um dos pavorosos números pesquisados: estima-se que 49.000 crianças morreram nos bombardeios de Hiroshima (aproximadamente 40.000) e Nagasaki (9.000), segundo relatos do Segundo Exército Geral do Japão. As bombas atômicas foram lançadas em agosto de 1945 pelos EUA para obrigar o Japão a se render e colocar fim à II Guerra Mundial e causaram mais de 200.000 mortes no total, incluindo efeitos imediatos e radiação.

Imagem que ilustra este texto: Grafite de Banksy

Fonte: saibamais.jor.br

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