Atualizações

Produtoras culturais potiguares conciliam arte, trabalho e criação dos filhos

Reuniões de produção, editais, viagens e cronogramas apertados, existe uma rotina invisível que acompanha muitas mulheres da cena cultural potiguar, a maternidade. No Rio Grande do Norte, produtoras culturais independentes conciliam a criação dos filhos com uma profissão marcada pela instabilidade, pela exigência de disponibilidade constante e pela ausência de políticas estruturadas de apoio.

Para muitas delas, trabalhar significa também carregar mochilas, brinquedos, lancheiras e adaptar horários de gravação, festivais e eventos às demandas da vida materna. Em meio a esse cenário, mães produtoras seguem movimentando a cultura potiguar enquanto reinventam diariamente formas de existir no mercado de trabalho.

Neste Dia das Mães, a agência SAIBA MAIS conta a história de duas mulheres que se multiplicam em várias funções levando a vida na arte em conciliação com a maternidade.

A produtora cultural Haylene Dantas conhece bem essa realidade. Há cerca de duas décadas atuando na cena cultural do estado, ela construiu uma trajetória ligada à cultura popular, ao audiovisual e aos projetos de periferia. Entre os trabalhos realizados estão o tradicional aHAYá de Rua, além de produções ligadas ao cinema, publicidade e festivais culturais. Mãe de Isaac, ela afirma que a maternidade transformou não apenas sua rotina, mas também sua forma de enxergar o mundo e produzir cultura.

“A maternidade me atravessa num lugar mais humano que eu nunca imaginei que podia existir na minha vida. Acho que passei a olhar para o outro com respeito, pensando em acesso à cultura, à educação, à saúde. Isso mudou a forma como penso meus projetos, para que sejam mais democráticos, acessíveis e com pertencimento”, conta.

Haylene define a própria experiência como uma maternidade atravessada pela falta de uma rede de apoio sólida. Para ela, o discurso sobre apoio coletivo às mães ainda está distante da prática.

“Existe um romantismo muito grande sobre a maternidade, mas quando as dificuldades chegam, muitas vezes é na solitude que a gente resolve tudo. Às vezes existe uma avó, uma tia, um pai ajudando. Mas tem gente que nem isso tem”, afirma.

Haylene e Isaac: a maternidade que atravessa um lugar mais humano / foto: arquivo pessoal

Na rotina da produção cultural independente, onde horários são imprevisíveis e as demandas mudam constantemente, a maternidade impõe desafios permanentes. Haylene explica que Isaac frequentemente acompanha sua rotina de trabalho, inclusive em produções audiovisuais.

“Quem me contrata já sabe que, paralelo à minha produção, vem junto o assistente”, brinca, para completar:

“Isaac termina estando muito presente nos trabalhos por necessidade mesmo. No último ano, ele vivenciou comigo dois longas-metragens na pré-produção. Se não existisse acolhimento das equipes, eu provavelmente não conseguiria fechar esses trabalhos.

Ela também destaca os desafios de conciliar a rotina de uma criança com o funcionamento do setor cultural.

“Nosso trabalho se molda às necessidades do projeto. Às vezes tem viagem, horários fora do comercial, gravações longas. Como conciliar isso com acordar para a escola, alimentação, rotina? Acho que esse é um dos maiores desafios.”

Além das dificuldades comuns à maternidade, Haylene vivencia uma maternidade atípica, o que demanda ainda mais atenção e presença.

“Tem momentos em que a maternidade pesa porque não existe substituição para esse lugar. Mas, no final, a gente consegue fazer essa mágica acontecer”, diz.

Mais consciência e respeito aos limites

Carol e Cora, dupla inseparável em casa, no trabalho e na bagunça / Foto: arquivo pessoal

A produtora cultural Carol Carvalho também precisou reconstruir sua relação com o trabalho depois da maternidade. Fundadora da Dale! Produções Culturais, ela atua desde 2012 com elaboração e gestão de projetos em audiovisual, artes cênicas, música e artes visuais. Entre os trabalhos realizados estão o Festival Munganga de Circo, o Festival Poty Mapping, a Semana do Circo de Natal e produções audiovisuais como a websérie “Septo” e a série “Taco Clube Praiano”.

Mãe de Cora, hoje com 11 anos, Carol lembra que imaginava conseguir manter o mesmo ritmo profissional após a chegada da filha, mas a realidade foi diferente.

“Antes de ser mãe, a gente não tem muita noção do que é de fato. Eu achava que conseguiria seguir trabalhando no mesmo ritmo, mas muda tudo: o corpo, o emocional, a dinâmica da vida e principalmente a relação com o tempo”, relata.

Mesmo grávida, Carol continuou trabalhando sem interrupções. Poucos meses após o nascimento da filha, já estava novamente em produção.

“Estreei um espetáculo de circo na Casa da Ribeira quando minha filha tinha três meses de vida. Hoje eu olho e penso que era meio loucura”, lembra.

Ela explica que os primeiros anos foram marcados por sobrecarga, cansaço e dificuldade de adaptação entre a rotina profissional e os cuidados intensivos com a filha.

“Uma simples visita técnica deixava de ser simples porque eu não podia ir sozinha. Minha filha precisava estar comigo, e eu dependia de outra pessoa para ajudar. Até os seis meses, ela só se alimentava de leite materno, então isso limitava muito meus deslocamentos”, lembra.

Com o passar do tempo, Carol passou a selecionar melhor os projetos que aceita, considerando tempo, deslocamento e impacto na rotina familiar.

“Hoje eu produzo de forma mais consciente, tentando respeitar meus limites. Porque ser autônoma já é instável por natureza, e com um filho isso pesa muito mais.”

Ela reconhece que atualmente consegue trabalhar com mais estabilidade graças ao apoio integral da mãe, algo que considera um privilégio.

“Quase sempre é outra mulher que sustenta essa rede de apoio quando falamos de maternar.”

Para Carol, ainda faltam políticas públicas capazes de acolher mães no setor cultural, especialmente mulheres autônomas e mães solo.

“Faltam editais que considerem custos com cuidado infantil, auxílio-creche, prazos mais flexíveis para gestantes e puérperas. Muitas mães acabam reduzindo ou interrompendo a atuação profissional não por escolha, mas por falta de condições”, desabafa.

Neste Dia das Mães, a produtora usou suas redes sociais para apresentar e destacar produtoras que, como ela, dividem o trabalho com a maternidade, uma forma de valorizar o papel mulheres que, muitas vezes, se veem sozinhas com o acúmulo de funções e até quatro jornadas diárias.

A maternidade também mudou profundamente o olhar criativo da produtora. Ela passou a se aproximar de projetos ligados ao cuidado, à infância, às mulheres e à ocupação afetiva da cidade.

“Passei a ocupar a cidade de outra forma, com uma criança a tiracolo. Isso me fez entender na prática o quanto é importante construir eventos e espaços culturais que acolham mães e crianças”, diz.

Entre bastidores, festivais, gravações e produções culturais, mães como Haylene e Carol seguem sustentando uma cena artística que também é construída a partir do cuidado. Em um setor frequentemente marcado pela informalidade e pela ausência de garantias, elas transformam a experiência da maternidade em potência criativa, resistência cotidiana e permanência.

Enquanto fazem a cultura acontecer, seguem também reivindicando o direito de trabalhar sem precisar escolher entre a profissão e o cuidado com os filhos.

SAIBA MAIS: Lei aprovada em Natal garante mães com filhos em sala de aula

Fonte: saibamais.jor.br

Gil Araújo

About Author

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may also like

Atualizações

Enem 2025: RN tem mais de 113 mil inscritos confirmados

Número de estudantes no exame é 10,9% superior aos inscritos de 2024. Provas desta edição do Enem tem data marcada
Atualizações Cotidiano

Incêndio atinge barracas de alimentação e deixa 4 feridos em festival gospel

Caso aconteceu na noite desta sexta-feira (25) durante shows do Festival Sal e Luz em Mossoró, no Rio Grande do