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    quando a política tem como meta a morte do outro

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    “O fato é que o afeto é a receita
    que pode transformar a nossa conduta
    e me levar a ter mais esperança
    aí eu disse, eita
    o que não tiver jeito, o amor ajeita
     e faz vencer essa disputa
    quem sabe , assim, a humanidade, enfim, avança
    Eita”

    Lenine

    Foi o filósofo camaronês Achille Mbembe quem diagnosticou, com precisão radical, os sintomas mais agudos da intolerância política contemporânea. Vivemos uma época em que a diferença de opinião, de identidade ou de modo de existir pode converter um sujeito em alguém matável. Trata-se de uma necropolítica que opera tanto pela ameaça  do poderio militar, visível em disputas geopolíticas globais (EUA, Rússia, China, Coréia do Norte, Israel), quanto pela produção simbólica de narrativas que estigmatizam, excluem e desumanizam a sociedade.

    Nesse regime, imigrantes latino-americanos e asiáticos figuram como alvos e bodes expiatórios principais, embora não exclusivos. Todos os corpos que não se ajustam à doutrina moral dominante tornam-se potenciais vítimas. Homens e mulheres trans, em especial, são caças preferenciais daquilo que se pode chamar de necrodireita, um campo que transforma o ódio em método e a morte em horizonte político: Donald Trump, Silas Malafaia, Bozo e sua prole, Michelle Bolsonaro, o deputado Nikolas Ferreira, os governadores Tarcísio de Freitas(SP), Cláudio Castro(RJ) e outros.

    Essa racionalidade política mortífera não se expressa apenas pela força bruta. Ela articula, de modo simultâneo, duas engrenagens fundamentais: de um lado, instituições tradicionais de poder e controle, tais como setores religiosos e aparelhos policiais; de outro, uma semântica agressiva e viral, disseminada pelas redes sociais digitais, que naturaliza a exclusão e legitima a violência. As palavras atuam como tiros, antecedem  linchamentos e preparam o terreno da morte. A necrodireita governa corpos, linguagem e sentidos. E,assim, redefine quem merece viver e quem pode morrer. Por isso, temos que inventar outra política dos afetos e da linguagem. Como na música de Lenine, “o afeto é a receita” , pois “o que não tiver jeito, o amor ajeita”.

    Fonte: saibamais.jor.br

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