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Narrativa de fraude é usada para sustentar agressão à Venezuela, critica pastor dos EUA

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Narrativa de fraude é usada para sustentar agressão à Venezuela, critica pastor dos EUA

A violência aberta contra a Venezuela não nasce de um episódio isolado nem de um erro circunstancial da política externa norte-americana. Para o pastor metodista norte-americano Fred Morris, a ofensiva dos Estados Unidos representa o ponto extremo de uma construção internacional que, ao longo de anos, transformou acusações reiteradas de fraude e autoritarismo em justificativa para sanções, bloqueios e, agora, ação militar direta contra o país sul-americano. Ex-preso político da ditadura militar brasileira e observador internacional das eleições venezuelanas em 2007, Morris sustenta que a ofensiva não pode ser dissociada de uma campanha sistemática de deslegitimação política do país vizinho.

“O que vemos não começa com esse ataque. Há anos a Venezuela vem sendo criminalizada por uma narrativa internacional que constrói a ideia de um governo ilegítimo e ditatorial para justificar sanções, bloqueios e, agora, a violência aberta”, afirmou, em entrevista à Saiba Mais.

Na avaliação de Morris, a repetição desse discurso produz efeitos que extrapolam o campo diplomático e passam a moldar a própria percepção de setores progressistas sobre a realidade venezuelana. Segundo ele, a insistência em acusações não comprovadas acaba naturalizando a ideia de que qualquer forma de intervenção seria aceitável.

“Até pessoas muito progressistas, muito bem-intencionadas em todos os sentidos, acreditam nessas mentiras sobre Maduro. Acham que é bom que ele saia, dizem apenas que não deveria ser dessa forma. Acreditam que ele roubou a eleição, quando, na verdade, o sistema eleitoral venezuelano é extremamente seguro”, afirmou.

A leitura de Morris ganha ainda mais peso diante de declarações recentes do próprio presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que afirmou que a ofensiva permitirá maior controle sobre o petróleo venezuelano. Para o pastor, quando interesses econômicos passam a ser explicitados dessa forma, torna-se ainda mais frágil a retórica de defesa da democracia usada para sustentar sanções e intervenções.

Sistema eleitoral e impossibilidade técnica de fraude

Fred Morris integrou uma missão internacional de observação das eleições venezuelanas em 2007, a convite do então presidente Hugo Chávez, por meio de um grupo de teólogos latino-americanos organizado pelo monge beneditino Marcelo Barros. Ao todo, cerca de 200 observadores internacionais acompanharam o processo, incluindo o Jimmy Carter Center, fundada em 1982 pelo ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter e sua esposa Rosalynn Carter.

Segundo ele, o sistema eleitoral venezuelano foi apresentado detalhadamente aos observadores e possui múltiplos mecanismos de segurança. “Seis meses antes da eleição, cada eleitor é fotografado, cadastrado e tem a impressão digital registrada. No dia da votação, a identidade é confirmada por biometria”, explicou.

O voto, acrescenta, é registrado eletronicamente e também impresso em papel. “No fim do dia, os votos em papel são contados na presença de observadores de todos os partidos e comparados com o resultado eletrônico antes de serem enviados ao centro eleitoral. Não há como falsificar isso”, afirmou.

Morris lembra que Jimmy Carter fez uma avaliação pública após o pleito. “Carter disse oficialmente que o sistema eleitoral da Venezuela era o melhor do mundo, melhor inclusive que o sistema norte-americano”, criticou.

A construção da narrativa internacional

Para o pastor, a acusação recorrente de fraude eleitoral cumpre uma função política clara. “Ela cria o ambiente simbólico necessário para justificar sanções, bloqueios e intervenções. Primeiro se diz que o governo é ilegítimo, depois que é criminoso, e então qualquer agressão passa a parecer aceitável”, afirmou.

Ele cita como exemplo declarações recentes de parlamentares norte-americanos que, mesmo criticando a ação militar, repetem acusações contra o governo venezuelano. “Dizem: ‘Maduro é um ditador, roubou a eleição, mas isso não justifica o ataque’. Só que, ao repetir essas mentiras, acabam legitimando a lógica da intervenção”, disse.

Na avaliação de Morris, organismos internacionais como a Organização dos Estados Americanos (OEA) também contribuíram para esse processo ao adotar, segundo ele, critérios seletivos de condenação. “Há uma criminalização direcionada de governos que não se alinham aos interesses dos Estados Unidos”, afirmou.

Experiência histórica e seletividade das denúncias

Ao aprofundar a crítica, Morris recorre à própria vivência para questionar a credibilidade de denúncias reiteradas em fóruns internacionais. Ele lembra que acusações semelhantes de fraude e violações de direitos humanos foram usadas em outros contextos da América Latina, muitas vezes sem comprovação factual.

O pastor metodista norte-americano relata que viveu 11 anos no Brasil, tendo chegado ao país em janeiro de 1964, pouco antes do golpe militar. “Durante praticamente todo esse período, vivi sob uma ditadura. Em Recife, todo mundo conhecia alguém que havia sido torturado. O governo fazia questão de que isso fosse sabido como forma de intimidar a população”, recordou.

Para Morris, a diferença entre a tortura praticada por regimes autoritários e as acusações feitas contra governos não alinhados aos Estados Unidos é evidente. “A tortura não serve para obter informação. A pessoa torturada diz qualquer coisa para que aquilo pare. Não diz a verdade. Mesmo assim, conheci pessoas que enfrentaram isso com coragem, que xingavam os torturadores e nunca entregaram ninguém.”

Vivendo há 11 anos na Nicarágua, em dois períodos distintos, ele afirma nunca ter tido contato com qualquer relato concreto de tortura praticada pelo governo sandinista. “Nunca ouvi falar de alguém que tenha sido torturado. Meus vizinhos são anti-sandinistas e também não conhecem nenhum caso”, disse.

Ainda assim, segundo Morris, denúncias foram reiteradamente apresentadas em organismos internacionais com base em relatórios de entidades financiadas por interesses estrangeiros. “Nunca houve um único caso comprovado, mas as acusações se repetiam e eram amplificadas internacionalmente. Isso é muito desanimador, porque são pessoas que deveriam saber melhor”, afirmou.

Como exemplo do impacto dessa narrativa, ele cita o caso de Dora María Téllez, histórica dirigente da Revolução Sandinista que rompeu com o movimento nos anos 1990. “Durante a tentativa de mudança de regime em 2018, ela foi a Washington pedir ao Congresso dos Estados Unidos que invadisse o país. Para mim, isso é traição. Uma cidadã pedindo que uma potência estrangeira invada sua própria nação.”

Morris destaca que ela foi julgada e condenada por traição em tribunal nicaraguense, sem pena de morte, inexistente no país, e posteriormente incluída no grupo de presos libertados e enviados aos Estados Unidos. Segundo ele, em sistemas como o norte-americano, crimes de traição à pátria podem, inclusive, prever a pena capital. “Hoje vive em Miami, financiada por recursos familiares e do governo norte-americano, atacando o governo sandinista.”

Para ele, o mais preocupante é a força da repetição dessas versões no debate público internacional. “Mesmo pessoas que sofreram tortura no Brasil, como amigos meus, hoje acreditam nessa narrativa e se recusam a aceitar esses fatos. Isso mostra o poder da mídia e da repetição de mentiras.”

Sanções como violência política

Morris enfatiza que, diferentemente do discurso oficial que tenta minimizar seus impactos, as sanções econômicas produzem efeitos humanitários profundos e mensuráveis. “As sanções, sim, têm efeitos devastadores. Estima-se que mais de 100 mil crianças tenham morrido na Venezuela por falta de medicamentos, especialmente crianças prematuras”, afirmou. Segundo ele, esse processo não é recente. “As sanções começaram no governo Obama, foram aprofundadas por Trump e apenas parcialmente relaxadas por Biden.”

Apesar disso, Morris observa que o governo venezuelano conseguiu manter políticas básicas de proteção social. “Mesmo assim, o governo mantém programas de alimentação. A população mais pobre continua se alimentando, ainda que com dificuldades. Quem perdeu privilégios foi a classe média e a elite, e elas estão furiosas”, disse.

Na avaliação de Morris, esse contexto ajuda a explicar a permanência do apoio popular ao presidente venezuelano. “Maduro venceu por pouco mais de 50% dos votos, mas hoje é ainda mais popular, porque muitas pessoas reconhecem que ele tem defendido a dignidade nacional frente às agressões externas”, afirmou.

Para o ex-observador eleitoral, o atual cenário deve ser compreendido dentro de uma lógica histórica mais ampla de dominação regional. “O que estamos vendo agora é a retomada explícita da Doutrina Monroe. Desde 1823, quase todos os países das Américas foram invadidos pelos Estados Unidos, com exceção do Brasil, que não foi invadido militarmente, mas sofreu forte intervenção política”, disse.

Morris também aponta para o papel da desinformação na sustentação desse tipo de política externa. “Trump explora o medo e a desinformação. Ele mesmo já disse que gosta de pessoas pouco educadas porque são mais fáceis de manipular. Isso ajuda a entender por que políticas tão agressivas continuam tendo apoio popular”, concluiu.

A ofensiva como precedente regional

Para Morris, a atual escalada representa um precedente perigoso para toda a América Latina. Ele chama atenção para declarações recentes do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que, segundo ele, mencionou explicitamente Cuba e Nicarágua como próximos alvos da política externa dos Estados Unidos.

“Rubio disse claramente que, depois da Venezuela, vêm Cuba e Nicarágua. Eu moro na Nicarágua. Isso não é retórica abstrata, é uma ameaça concreta”, afirmou.

Na sua avaliação, a ofensiva contra a Venezuela está diretamente ligada a interesses estratégicos, especialmente o controle de recursos energéticos. “Quando autoridades dos Estados Unidos falam abertamente em controlar o petróleo venezuelano, fica claro que não se trata de democracia, mas de soberania e poder”, disse.

Ele alerta que a reintrodução da lógica da força coloca também o Brasil em situação de risco. “A Venezuela faz fronteira com o Brasil. A instabilidade regional, a militarização e a quebra do direito internacional afetam diretamente o país”, afirmou.

Sobre Fred Morris

Frederick Birten Morris, conhecido como pastor Fred, chegou ao Brasil em 1964 como missionário da Igreja Metodista. Atuou no Recife, onde organizou um centro comunitário e desenvolveu atividades ecumênicas e sociais em colaboração com a Arquidiocese local, incluindo trabalhos junto a Dom Hélder Câmara.

Em setembro de 1974, foi sequestrado por agentes da ditadura militar brasileira, mantido em cativeiro e submetido a torturas com espancamentos e choques elétricos durante quatro dias. As autoridades o acusavam de atuar como elo entre Dom Hélder Câmara e o Partido Comunista do Brasil.

Após 17 dias de prisão, sem acusação formal ou direito de defesa, Morris foi expulso do país por decreto do então presidente Ernesto Geisel, sendo declarado “pessoa prejudicial aos interesses nacionais”. O decreto só foi revogado em 1988. Em 2008, ele recebeu pedido formal de desculpas do Estado brasileiro e indenização, no âmbito do processo de anistia política.

Hoje residente na Nicarágua, Fred Morris segue atuando em iniciativas sociais e de defesa dos direitos humanos.

Fonte: saibamais.jor.br

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