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O mundo como o conhecíamos não existe mais!

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O mundo como o conhecíamos não existe mais!

Há algumas semanas eu conversava com um amigo escritor paulistano e lembramos de momentos e lugares que vivenciamos juntos na paulicéia, e informei a ele que iria à megalópole este ano, quando de repente ele disparou: “Venha sim, mas a São Paulo como conhecíamos não existe mais”. Por coincidência (ou não), dias depois em um fórum de debates sobre a capital potiguar, onde moro, um dos membros também sentenciou: “a Natal de anos atrás acabou, tornou-se outra cidade”.

Acostumei-me a perceber esses desabafos como devaneios nostálgicos, quase românticos, já que as cidades da nossa juventude dificilmente são ou serão as da nossa vida adulta. É natural que o progresso (e a grana) erga e destrua coisas belas, como cantou Caetano justamente em “Sampa”. Tudo passa, tudo passará, e como pragmático que sou, sei que as cidades são impermanentes, mutáveis.

Contudo, se na virada de ano estávamos todos celebrando e pedindo mais amor e paz no mundo, menos de 72 horas depois, mais exatamente no sábado dia 3 de janeiro, percebemos que isso não seria fácil nem possível. A notícia que os EUA, por ordem do presidente Donald Trump, havia bombardeado a Venezuela e sequestrado o presidente Nicolás Maduro, não nos surpreendeu, mas nos chocou. Pela violência e agressividade da ação, pelo seu simbolismo imperialista e pela quebra total dos tratados e das regras do direito internacional.

Muita gente que leio e respeito, analisando o acontecimento, usou da mesma frase do primeiro parágrafo deste texto, mas ampliada: “a partir desta fato, o mundo como o conhecíamos não existe mais”.

Como é possível, em tempos de Globalização, uma pessoa isoladamente mudar a ordem mundial? Já estudamos que isso aconteceu com Alexandre, Júlio César, Napoleão e Hitler. Hoje acompanhamos em tempo real, na verdade em postagem de Twitter e vídeos recebidos por zap, a história sendo reescrita. Com elementos bem velhos, que julgávamos superados: imperialismo, expansão, pirataria, força bruta, poder militar.

Recordo que antes de viajar para a Europa pela primeira vez, em 2006, assisti ao filme “O céu de Lisboa” de Wim Wenders, na qual o protagonista, um alemão que vai a Portugal de carro procurar um amigo desaparecido, celebra a “União Europeia, o fim das fronteiras e uma nova Europa, um novo mundo”. Essa Europa também não existe mais, carcomida pelo Brexit britânico, pela extrema direita que patrocina o ódio a imigrantes e pela dependência crônica dos EUA que com Trump se tornou submissão e sabujice, a ponto de estarem muito perto de perder a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, para os EUA.

Há chances do cenário ser revertido? Sim e não. Se Trump e o Partido Republicano perderem as eleições legislativas deste ano, o poder do neo ditador será certamente freado e não se pode descartar pedidos de impeachment. De qualquer maneira pela Constituição estadunidense Trump não pode tentar reeleição em 2028, de maneira que, a menos que tente e consiga dar um golpe de Estado (o que não está descartado) terá de lançar um sucessor, que mesmo vitorioso, não terá a mesma postura bélica e grosseira dele.

Mas o fato é que o estrago já está feito. Percebemos que quem tem o poder militar pode fazer o que quer, sem precisar de pretextos, narrativas, autorizações do Congresso e da ONU, como antes fizeram Biden, Obama, os Bush etc. Trump eliminou os eufemismos e as elegâncias cínicas do poder e foi direto ao assunto. E pelo que vemos continuará fazendo.

Bem vindos a um novo mundo. O que esperar dele? Um misto de “O conto da aia”, “1984” e “Blade runner”? Uma volta aos tempos em que a força bruta se impunha sem qualquer tipo de diplomacia? Já que ofereço mais perguntas e respostas, o que farão China e Rússia, potências militares e nucleares, diante desse cenário? E se Putin fizer com Zelensky e a Ucrânia o mesmo que Trump fez com Maduro?

Não temos nem uma semana de nova ordem mundial, a existência do direito internacional. Agora é esperar as cenas dos próximos capítulos. Mas aquele o mundo, bem imperfeito, porém com um verniz de civilidade e direitos minimamente assegurados, acabou.

Fonte: saibamais.jor.br

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