O Rio Grande do Norte se apresenta ao país como uma potência em energia renovável, mas essa imagem de vanguarda esconde uma realidade de atraso e desigualdade. Enquanto os ventos que movem os aerogeradores são celebrados, um modelo econômico falido e centralizado segue estrangulando o potencial do estado. A riqueza não se distribui; pelo contrário, se concentra cada vez mais na capital, enquanto o interior é esvaziado, sua cultura ameaçada e seu meio ambiente degradado em nome de um suposto desenvolvimento que nunca chega para a população. É a hora de olhar para além do greenwashing energético e encarar a falência estratégica que nos condena ao subdesenvolvimento.
A concentração que estrangula
A radiografia econômica do estado é a de um corpo doente, com um único órgão hipertrofiado. Dados do IBGE mostram que, em 2023, a capital Natal concentrou sozinha 30,63% de toda a riqueza produzida no Rio Grande do Norte. Juntas, apenas quatro cidades – Natal, Mossoró, Parnamirim e São Gonçalo do Amarante – responderam por mais da metade (50,8%) do PIB estadual. Essa não é uma dinâmica de crescimento, mas de sucção. A capital, que já detinha uma fatia desproporcional, ainda ampliou sua participação, enquanto municípios do interior lutam para não perder o pouco que têm. Este é o retrato perfeito de uma falha de gestão e visão: o estado não conseguiu, ou não quis, criar polos de desenvolvimento autônomos e dinâmicos em seu território. O resultado é uma Natal inchada, com demandas por infraestrutura, habitação e serviços que superam em muito sua capacidade, enquanto vastas regiões potiguares definham na pobreza e no abandono.
O falso greenwashing e a destruição da Caatinga
O discurso oficial aponta as usinas eólicas e solares como a grande alavanca do progresso. A realidade, porém, é a de um modelo extrativista disfarçado de verde, que repete os erros do passado com uma roupagem sustentável. O avanço desses megaprojetos sobre o bioma Caatinga tem um custo ambiental catastrófico. Dados exclusivos do MapBiomas revelam que, entre 2020 e 2024, a área desmatada na Caatinga para a instalação de parques eólicos e solares cresceu 558%. No total, mais de 12 mil hectares de vegetação nativa foram perdidos para o setor, com uma média anual de desmatamento de 2 mil hectares. Cada usina eólica chega a ocupar 200 mil m², causando perda irreparável de habitat e afetando drasticamente a paisagem e a vida das comunidades do entorno.
A promessa de desenvolvimento local se mostrou uma farsa. Os empreendimentos geram pouquíssimos empregos permanentes e de qualidade, e os royalties, quando existem, não se convertem em melhorias estruturais duradouras para os municípios. Em contrapartida, as comunidades tradicionais sofrem com a poluição sonora, o dano a cisternas essenciais, o aumento do tráfego pesado e a ruptura de seu modo de vida. A energia “limpa” que exportamos para outros estados é produzida sobre um rastro de injustiça socioambiental e destruição de um bioma único, que é justamente um dos mais eficientes do mundo na captura de carbono. Estamos, paradoxalmente, contribuindo para o aquecimento global ao devastar um de nossos principais escudos contra ele.
A desindustrialização e a economia frágil
Enquanto se aposta todas as fichas em um setor que não agrega valor internamente, a base produtiva tradicional do estado definha. O ano de 2025 escancarou essa fragilidade: a indústria potiguar registrou uma queda de 18,5% na produção acumulada, o pior resultado entre todos os estados brasileiros. Este recuo arrasador, puxado pela dependência do volátil setor de petróleo e gás, levou a uma retração de 13,8% no emprego industrial formal. O resultado é uma economia vulnerável, que não produz o suficiente nem para o mercado interno e vive uma pressão importadora, inclusive de alimentos básicos que poderiam ser cultivados e processados no próprio território potiguar.
Conclusão: É o momento de transformação
A atual gestão estadual consolidou um modelo que serve a meia dúzia de empresários do setor energético, sustentado por um lobby poderoso, mas que falhou redondamente com o povo potiguar. O resultado está aí: uma capital que não consegue se sustentar, um interior esvaziado e um meio ambiente saqueado.
As eleições que se aproximam são a oportunidade de mudar o rumo de uma vez por todas, sem renunciar aos princípios socioambientais que norteiam uma gestão comprometido com seu povo e o meio ambiente. Precisamos de um projeto de estado que:
- Descentralize a economia, criando incentivos reais para que polos de agroindústria, aquicultura, turismo comunitário e indústria leve se desenvolvam no interior.
- Exija contrapartidas reais dos grandes empreendimentos de energia, vinculando sua instalação à criação de fundos de desenvolvimento municipal, capacitação profissional e infraestrutura local.
- Valorize e proteja a Caatinga, tornando a licença ambiental um processo rigoroso e que ouça as comunidades, inibindo a expansão predatória.
O Rio Grande do Norte tem vento, sol, terra fértil, mar, belezas naturais e um povo trabalhador. Tudo o que precisa é uma gestão com visão estratégica, coragem para enfrentar os interesses estabelecidos e compromisso genuíno com o desenvolvimento integral e soberano do estado.
Feliz 2026 Rio Grande do Norte!
Fonte: saibamais.jor.br
