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Mídias sociais, desinformação e manipulação política

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Mídias sociais, desinformação e manipulação política

Faltando pouco mais de oito meses para a eleição presidencial no Brasil, torna-se relevante analisar o papel das mídias sociais, especialmente no campo da extrema direita, na difusão de desinformação, mentiras e manipulação política.

Um relatório do Oxford Internet Institute, intitulado Industrialized Disinformation: Global Inventory of Organized Social Media Manipulation, elaborado por uma equipe de professores da Universidade de Oxford, apresenta os resultados do monitoramento de campanhas de manipulação política nas mídias sociais, fenômeno denominado propaganda computacional (projeto de pesquisa Computational Propaganda Research Project, desenvolvido pelo Oxford Internet Institute). O objetivo do estudo é analisar as “ferramentas e estratégias digitais para influenciar o comportamento do público online”.

O relatório revela, com dados relativos a 81 países, incluindo o Brasil – que, à época da publicação (2020), era governado pela extrema direita -, o uso das mídias sociais para veicular desinformação, promover manipulação política e, inclusive, tentar suprimir a liberdade de expressão.

Passados cinco anos, cabe questionar se houve mudanças significativas nesse cenário ou se, ao contrário, tais práticas se mantêm de forma ampliada, com o uso das redes sociais e o desenvolvimento de técnicas ainda mais sofisticadas. No Brasil, mesmo com a eleição de Lula em outubro de 2022, observa-se que, apesar da mudança de governo, o uso das mídias sociais continua intenso, especialmente por parte da extrema direita derrotada. Os mesmos mecanismos que antecederam o pleito seguem em operação, tanto no interior do Congresso Nacional quanto fora dele, com forte atuação nas redes sociais e significativa influência política.

O relatório destaca a existência do que denomina “desinformação industrializada”, cada vez mais profissionalizada e produzida em escala industrial, com a participação de empresas de comunicação e de relações públicas. Analisa, ainda, as “ferramentas, capacidades, estratégias e recursos usados para manipular politicamente a opinião pública”.

Entre as principais tendências da propaganda e da manipulação política, com uso sistemático de fake news e mentiras, destacam-se as atividades das chamadas tropas cibernéticas, que se intensificam em períodos eleitorais. O relatório constata um crescimento em relação aos anos anteriores: se antes haviam sido encontradas evidências do uso das mídias sociais para espalhar propaganda computacional e desinformação política em 70 países, em 2020 esse número subiu para 81, com gastos que se aproximaram de US$ 10 milhões.

Nesse sentido, “a mídia social tornou-se um componente crucial da campanha digital, e alguns atores políticos têm usado o alcance e a onipresença dessas plataformas para espalhar desinformação, suprimir a participação política e minar os partidos de oposição”. Essas e outras informações do relatório estão disponíveis em matéria publicada no portal MediaTalks.

O relatório lista algumas empresas que atuam em vários países, entre elas a britânica Cambridge Analytica, analisando sua atuação na campanha eleitoral presidencial dos Estados Unidos em 2016. O uso e a manipulação de dados promovidos por essa empresa foram examinados por Brittany Kaiser no livro Manipulados: como a Cambridge Analytica e o Facebook invadiram a privacidade de milhões e botaram a democracia em xeque (Rio de Janeiro: Editora HarperCollins, 2020).

Kaiser demonstra, com dados, como Donald Trump foi beneficiado pelo uso indevido de informações extraídas do Facebook de mais de 50 milhões de pessoas, direcionando propaganda segmentada- e frequentemente mentirosa – tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido, durante a campanha do Brexit, que visava à saída do país da União Europeia (e foi vitoriosa).

Segundo os autores do relatório, desde 2018 dezenas de empresas, em diversos países, passaram a oferecer propaganda computacional como serviço. Embora vários escândalos tenham sido denunciados, como o da Cambridge Analytica- envolvendo o uso indevido de plataformas por tropas cibernéticas-  e apesar da remoção de milhares de contas, páginas e grupos em plataformas como Facebook e o então Twitter (hoje X), tais medidas não conseguiram, nem têm conseguido, impedir a continuidade das mentiras, das fake news e da manipulação política em larga escala.

Além disso, a adesão de proprietários dessas plataformas à extrema direita, como ocorreu nos Estados Unidos com Donald Trump em seu novo mandato, iniciado em 2025, reforça a importância de se analisar o papel dessas empresas nos processos eleitorais em curso, inclusive no Brasil.

No artigo Ou Zuck, ou nada, publicado na revista Piauí em janeiro de 2026, Victor Calcagno analisa a conversão ultradireitista de Mark Zuckerberg, dono da Meta — controladora do Facebook, WhatsApp e Instagram. Zuckerberg esteve presente na posse de Donald Trump, em 20 de janeiro de 2025, ao lado de Elon Musk (SpaceX e Tesla), Jeff Bezos (Amazon), Sundar Pichai (Google), Tim Cook (Apple) e Shou Zi Chew (TikTok).

É razoável esperar que essas gigantescas empresas atuem de forma neutra nos processos eleitorais? Ou continuarão a demonstrar leniência em suas plataformas diante da desinformação e do mau uso de dados pessoais?

Para Victor Calcagno, “a guinada de Mark Zuckerberg pode ser dividida em dois pontos práticos: um ligado aos negócios, outro a uma reserva ideológica contra ideias progressistas”. O autor se refere ao “anseio por alianças políticas que protejam as redes sociais de futuras regulações, impostos e ‘censura’, de modo a mantê-las como um lucrativo território sem lei”.

No caso específico das eleições, especialmente das eleições presidenciais, constata-se o uso de ferramentas e técnicas de propaganda computacional como parte integrante das campanhas eleitorais. Essas ferramentas são utilizadas não apenas para o enaltecimento de candidatos, mas também para a desqualificação de adversários, por meio do uso de contas e perfis falsos, robôs “unidos na manipulação política”, além de contas hackeadas ou roubadas.

Tais práticas não se restringem aos períodos eleitorais. Muitos governos eleitos com base em desinformação, manipulação de dados e mentiras continuam a se sustentar com o apoio de influenciadores financiados, líderes religiosos – os chamados “vigaristas da fé”- e outras estratégias de manipulação da opinião pública.

Quais são as principais estratégias e táticas identificadas e utilizadas pelas tropas cibernéticas? Destacam-se o uso de mídia manipulada (jornais, rádios, canais de TV, sites, blogs etc.), redes sociais, TikTok, deepfakes, memes, imagens ou vídeos editados e conteúdos online enganosos, que continuam sendo amplamente utilizados no Brasil.

Nesse contexto, torna-se fundamental o papel das agências de checagem de notícias, como a First Draft News, no Reino Unido, e, no Brasil, a Lupa, Fato ou Fake, Agência Pública, E-Farsas e Fake Check. Essas iniciativas contribuem para desmentir a profusão de notícias falsas, como as que envolvem as urnas eletrônicas – tema que voltou à tona especialmente após a derrota do candidato da extrema direita em outubro de 2022 -, além de terem sido essenciais durante a pandemia ao questionar e revelar os interesses por trás da defesa da suposta eficácia de medicamentos como a cloroquina e a ivermectina contra a Covid-19.

O relatório também constatou a existência de campanhas profissionais coordenadas de assédio online destinadas a desacreditar não apenas a ciência, mas também adversários políticos. Segundo a pesquisa, em 59 países foram identificados usos sistemáticos de trolls para atacar adversários políticos, ativistas e jornalistas, especialmente nas redes sociais. O Brasil é citado como um dos países onde ocorreram ataques sistemáticos, oficialmente estimulados, com o objetivo de silenciar opositores por meio de campanhas de difamação e do incentivo à polarização social, marcada pela lógica do “nós contra eles”, um suposto e falso embate entre “bem” e “mal”.

Outro aspecto relevante refere-se às empresas de mídia social que lucram com a promoção da desinformação em suas plataformas. Como impedir sua difusão? Como regulamentar seu uso sem permitir mentiras e manipulação política? As medidas adotadas pelas próprias empresas têm sido suficientes? O que fazer com as plataformas que hospedam, disseminam e multiplicam a desinformação?

São inegáveis os danos causados pela desinformação. O uso das redes sociais tem sido central nesse processo. A questão crucial é identificar quais mecanismos são realmente eficazes para combatê-la. No caso das urnas eletrônicas, o questionamento sobre sua segurança tornou-se um dos principais motes da propaganda bolsonarista, obrigando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a se defender com argumentos técnicos e sólidos. Aqueles que acusam o sistema, no entanto, não apresentaram nem apresentam qualquer prova de fraude. Ao contrário do que alegam, o TSE permite a auditoria do software utilizado nas urnas eletrônicas, com acesso ao código-fonte por partidos políticos, organizações e instituições acadêmicas.

Ainda assim, isso não altera a convicção dos desinformados, que recorrem a argumentos frágeis e distorcidos para atacar o governo eleito. Nesse sentido, não bastam apenas desmentidos, dados e argumentos racionais, pois esses grupos se mostram imunes à racionalidade. Torna-se fundamental, portanto, a punição dos responsáveis pela propagação de conteúdos fraudulentos, não apenas relacionados ao sistema eleitoral, mas a toda forma de manipulação política, especialmente porque a máquina de mentiras segue em operação contínua.

Um dos instrumentos relevantes no combate à desinformação é o Projeto de Lei das Fake News (PL 2630/2020), aprovado no Senado em 30 de junho de 2020 e ainda em tramitação na Câmara dos Deputados. Entre outros pontos, o projeto estabelece normas, diretrizes e mecanismos de transparência para provedores de redes sociais e serviços de mensagens privadas, com o objetivo de garantir segurança, liberdade de expressão, comunicação e manifestação do pensamento. O artigo 3º do texto original prevê a proteção à liberdade de expressão e de imprensa, bem como a garantia de direitos em defesa da dignidade, da honra e da privacidade dos cidadãos, no contexto de uma esfera pública livre, plural, diversa e democrática.

O grande desafio consiste em criar mecanismos legais eficazes de combate à desinformação, assegurando a liberdade de expressão, que não pode ser confundida com a prática de crimes. Combater o uso de perfis falsos e contas automatizadas, por exemplo, contribui para reduzir o uso indevido das mídias sociais e a manipulação política. Da mesma forma, a desmonetização de canais que sistematicamente divulgam conteúdos propositalmente enganosos e promovem ataques a instituições como o TSE e o Supremo Tribunal Federal (STF) não pode ser relativizada em nome de uma suposta liberdade de expressão.

Fonte: saibamais.jor.br

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