Por: Pastor Moisés Meirelles – Igreja Batista Peregrina do Natal
O Ato na Praça Cívica em Natal/RN
No dia 21 de janeiro de 2026, o Brasil celebrou o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, instituído pela Lei nº 11.635/2007 em memória de Mãe Gilda de Ogum, ialorixá do Candomblé que faleceu no ano de 2000 após sofrer ataques de intolerância religiosa. A data coincide com o Dia Mundial da Religião, criado em 1949 pela comunidade Bahá’í, com o objetivo de promover o respeito, a tolerância e o diálogo entre diferentes tradições espirituais.
Neste dia, a Praça Cívica da Cidade do Natal foi palco de um ato simbólico promovido pelo Fórum Inter-Religioso do Rio Grande do Norte. O evento reuniu representantes de diversas tradições religiosas — cristãs, islâmicas, afro-brasileiras, espíritas, xamânicas, entre outras — em um gesto público de unidade e respeito.
O encontro foi marcado por orações coletivas, cânticos e reflexões sobre a importância da convivência pacífica entre credos. Cada liderança presente destacou a necessidade de combater o preconceito e a intolerância, reforçando que o diálogo inter-religioso é um caminho para a paz e para a justiça social.
Esse ato na Praça Cívica simbolizou não apenas a memória de Mãe Gilda, mas também o compromisso das comunidades religiosas de Natal em defender a liberdade de fé e o cuidado integral com a criação.
Essas celebrações nos convidam a refletir sobre a importância da convivência pacífica entre credos e sobre o impacto da intolerância na vida das pessoas e na sociedade. Como afirmou Nelson Mandela: “A intolerância religiosa é uma forma de violência que destrói a coesão social e promove o ódio.”
A Epifania de Saulo de Tarso na Tradição Cristã e o Diálogo Inter-Religioso
A experiência mística de Saulo de Tarso no caminho de Damasco (Atos 9:1-17), por meio de uma revelação súbita — uma epifania — transformou-o de perseguidor da Igreja em defensor da liberdade religiosa. Tal experiência mostra que o Divino se revela em lugares e através de pessoas improváveis, chamando-nos à conversão do amor e ao cuidado integral de cada ser e de toda a criação.
Eco-Teologia Mística: Um Chamado ao Cuidado de Todos os Seres Planetários
A mensagem divina central dada a Saulo de Tarso, futuro Apóstolo Paulo, foi clara: a fé individual ou a religião à qual servimos não podem ser utilizadas como instrumento de perseguição a outras expressões do Sagrado. Ao contrário, devem ser transformadas em práticas concretas de cuidado com todos que fazem parte do mundo, por meio do amor e do acolhimento.
Portanto, Saulo precisava compreender que o Evangelho (Boas Notícias) deveria ir além da circunscrição judaica, em efetivo diálogo com o mundo gentílico.
Na atualidade, para entendermos a vida e missão de Saulo de Tarso, é necessário compará-las às experiências místicas de outros representantes religiosos:
- Missão ecológica: Paulo, após sua conversão, compreendeu que o chamado divino incluía o cuidado com todos os homens (Romanos 5:18) e com todo o ecossistema (Romanos 8:19-22).
- Inter-religiosidade: experiências semelhantes à de Saulo são encontradas em diferentes tradições religiosas — como Buda, Krishna, Muhammad, Lao-Tse e nas religiões afro-brasileiras — apontando para a necessidade de respeito e harmonia com o próximo e com toda a natureza.
- Práticas espirituais: as epifanias quase sempre estiveram conectadas com a natureza. Rituais religiosos, desde a fé judaica e cristã (holocaustos e eucaristias) até os sacrifícios e consagrações das tradições afro-ameríndias, mantêm relação direta com componentes da Mãe Natureza, demonstrando a integração entre espiritualidade e ecologia.
Reflexões e Aplicações Práticas
Cada pessoa é convidada a refletir sobre seu próprio “caminho de Damasco”:
- Como sua experiência com o Divino pode transformar sua vida e suas relações com outras expressões de fé no cuidado eco-teológico?
- Qual é sua missão diante da intolerância religiosa e da crise ambiental?
- Como promover justiça, democracia e respeito entre tradições religiosas diferentes, unindo aspectos comuns dessas tradições na defesa do meio ambiente?
Conclusão
A epifania de Saulo nos ensina que ninguém está além da graça do Divino. Sua história inspira a Igreja e todas as tradições religiosas a viverem uma fé prática, que se traduz em respeito, diálogo e cuidado integral com a criação.
O chamado é urgente: converter-se ao amor, ao cuidado e à interconexão de todos os seres. Assim, poderemos construir uma sociedade mais justa, democrática e harmoniosa, em que a diversidade religiosa e as pautas ecológicas sejam tratadas com consideração e respeito.
📍 Natal, 24 de janeiro de 2026
Nota biográfica do autor:
Moisés Meirelles de Araújo Blanco – Pastor da Igreja Batista Peregrina do Natal. Graduado em Teologia (ESTEADEB/FATERJ) e Serviço Social (UNOPAR). Pós-graduado em Direito Constitucional (UCAM). Licenciado em Pedagogia (UFRN). Graduando em Psicanálise (UNINTER). Membro do Fórum Inter-religioso do RN, desde 2019.
Fonte: saibamais.jor.br
