Há artistas que constroem obras. Outros constroem territórios. Civone Medeiros constrói modos de existir. Sua trajetória, iniciada ainda na infância, atravessa quase quatro décadas de atuação artística em Natal e mundo afora, marcada pela recusa à separação entre arte e vida, pela experimentação radical do corpo, da palavra e da convivência, e por uma ética que ela mesma define como um exercício constante de “desarmar bombas no mundo”. “Enquanto a gente está contando história, a gente está desarmando bombas”, afirma. “Eu boto muita fé nisso.”
Nascida em 1972, ano bissexto, Civone costuma brincar que carrega “três adversários”, já que o aniversário só se completa de quatro em quatro anos. Alfabetizada muito cedo, aos seis anos já escrevia poemas. O primeiro foi dedicado à mãe, professora da rede pública estadual, figura central em sua formação ética e sensível.
A escrita veio antes de tudo, mas não como arte. Veio como necessidade: “A escrita me veio como algo extensivo ao ser. Não veio como arte.” Ainda criança, ouviu de uma professora a frase que marcaria sua trajetória: “Você é poeta”. Sem saber exatamente o que isso significava, decidiu que queria ser aquilo.
A dança surgiu logo depois, entre os nove e os onze anos, como a primeira linguagem artística a atravessá-la de modo decisivo. Em 1986, ainda adolescente, subiu ao palco do Teatro Alberto Maranhão integrando a Companhia de Dança do Edithan. Anos mais tarde, compreenderia aquela experiência como seu primeiro contato com a ideia de obra de arte total. “Ali eu tive a noção de uma obra de arte total. Muitos anos depois eu fui estudar e entender o que era isso.”
Desde cedo, Civone desejava ser múltipla. Queria cantar, dançar, escrever. Inspirada por ícones pop da infância, mas o que de fato a moldou foi o ambiente doméstico, onde a arte nunca esteve dissociada do cotidiano. A mãe costurava, bordava, pintava, cozinhava… A avó ensinava, sem teoria, que vestir, pentear, alimentar e cuidar também eram formas de arte. “Vovó sempre dizia que tudo isso fazia parte. O comer fazia parte. Costurar a própria roupa fazia parte.”
Esse entendimento, que Civone hoje relaciona a saberes ancestrais e modos de vida não europeizados, tornou-se base de sua atuação artística e política. Arte, para ela, nunca foi produto isolado, mas prática coletiva, artesanal e relacional.
Nos anos 1980, integrou o Grupo Oxente, coletivo formado por adolescentes de diferentes linguagens artísticas em Natal, em um contexto de extrema precariedade material e informacional. Sem internet, com revistas importadas e caras, os encontros aconteciam nas ruas, no Alecrim, na Pedra do Rosário, em redes de troca e boca a boca. “Era a nossa rede social”, lembra ela.
Décadas depois, o Oxente seria citado em uma grande exposição nacional sobre a geração artística dos anos 80, fruto de cinco anos de pesquisa do curador Rafael Fonseca. O reconhecimento tardio contrasta com as dificuldades enfrentadas à época. “Tudo era muito difícil financeiramente, economicamente e logisticamente”, relembra.
Ainda assim, o grupo abriu caminhos. Civone passou a circular pelo Nordeste e, em uma viagem emblemática, seguiu para São Paulo apenas com passagem de ida, em uma travessia que misturava risco, desejo e urgência de conexão com outros territórios artísticos. O contato com o exterior se intensificou no fim dos anos 1990, quando passou a viver entre o Brasil e a Europa, estabelecendo-se por cerca de cinco anos em Viena, na Áustria. Lá, trabalhou em museus, galerias e centros culturais, ampliou suas pesquisas e iniciou uma atuação curatorial antes mesmo de nomear essa prática. “Eu já estava fazendo curadoria sem saber o que era. Fazendo pontes, sem um centavo. Só sonhos.”
Dessa experiência nasceu o projeto Arte da Esquina do Brasil, que levou dezenas de artistas brasileiros para a Europa no início dos anos 2000. A iniciativa teve impacto internacional levando artistas brasileiros a exposição na Europa.
Lançou em 1999 seu primeiro livro, Escrituras Sangradas, um compilado de textos escritos desde a infância. O lançamento se tornou um acontecimento cultural em Natal, fechando a Ribeira em uma noite que reuniu poesia, música, dança e performance. “Eu fechava a Ribeira para lançar um livro de poesia”, recorda, exibindo fotografias do evento.
Dez anos depois, já de volta ao Brasil, lançou Propósito de Viena e outros Ondes, também de forma independente. Ambos os livros estão esgotados. Hoje, Civone sonha em republicá-los e organizar uma fortuna crítica que reúna ensaios, registros e olhares sobre sua obra. “Eu não sou a mensagem. Eu sou a mensageira”, comenta ela sobre sua produção poética.
Em um dos episódios mais radicais de sua trajetória, Civone protagonizou uma performance apresentada no Salão Bela Vista, em Natal, durante uma homenagem à arte antropofágica. Ela entrou no espaço cênico carregando cerca de três quilos de fígado cru, enquanto músicos tocavam tambores e violino. Em meio ao público, encenou contrações e um parto simbólico, do qual emergiam pedaços de carne que eram devorados em cena, em uma crítica direta ao canibalismo social e à lógica do “homem devorando o homem”. A ação provocou forte reação institucional e resultou na interdição do espaço para a artista por cerca de dez anos, episódio que se tornou emblemático da relação conflituosa entre sua obra e os limites impostos à arte experimental em Natal, seu campo de atuação.
O retorno definitivo a Natal, em 2003, foi acompanhado de uma decisão radical: zerar expectativas. “Eu não esperava nada dessa cidade.” A escolha, no entanto, não significou afastamento. Pelo contrário. Civone mergulhou em projetos comunitários no Centro Histórico, especialmente no Beco da Lama, onde criou iniciativas como o Festival Prato do Mundo, inspirado em experiências vividas na Europa e hoje mantido de forma coletiva.
Sua produção visual se intensificou nesse período, incorporando colagens, tecidos, crochê, tricô, objetos encontrados e elementos orgânicos. A poesia passou a ocupar o espaço físico, transformando-se em instalação, performance e obra tátil. “Eu sou uma mulher de retalhos”, define. “Cada retalho é um pedaço de uma vida.”
A maternidade ocupa lugar central nessa poética. Sua filha, Bianca, hoje com 31 anos, atravessa toda a obra. Desenhos, escritos e vestígios da infância são incorporados aos trabalhos. “Minha melhor obra de arte é minha filha.”
A partir dos anos 2010, Civone consolidou uma poética marcada pelo amor como gesto político. Não um amor conciliador, mas uma ética de coexistência. “O amor não é fofo. O amor é assertivo.” Para ela, amar é não conceber uma vida que exclua outras vidas.
Ao pedir pra ela citar momentos marcantes de sua carreira na última década, ela destaca que em 2016, realizou uma exposição marcante pelo Sesc, experiência que ela destaca como ponto de virada. “Foi a primeira vez que fui bem paga, bem tratada, que meu trabalho foi cuidado.” Em 2022, voltou a expor em Natal em uma mostra que reuniu altares, plantas, pedras e instalações sensoriais.
No mesmo ano, enfrentou uma grave crise de saúde. Um apêndice rompido levou a uma cirurgia de emergência, meses de recuperação e uma experiência de quase morte. “Foi uma morte de novo.” A convalescença trouxe limites físicos, mas também reforçou a urgência de organizar sua história.
Hoje, Civone ministra oficinas, participa de exposições e desenvolve um projeto de economia criativa que articula sua poesia com o fazer manual. Ao mesmo tempo, acalenta o desejo de criar, em Natal, um espaço próprio que funcione como casa-escola. “Um lugar de acolhida, de partilha, de formação”, define.
Ela define ser artista em Natal como “uma invenção muito atrevida”. Inventar condições onde elas não existem, trabalhar com o precário, persistir sem subserviência. “Eu caio sete vezes e levanto oito.”
Ao olhar para trás, Civone reconhece o legado construído sem apoio institucional consistente, movida por algo maior que o próprio ego. “O defunto não tem bolso. O que me interessa é o que fica.”
E o que permanece em sua trajetória é a insistência em existir pela arte, em narrar como forma de sobrevivência, em fazer da criação um gesto contínuo de desarmamento do outro e de si própria, e de cura por meio do próprio processo de criação artística.
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Fonte: saibamais.jor.br
